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ARCA DE NOÉ
Uma cena de hoje poderia ser de cem ou de cinco mil anos
atrás. Uma paisagem que parece imutável, parada no
tempo. Quem vem de um país de natureza exuberante e
colorida demora a perceber as nuances, a diversidade. As
rochas das montanhas mudam de cor ao longo do dia.
Sombra e luz alteram seus contornos. Quando encontra o
Mar Morto, ponto mais baixo da Terra, a cor explode pelo
contraste. O deserto é desafio de todos os dias, desde o
começo dos dias. Algumas experiências anteriores me
ajudam a não fazer feio. A descida de rapel pode ser a
opção mais emocionante em termo de aventura, mas há
muitas outras atividades: passeios, safáris, caminhadas
de quatro quilômetros pelo vale, aproveitando a paisagem
bíblica. E o homem não é o único a se adaptar ao clima e
às condições do deserto. O ibex é quase um símbolo da
natureza da região. Uma coleção de animais, a maioria
antílopes, é mantida em uma fazenda no meio do deserto.
Uma espécie de Arca de Noé em pleno século 21. Raros ou
até ameaçados de extinção em seus habitats naturais,
como na vizinha África, no local eles estão seguros.
Procriam e são vendidos para zoológicos do mundo
inteiro. Animais estranhos, com histórias antigas. Um
deles, que parece um projeto de zebra, é mesmo um
ancestral dela. As listras evoluíram. Um animalzinho é
apresentado aos turistas como um parente afastado... do
elefante! Plenamente adaptado ao ambiente, ele busca
alimento no alto das árvores. Com agilidade
surpreendente para um comprovado glutão. Guloso, o hirax
come diariamente o equivalente a um quarto do seu peso.
E nas folhas também encontra toda a água de que precisa.
Simpático, mas tímido, ele evita contato mais próximo
com os visitantes do santuário ecológico. |
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CERIMÔNIA NO DESERTO
Um parque nacional que é ponto de encontro de
estudantes, sala de aula a céu aberto, cheia de
surpresas, como a pequena cachoeira escondida entre as
pedras. Segredos do deserto. Nem a temperatura de 15ºC,
bem fria para nós, espanta os adolescentes loucos por
uma aventura para contar em casa. Pelo visual de cada
grupo, vamos percebendo também a diversidade humana de
Israel. Garotas religiosas usam saias compridas sempre.
O guia judeu, com o típico lenço árabe na cabeça, mostra
como o ambiente promove a aproximação entre as
diferenças. Acompanhando cada turma de estudantes,
seguranças armados. Intrigante – até chocante – para
quem vem de fora, é uma imagem mais do que comum em
Israel, esse pequeno país, do tamanho de Sergipe, muito
novo, em uma terra muito antiga. Os judeus tentam
restabelecer seus marcos na terra onde viveram como um
povo até dois mil anos atrás.
Descoberta na primeira metade do século 19 e explorada
principalmente depois da criação do Estado de Israel, há
60 anos, Masada foi transformada pelos israelenses em
uma espécie de símbolo – de resistência, de heroísmo, de
tragédia. O que teria acontecido nas ruínas é um marco,
um ponto de ruptura, em uma história de quatro mil anos.
Esse foi o último lugar onde os judeus que se revoltaram
contra o domínio romano no começo da era cristã se
entrincheiraram. A fortaleza construída pelo rei Herodes
era grandiosa, como ainda se pode ver. Um engenhoso
sistema para captar e armazenar água da chuva garantiu
uma resistência três anos em Masada. Quando perderam a
esperança, os revoltosos teriam promovido um suicídio
coletivo para evitar a escravidão.
