ARCA DE NOÉ

Uma cena de hoje poderia ser de cem ou de cinco mil anos atrás. Uma paisagem que parece imutável, parada no tempo. Quem vem de um país de natureza exuberante e colorida demora a perceber as nuances, a diversidade. As rochas das montanhas mudam de cor ao longo do dia. Sombra e luz alteram seus contornos. Quando encontra o Mar Morto, ponto mais baixo da Terra, a cor explode pelo contraste. O deserto é desafio de todos os dias, desde o começo dos dias. Algumas experiências anteriores me ajudam a não fazer feio. A descida de rapel pode ser a opção mais emocionante em termo de aventura, mas há muitas outras atividades: passeios, safáris, caminhadas de quatro quilômetros pelo vale, aproveitando a paisagem bíblica. E o homem não é o único a se adaptar ao clima e às condições do deserto. O ibex é quase um símbolo da natureza da região. Uma coleção de animais, a maioria antílopes, é mantida em uma fazenda no meio do deserto.

Uma espécie de Arca de Noé em pleno século 21. Raros ou até ameaçados de extinção em seus habitats naturais, como na vizinha África, no local eles estão seguros. Procriam e são vendidos para zoológicos do mundo inteiro. Animais estranhos, com histórias antigas. Um deles, que parece um projeto de zebra, é mesmo um ancestral dela. As listras evoluíram. Um animalzinho é apresentado aos turistas como um parente afastado... do elefante! Plenamente adaptado ao ambiente, ele busca alimento no alto das árvores. Com agilidade surpreendente para um comprovado glutão. Guloso, o hirax come diariamente o equivalente a um quarto do seu peso. E nas folhas também encontra toda a água de que precisa. Simpático, mas tímido, ele evita contato mais próximo com os visitantes do santuário ecológico.

CERIMÔNIA NO DESERTO

Um parque nacional que é ponto de encontro de estudantes, sala de aula a céu aberto, cheia de surpresas, como a pequena cachoeira escondida entre as pedras. Segredos do deserto. Nem a temperatura de 15ºC, bem fria para nós, espanta os adolescentes loucos por uma aventura para contar em casa. Pelo visual de cada grupo, vamos percebendo também a diversidade humana de Israel. Garotas religiosas usam saias compridas sempre. O guia judeu, com o típico lenço árabe na cabeça, mostra como o ambiente promove a aproximação entre as diferenças. Acompanhando cada turma de estudantes, seguranças armados. Intrigante – até chocante – para quem vem de fora, é uma imagem mais do que comum em Israel, esse pequeno país, do tamanho de Sergipe, muito novo, em uma terra muito antiga. Os judeus tentam restabelecer seus marcos na terra onde viveram como um povo até dois mil anos atrás.

Descoberta na primeira metade do século 19 e explorada principalmente depois da criação do Estado de Israel, há 60 anos, Masada foi transformada pelos israelenses em uma espécie de símbolo – de resistência, de heroísmo, de tragédia. O que teria acontecido nas ruínas é um marco, um ponto de ruptura, em uma história de quatro mil anos. Esse foi o último lugar onde os judeus que se revoltaram contra o domínio romano no começo da era cristã se entrincheiraram. A fortaleza construída pelo rei Herodes era grandiosa, como ainda se pode ver. Um engenhoso sistema para captar e armazenar água da chuva garantiu uma resistência três anos em Masada. Quando perderam a esperança, os revoltosos teriam promovido um suicídio coletivo para evitar a escravidão.

A partir desse momento, a dispersão dos judeus pelo mundo, movimento conhecido como diáspora, ganhou um impulso definitivo, dois mil anos depois do patriarca Abraão ter estabelecido as bases do judaísmo. Uma cerimônia revela a enorme força simbólica de Masada. Um rabino celebra um bar mitzvah, a cerimônia mais importante da vida judaica. Ela marca a entrada na maturidade religiosa do menino, aos 13 anos, e da menina, aos 12. Os jovens passam a ser responsáveis por seus atos e devem cumprir os rituais do judaísmo, como o de jejuar em algumas datas sagradas e guardar o dia santo, o Shabbat. O bar mitzvah é sempre motivo de festa, de enorme alegria. Nesse caso, tudo emoldurado por um cenário de tirar o fôlego e que também estimula a reflexão.

O MAR VERMELHO É... AZUL!

É assim em Israel: religião, história e natureza quase sempre se confundem, como em Cesaréia, que nasceu como um porto romano. É herança deles um aqueduto, que surfistas cruzam despreocupados nos fins de semana. É romano, também, o anfiteatro. Palco de espetáculos – alguns muito sangrentos – dois mil anos atrás. Os cruzados deixaram as muralhas que envolvem a cidade. O Império Bizantino está em uma rua. Cinco séculos de dominação árabe são bem visíveis. No presente, em Cesaréia, o espaço histórico serve de refúgio para tardes de preguiça à beira do Mediterrâneo. O nome de outro mar vem das montanhas que ele separa: Mar Vermelho. Incrivelmente azul no começo da manhã. Cenário bíblico, esse mar é hoje sinônimo de verão para os israelenses e paraíso para mergulhadores do mundo inteiro. A água clara facilita as aventuras entre recifes e peixes – tudo muito nítido. E a viagem é possível até para quem gosta de tudo isso mas prefere não molhar nem os pés, em um observatório construído dentro do mar. A paisagem urbana, nova em folha, busca inspiração em outros balneários e centros turísticos do mundo.

E é um ponto de referência também na questão política da região. Israel só mantém acordos de paz com dois países árabes: Jordânia e Egito. No extremo sul do país, a cidade turística e portuária de Eilat fica bem próxima desses países. A poucos quilômetros em outra direção está o Deserto do Sinai, egípcio. E do outro lado, também às margens do Mar Vermelho, está a cidade jordaniana de Ácaba. Se estendendo mais ao sul, fica a Península Arábica, toda composta por países que não mantêm relações diplomáticas e nem ao menos reconhecem o Estado de Israel. A relativa tranqüilidade de suas fronteiras mais próximas também faz de Eilat um ponto de passagem para muitos israelenses que fazem turismo nas praias egípcias ou visitam Petra, na Jordânia. No outro extremo do país, ao norte, sol e neve. No inverno, o Monte Hermon é o destino de esquiadores. Mas a presença de soldados armados em cada ponto da estação de esqui mostra que naquela fronteira a situação é mais tensa.

NAS ÁGUAS DO RIO JORDÃO

As Colinas de Golan são uma parte do território sírio ocupada por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Mas, para os israelenses, Golan significa muito mais do que simplesmente beleza, turismo, diversão. A região tem grande valor estratégico do ponto de vista militar, pelo controle que ela permite, do alto, das fronteiras com os vizinhos Síria e Líbano. Lá também está a origem de um recurso fundamental em um país que tem metade do seu território no deserto. O degelo da primavera reforça as nascentes de água da região. Montanha abaixo, atravessa a Reserva de Bannias. O volume de água pode não impressionar muito para quem tem o Brasil como referência, mas é vital para Israel. Lá estão as principais nascentes do Rio Jordão, fundamental para a produção agrícola do país. Quando o Rio Jordão chega a determinado ponto forma o Mar da Galiléia.

Na realidade, um grande lago, de onde Israel tira perto de 30% de sua água potável. A lendária Tiberíades fica às margens do Kineret, como é chamado em hebraico o Mar da Galiléia. As águas sobre as quais Jesus teria andado hoje banham uma cidade moderna. Mas o Rio Jordão ainda guarda sua aura sagrada para os cristãos. No ponto onde Jesus teria encontrado João Batista, eles reafirmam seus votos de batismo. Um grupo chegou da Romênia. A cerimônia pode ser um pouco informal, mas a emoção está presente. Uma professora de informática em Bucareste se afasta um pouco, vive intensamente o momento, canta velhas canções tradicionais de batismo da sua terra. Parece estar sozinha. Só ela e sua fé imensa. Quando termina, conta que planejou a viagem por muito tempo. Está realizada. "Foi um presente", diz ela. Uma história que vai contar aos filhos e netos. A história do dia em que renasceu no Rio Jordão, em Israel.

PÃO E VINHO

Olhando de cima, nada de deserto. Na face verde de Israel, onde chega a irrigação e o solo ajuda, tudo é plantado. Cidades e campos se alternam contínuos. Jonhantan Tshibi tem a agricultura no sangue da família. Seu avô chegou à antiga Palestina 120 anos atrás. Agricultor judeu, imigrante da Bielo-Rússia. Hoje o neto é dono de grandes vinhedos e um dos maiores produtores de vinho de Israel. Explica que o vinho tem significado especial para os judeus, está presente nas celebrações religiosas, congrega amigos e famílias, é parte de qualquer comemoração. O vinicultor nos convida a provar o que produz. O estabelecimento – meio loja, meio restaurante – pertinho do vinhedo, está cheio, às vésperas de um fim de semana. Ele serve o que tem de melhor. Diz que nem sabe direito quantas medalhas o vinho já ganhou. Foram tantas... Os antepassados dele, nos rótulos, deveriam estar sorrindo. Do vinho, no campo, chegamos ao pão, à beira-mar. Jaffa, com seus quase quatro mil anos, citada no Velho Testamento, hoje está anexada à maior metrópole de Israel: Tel Aviv, fundada há menos de um século, quando a lendária padaria Abulafia já estava na ativa. Os donos são árabes. Dina, a gerente, é judia, assim como um amigo da casa, judeu ortodoxo.