A partir desse momento, a dispersão dos judeus pelo
mundo, movimento conhecido como diáspora, ganhou um
impulso definitivo, dois mil anos depois do patriarca
Abraão ter estabelecido as bases do judaísmo. Uma
cerimônia revela a enorme força simbólica de Masada. Um
rabino celebra um bar mitzvah, a cerimônia mais
importante da vida judaica. Ela marca a entrada na
maturidade religiosa do menino, aos 13 anos, e da
menina, aos 12. Os jovens passam a ser responsáveis por
seus atos e devem cumprir os rituais do judaísmo, como o
de jejuar em algumas datas sagradas e guardar o dia
santo, o Shabbat. O bar mitzvah é sempre motivo de
festa, de enorme alegria. Nesse caso, tudo emoldurado
por um cenário de tirar o fôlego e que também estimula a
reflexão. |
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O MAR VERMELHO É... AZUL!
É assim em Israel: religião, história e natureza quase
sempre se confundem, como em Cesaréia, que nasceu como
um porto romano. É herança deles um aqueduto, que
surfistas cruzam despreocupados nos fins de semana. É
romano, também, o anfiteatro. Palco de espetáculos –
alguns muito sangrentos – dois mil anos atrás. Os
cruzados deixaram as muralhas que envolvem a cidade. O
Império Bizantino está em uma rua. Cinco séculos de
dominação árabe são bem visíveis. No presente, em
Cesaréia, o espaço histórico serve de refúgio para
tardes de preguiça à beira do Mediterrâneo. O nome de
outro mar vem das montanhas que ele separa: Mar
Vermelho. Incrivelmente azul no começo da manhã. Cenário
bíblico, esse mar é hoje sinônimo de verão para os
israelenses e paraíso para mergulhadores do mundo
inteiro. A água clara facilita as aventuras entre
recifes e peixes – tudo muito nítido. E a viagem é
possível até para quem gosta de tudo isso mas prefere
não molhar nem os pés, em um observatório construído
dentro do mar. A paisagem urbana, nova em folha, busca
inspiração em outros balneários e centros turísticos do
mundo.
E é um ponto de referência também na questão política da
região. Israel só mantém acordos de paz com dois países
árabes: Jordânia e Egito. No extremo sul do país, a
cidade turística e portuária de Eilat fica bem próxima
desses países. A poucos quilômetros em outra direção
está o Deserto do Sinai, egípcio. E do outro lado,
também às margens do Mar Vermelho, está a cidade
jordaniana de Ácaba. Se estendendo mais ao sul, fica a
Península Arábica, toda composta por países que não
mantêm relações diplomáticas e nem ao menos reconhecem o
Estado de Israel. A relativa tranqüilidade de suas
fronteiras mais próximas também faz de Eilat um ponto de
passagem para muitos israelenses que fazem turismo nas
praias egípcias ou visitam Petra, na Jordânia. No outro
extremo do país, ao norte, sol e neve. No inverno, o
Monte Hermon é o destino de esquiadores. Mas a presença
de soldados armados em cada ponto da estação de esqui
mostra que naquela fronteira a situação é mais tensa. |
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NAS ÁGUAS DO RIO JORDÃO
As Colinas de Golan são uma parte do território sírio
ocupada por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Mas, para os israelenses, Golan significa muito mais do
que simplesmente beleza, turismo, diversão. A região tem
grande valor estratégico do ponto de vista militar, pelo
controle que ela permite, do alto, das fronteiras com os
vizinhos Síria e Líbano. Lá também está a origem de um
recurso fundamental em um país que tem metade do seu
território no deserto. O degelo da primavera reforça as
nascentes de água da região. Montanha abaixo, atravessa
a Reserva de Bannias. O volume de água pode não
impressionar muito para quem tem o Brasil como
referência, mas é vital para Israel. Lá estão as
principais nascentes do Rio Jordão, fundamental para a
produção agrícola do país. Quando o Rio Jordão chega a
determinado ponto forma o Mar da Galiléia.
Na realidade, um grande lago, de onde Israel tira perto
de 30% de sua água potável. A lendária Tiberíades fica
às margens do Kineret, como é chamado em hebraico o Mar
da Galiléia. As águas sobre as quais Jesus teria andado
hoje banham uma cidade moderna. Mas o Rio Jordão ainda
guarda sua aura sagrada para os cristãos. No ponto onde
Jesus teria encontrado João Batista, eles reafirmam seus
votos de batismo. Um grupo chegou da Romênia. A
cerimônia pode ser um pouco informal, mas a emoção está
presente. Uma professora de informática em Bucareste se
afasta um pouco, vive intensamente o momento, canta
velhas canções tradicionais de batismo da sua terra.
Parece estar sozinha. Só ela e sua fé imensa. Quando
termina, conta que planejou a viagem por muito tempo.
Está realizada. "Foi um presente", diz ela. Uma história
que vai contar aos filhos e netos. A história do dia em
que renasceu no Rio Jordão, em Israel. |
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PÃO E VINHO
Olhando de cima, nada de deserto. Na face verde de
Israel, onde chega a irrigação e o solo ajuda, tudo é
plantado. Cidades e campos se alternam contínuos.
Jonhantan Tshibi tem a agricultura no sangue da família.
Seu avô chegou à antiga Palestina 120 anos atrás.
Agricultor judeu, imigrante da Bielo-Rússia. Hoje o neto
é dono de grandes vinhedos e um dos maiores produtores
de vinho de Israel. Explica que o vinho tem significado
especial para os judeus, está presente nas celebrações
religiosas, congrega amigos e famílias, é parte de
qualquer comemoração. O vinicultor nos convida a provar
o que produz. O estabelecimento – meio loja, meio
restaurante – pertinho do vinhedo, está cheio, às
vésperas de um fim de semana. Ele serve o que tem de
melhor. Diz que nem sabe direito quantas medalhas o
vinho já ganhou. Foram tantas... Os antepassados dele,
nos rótulos, deveriam estar sorrindo. Do vinho, no
campo, chegamos ao pão, à beira-mar. Jaffa, com seus
quase quatro mil anos, citada no Velho Testamento, hoje
está anexada à maior metrópole de Israel: Tel Aviv,
fundada há menos de um século, quando a lendária padaria
Abulafia já estava na ativa. Os donos são árabes. Dina,
a gerente, é judia, assim como um amigo da casa, judeu
ortodoxo.
Para explicar essa alquimia, Dina recorre ao que está à
vista. "Sou um tempero", ela brinca. Como o zatar,
mistura de ervas típica do Oriente Médio, sobre o pita,
o pão árabe. "Comemos juntos, somos vizinhos. Eu vejo
que há caminhos para a paz, mas há muita coisa
envolvida, como dinheiro e poder", comenta Dina. Cenário
ideal para essa discussão é Haifa, a terceira maior
cidade de Israel e o principal porto do país. Construída
em colinas a partir do mar, é conhecida por sua beleza e
admirada por seu clima de tolerância. Uma de suas
principais vozes é o poeta Samir Michael: judeu
iraquiano, autor de poemas e romances de sucesso,
presidente da Associação para os Direitos Civis de
Israel. Ele chegou em 1949 e morou três anos em um
bairro árabe de Haifa. De lá saíram alguns personagens
que povoam seus livros. Escrevendo em hebraico, Samir
Michael foi o primeiro escritor do país a mostrar os
árabes comuns, sem conexão com terrorismo ou política.
"Eu mesmo tenho duas mães: uma árabe, que me deu à luz
no Iraque, e Israel, a mãe judia que me acolheu", conta.
"Haifa, branca, azul e bela, é um modelo de paz, de
respeito mútuo", diz o poeta. |
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TERRA DA TOLERÂNCIA
Coexistência pode ser barulhenta, bagunçada. Respeito
não precisa ser solene. A escola acha que se é para se
entender, melhor começar cedo. Em uma semana as crianças
árabes vão para brincar, conviver, conhecer. Na outra,
são as crianças judias que visitam a escola árabe.
Quando começa o jogo, é cada um por si e todos pela
brincadeira. Depois mais compenetrados, mas ainda
brincando, eles tentam identificar palavras semelhantes
em árabe e em hebraico. E todos dançam para celebrar o
final de mais um encontro. "Gostaria de ter tido essa
oportunidade quando criança", diz o professor da escola
árabe Ibrahim Wasan. Ibrahim, que em hebraico seria
Avraham e em português Abraão, conta que só passou a
conviver com judeus na universidade, em um programa como
esse, e só então pôde olhar para eles como simples seres
humanos, sem se importar com a religião. "Aqui as
crianças vêem que têm afinidades, que gostam das mesmas
coisas e que os árabes não são apenas aqueles que jogam
bombas em Israel", completa Ibrahim. A diretora da
escola, Shosi Idan, explica que o projeto começa com as
crianças e depois vai envolver pais e professores. "Os
dois lados têm medo e se você se der conta que o outro é
um ser humano, isso pode acabar", defende.
Principal cartão-postal de Haifa, jardins cuidados por
200 jardineiros também falam de paz, convivência,
entendimento. Ocupam 19 patamares nas encostas do Monte
Carmel. Profetas do Antigo Testamento teriam caminhado
pelo local. É o centro espiritual da religião Bahai.
Como os judeus, os muçulmanos e os cristãos, os bahais
são monoteístas: acreditam em um só Deus. Seu profeta e
fundador é Bahula, que viveu na Pérsia, hoje Irã, no
século 19. Dois brasileiros, voluntários, vão ficar dois
anos por lá. Fazem parte dos 6,5 milhões de seguidores
dos ensinamentos do profeta Bahula. "A fé bahai acredita
que a religião de Deus é uma só e ela é revelada de
tempos em tempos", explica Housseyn de Almeida. "Apesar
de existir essa imagem conflituosa, pelo menos em Haifa
as diferentes religiões existem em harmonia. As pessoas
têm uma vida normal, como em qualquer outro lugar do
mundo. Basicamente, é como se o conflito não existisse",
diz Sheila da Silva.
Afinal, qual é cara desse país? Em 7 milhões de
habitantes, quase 5,5 milhões são judeus, nascidos em
Israel ou vindos de 80 países diferentes. A última
grande leva de imigrantes foi de russos, nos anos 80 e
90: 1 milhão de pessoas. Há quase um 1,5 milhão de
cidadãos árabes israelenses e pouco mais de cem mil
drusos, povo sem país próprio – de bigodões, calças
engraçadas, jeito extrovertido, caloroso. Dar El é uma
cidade drusa no norte de Israel. Um comerciante nos
atrai para mostrar uma bandeira no Grêmio e explica quem
é seu povo: "O druso é um povo de paz. Está em Israel
para o que der e vier – na guerra, na paz, no Exército.
Se está na Síria, é sírio. Se está no Líbano, é libanês.
A religião é secreta, mas pouco importa. Todo druso deve
ser justo e honesto". Ele mostra uma casa, meio museu,
típica, como o instrumento que ele toca. Lá fora, na
calçada, uma mulher começa o que, para nós, é um show.
Para ela, rotina repetida há gerações. Habilidade,
prática, tradição. Pão, lafa, coalhada e azeite. O
triunfo da simplicidade tirada da terra. De uma terra
considerada santa. |
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VIAGEM EM LOMBO DE BURRO
Um olhar vigilante e curioso nas ruínas de Cafarnaum.
Uma freira ajuda a cuidar da primeira sinagoga onde
Jesus pregou. Está embaixo de outra, construída quatro
séculos depois. O local onde Jesus teria nascido, em
Belém, está guardado por uma igreja imponente. Faz parte
do roteiro turístico cristão em Israel, mas fica na
Cisjordânia, território palestino. A poucos quilômetros
de Jerusalém, Belém também é o lugar onde muitos
visitantes da Terra Santa entram em contato pela
primeira vez com a dura realidade do conflito entre
israelenses e palestinos, que tem como seu maior símbolo
o muro que separa esses dois povos, tão próximos e ao
mesmo tempo tão distantes. Ainda em construção, já tem
mais de 400 quilômetros, gera críticas pela comparação
com outras barreiras das quais a Humanidade já se
livrou. Israel assume esse risco para sua imagem em nome
da segurança. "A priori, a imagem choca. Mas com o tempo
você vai se acostumando e passa a entender o porquê",
disse o pastor Dorival Pinheiro, em visita a Israel.
"Essa questão política é ruim. Por outro lado, não é
como se imagina.
Nós estamos visitando a Terra Santa há dias e não vimos
nenhum confronto, nenhum problema", contou o pastor
Adivanir Alves Pereira. O número de atentados caiu
mesmo, drasticamente, depois do muro. Mas ele também
cimentou um pouco mais o ressentimento entre os dois
povos. Milhares de palestinos que tinham trabalho em
Israel já não podem chegar até ele. O desemprego chega a
40% na Cisjordânia. Bilel e Jamil estão entre os que não
podem ultrapassar o muro. São beduínos, descendentes de
gerações de pastores de cabras e ovelhas na região de
Jericó. Mas decidiram migrar para outra atividade.
Balança um pouco, não é lá muito confortável. Mas o
destino final compensa qualquer dor nas costas.
Encravado no rochedo, fica o Mosteiro de São Jorge, da
Igreja Ortodoxa grega, a meia hora de Jerusalém. Os
aquedutos na encosta são herança romana. As cruzes aqui
e ali sinalizam o caminho até o mosteiro, construído há
mais 1,5 mil anos. Trilha seguida por peregrinos ao
longo de séculos, mas que hoje não rende muito trabalho
para Jamil e Bilel. Eles reclamam que a vida está
difícil, que muita gente tem medo dos árabes. Mas
garantem que no local a paz está garantida. Os turistas
são bem-vindos, e o táxi, como Bilel chama seu burrinho,
está sempre no ponto. |
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UMA CIDADELA MEDIEVAL
Plácida, no alto de uma elevação, Szfat parece estar
longe dos problemas humanos, dos conflitos políticos.
Uma cidadezinha medieval, judaica desde sempre. Szfat é
uma das quatro cidades sagradas do judaísmo. Cada uma
delas ligada a um elemento da natureza: Jerusalém, o
fogo, sempre aceso no templo; Hebron, a terra, túmulo
dos patriarcas; Tiberíades, a água; Szfat, o ar. A
cidadela medieval atrai judeus religiosos de várias
correntes pela qualidade do ar. O ar da sabedoria, diz a
mística judaica. Nas lojas da ruazinha principal, arte e
religião – juntas ou separadas, por toda parte. E são
muitos os que procuram a pequena Szfat para viver
plenamente sua fé. Sempre há fiéis nas sinagogas. O
Senhor é louvado em todas as horas do dia. Estuda-se a
Torá, o livro sagrado dos judeus. "Até em termos
físicos, o ar aqui é limpo. É um ambiente muito bom para
as pessoas que querem se aprofundar na Tora, se
aproximar mais de Deus", diz Arie Toielboim, diretor de
uma yeshivá – escola religiosa – que reúne alunos da
vertente hassídica, um movimento de judeus da Europa
Central que prega o judaísmo vivido com alegria e
obediência às leis, a música e a dança como formas de
oração. |
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OS MISTÉRIOS DA CABALA
Em Szfat também é forte um outro ramo do judaísmo: a
cabala, que hoje está na moda. Celebridades como a
cantora Madonna e a atriz Demi Moore se tornaram
adeptas. Mas o estudioso Eyal Reiss, diretor do Centro
Internacional de Cabala, conta que durante séculos a
cabala esteve restrita a poucos iniciados. Ressurgiu há
700 anos, na Espanha. Depois, expulsos de lá, os
cabalistas se refugiaram em Szfat, onde uma escavação
revelou uma caverna usada por eles nos séculos 15 e 16.
Mas, afinal, o que é a cabala? "A cabala decifra o
código da criação usando números, geometria, letras.
Segundo ela, cada elemento físico da Criação tem uma
raiz espiritual. Essas raízes podem ser identificadas e
os elementos da Criação, usados para as causas de Deus e
do bem", diz ele. Ou seja: complicadíssimo. Estudo que
ocupa a vida inteira de muitos cabalistas. |
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O DIA SAGRADO DOS JUDEUS
É um pequeno território, pelo qual se bateram grandes
impérios do mundo. Lugar sagrado para metade da
população do planeta. Corações e mentes de mais de três
bilhões de pessoas rezam voltados para Jerusalém. Em uma
cidade de tantas crenças, existe um ponto-chave, em que
muitas delas se entrelaçam: Monte do Templo para os
judeus, Esplanada das Mesquitas para os muçulmanos.
Cenário de relatos bíblicos, onde Abraão, patriarca das
três religiões monoteístas, quase teria sacrificado um
filho, e o mesmo lugar de onde Maomé, o fundador do
islamismo, teria iniciado sua jornada ao céu.
Construídas há mais de 1,3 mil anos, a Mesquita de El
Aqsa e o Domo da Rocha marcam essa tradição islâmica. E
uma cena dentro da rocha sagrada raramente pode ser
filmada. A entrada de não-muçulmanos é proibida nas
mesquitas. Tivemos uma licença especial. Grandiosas,
imponentes, ricamente decoradas no rebuscado estilo
árabe, elas só podem ser apreciadas por fora pelos
turistas. A área está sob custódia de uma organização
árabe. A religião judaica proíbe a entrada de judeus
nesse pedaço da Cidade Velha de Jerusalém.
Eles chegam somente até o Muro das Lamentações, na base
da esplanada, que fazia parte das fundações do segundo
grande templo judaico, construído pelo rei Salomão e
destruído pelos romanos há quase dois mil anos. Judeus
de todo o mundo têm nesse lugar seu símbolo mais
sagrado. A eterna lembrança da dispersão do seu povo e
do sonho de retorno. A Velha Jerusalém é uma cidade
murada e cercada pela cidade atual, com 800 mil
habitantes. Dentro dos muros vivem 50 mil pessoas –
judeus, cristãos, muçulmanos – em bairros chamados
quarteirões, bem definidos, com características
próprias. Milênios de história se escondem e se revelam
em ruelas onde o sagrado se mistura vivamente com o
profano. Peregrinos de três grandes crenças se cruzam em
um labirinto, celebram seus ritos, descansam das sempre
longas caminhadas. Na sexta feira, entre a manhã e o
cair da tarde, a Velha Jerusalém fervilha. Desde as
primeiras horas do dia os muçulmanos celebram seu dia
sagrado. Rumo às mesquitas da esplanada, milhares de
pessoas chegam pelos portões voltados para o lado árabe,
oriental, da cidade. Um deles é o Portão de Damasco. Ao
cair da tarde, ao surgir a primeira estrela no céu,
começa o Shabatt, o dia sagrado dos judeus. Roupas
saídas de séculos passados mostram a origem de cada
grupo religioso. O Shabatt pára as áreas mais religiosas
do país. O comércio fecha, as ruas se esvaziam. É dia de
recolhimento, de descanso.
Na cidade de Nethanya fomos conhecer a cerimônia do
Shabatt, que costuma ser fechada aos não-judeus. Mas na
sinagoga de uma corrente mais liberal somos acolhidos
com entusiasmo por uma rabina. Lá homens e mulheres se
misturam. Em sinagogas mais ortodoxas, rezam separados.
E uma mulher rabina, então, é impensável. A benção do
vinho é feita por um fiel. A abertura da arca sagrada,
onde está a Torá, dá solenidade à liturgia. Vem a
lamentação. Fim da cerimônia. "Estudei judaísmo minha
vida inteira. Sempre estive envolvida com o judaísmo",
diz a rabina Mira Raz. E brinca: "Todo mundo ficou
orgulhoso, algo parecido com ter uma astronauta na
família". Acabamos recebendo um convite irrecusável:
celebrar o fim do Shabatt na casa da rabina. No
apartamento em Tel Aviv ela reuniu toda sua turma: duas
filhas, dois genros e o filho em uma mesma família – um
bom retrato da sociedade de Israel. Shiira é cantora
lírica. Hanana, bailarina e atriz. Está em um seriado de
enorme sucesso na televisão israelense. Oren é militar.
Continuou no Exército depois do serviço obrigatório de
três anos como especialista em informática. A mesa está
preparada para a cerimônia do Havdalá: velas, pães, sal
e vinho. Todos celebram. É o espírito do Shabbat: encher
o coração de alegria, para que ela continue durante a
semana até a primeira estrela aparecer, na próxima
sexta-feira. |
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MULHERES NO EXÉRCITO
O som parece duro, difícil de reproduzir. O hebraico
chegou a ser uma língua morta, mas renasceu e foi um dos
fundamentos do novo Estado de Israel. Traço de união
entre tantas nacionalidades. O hebraico é fundamental
para cumprir outro rito de passagem na vida israelense:
servir o Exército. Aos 18 anos, homens e mulheres são
convocados. Para elas, dois anos. Três para eles.
Dedicação exclusiva. Planos, só depois do serviço
militar. Uma unidade é só para imigrantes no norte do
país. "Dá um tempo aos jovens para ganharem maturidade",
avalia uma instrutora. Ela diz que, além de importante
para a segurança do país, o Exército ajuda a nivelar os
israelenses de diferentes classes sociais. "Aqui todos
são iguais", ela diz. Uma alemã, ao lado de duas colegas
russas e uma francesa, é a mais animada. Diz que desde
criança, quando vinha passar férias com os pais, sonhava
viver aqui, que se sente em casa e que, para ela, Israel
é o Exército. Léa também quer vestir farda a vida
inteira. Já as gêmeas Svetlana e Cristina parecem apenas
conformadas em esperar dois anos para continuar os
estudos. Depois a vida segue, elas dizem. E para
esquecer um pouco os rigores da vida no quartel, nada
melhor do que Tel Aviv. A principal cidade de Israel
ainda não completou cem anos.
Exala juventude em um país tão cheio de história. Exibe
construções modernas, assim como a maioria da população:
Mais secular, menos religiosa. Tel Aviv é conhecida como
"a bolha": um lugar fechado em si mesmo, que não se
deixa afetar pelo que acontece em outras partes do país.
Mas isso é mesmo possível? "Acho que todo mundo gostaria
que fosse a bolha, mas não dá. Você é rodeado por vozes,
notícias e tudo mais. Não dá para ignorar. Muitos buscam
essa bolha, mas ela está explodindo o tempo todo", diz
um escritor, sentado na rua mais boêmia da cidade. O
garçom não concorda. "A mídia aponta a câmera para um só
ponto e diz que isso é Israel. Mas se você andar por aí
vai ver que não é assim", diz ele. E outro jovem
completa: "As pessoas têm sua própria vida. São o centro
da própria vida, e não as bombas". Até parece verdade,
na Tel Aviv à beira-mar, em uma tarde de inverno
camarada. A música que vem do parque parece de outros
tempos. E é. São canções dos judeus da Europa oriental.
A língua é o iídiche, um dialeto com base no alemão, que
os músicos nem dominam. Só o suficiente para fazer uma
releitura do gênero, chamado klesman. |
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