Para explicar essa alquimia, Dina recorre ao que está à vista. "Sou um tempero", ela brinca. Como o zatar, mistura de ervas típica do Oriente Médio, sobre o pita, o pão árabe. "Comemos juntos, somos vizinhos. Eu vejo que há caminhos para a paz, mas há muita coisa envolvida, como dinheiro e poder", comenta Dina. Cenário ideal para essa discussão é Haifa, a terceira maior cidade de Israel e o principal porto do país. Construída em colinas a partir do mar, é conhecida por sua beleza e admirada por seu clima de tolerância. Uma de suas principais vozes é o poeta Samir Michael: judeu iraquiano, autor de poemas e romances de sucesso, presidente da Associação para os Direitos Civis de Israel. Ele chegou em 1949 e morou três anos em um bairro árabe de Haifa. De lá saíram alguns personagens que povoam seus livros. Escrevendo em hebraico, Samir Michael foi o primeiro escritor do país a mostrar os árabes comuns, sem conexão com terrorismo ou política. "Eu mesmo tenho duas mães: uma árabe, que me deu à luz no Iraque, e Israel, a mãe judia que me acolheu", conta. "Haifa, branca, azul e bela, é um modelo de paz, de respeito mútuo", diz o poeta.

TERRA DA TOLERÂNCIA

Coexistência pode ser barulhenta, bagunçada. Respeito não precisa ser solene. A escola acha que se é para se entender, melhor começar cedo. Em uma semana as crianças árabes vão para brincar, conviver, conhecer. Na outra, são as crianças judias que visitam a escola árabe. Quando começa o jogo, é cada um por si e todos pela brincadeira. Depois mais compenetrados, mas ainda brincando, eles tentam identificar palavras semelhantes em árabe e em hebraico. E todos dançam para celebrar o final de mais um encontro. "Gostaria de ter tido essa oportunidade quando criança", diz o professor da escola árabe Ibrahim Wasan. Ibrahim, que em hebraico seria Avraham e em português Abraão, conta que só passou a conviver com judeus na universidade, em um programa como esse, e só então pôde olhar para eles como simples seres humanos, sem se importar com a religião. "Aqui as crianças vêem que têm afinidades, que gostam das mesmas coisas e que os árabes não são apenas aqueles que jogam bombas em Israel", completa Ibrahim. A diretora da escola, Shosi Idan, explica que o projeto começa com as crianças e depois vai envolver pais e professores. "Os dois lados têm medo e se você se der conta que o outro é um ser humano, isso pode acabar", defende.

Principal cartão-postal de Haifa, jardins cuidados por 200 jardineiros também falam de paz, convivência, entendimento. Ocupam 19 patamares nas encostas do Monte Carmel. Profetas do Antigo Testamento teriam caminhado pelo local. É o centro espiritual da religião Bahai. Como os judeus, os muçulmanos e os cristãos, os bahais são monoteístas: acreditam em um só Deus. Seu profeta e fundador é Bahula, que viveu na Pérsia, hoje Irã, no século 19. Dois brasileiros, voluntários, vão ficar dois anos por lá. Fazem parte dos 6,5 milhões de seguidores dos ensinamentos do profeta Bahula. "A fé bahai acredita que a religião de Deus é uma só e ela é revelada de tempos em tempos", explica Housseyn de Almeida. "Apesar de existir essa imagem conflituosa, pelo menos em Haifa as diferentes religiões existem em harmonia. As pessoas têm uma vida normal, como em qualquer outro lugar do mundo. Basicamente, é como se o conflito não existisse", diz Sheila da Silva.

Afinal, qual é cara desse país? Em 7 milhões de habitantes, quase 5,5 milhões são judeus, nascidos em Israel ou vindos de 80 países diferentes. A última grande leva de imigrantes foi de russos, nos anos 80 e 90: 1 milhão de pessoas. Há quase um 1,5 milhão de cidadãos árabes israelenses e pouco mais de cem mil drusos, povo sem país próprio – de bigodões, calças engraçadas, jeito extrovertido, caloroso. Dar El é uma cidade drusa no norte de Israel. Um comerciante nos atrai para mostrar uma bandeira no Grêmio e explica quem é seu povo: "O druso é um povo de paz. Está em Israel para o que der e vier – na guerra, na paz, no Exército. Se está na Síria, é sírio. Se está no Líbano, é libanês. A religião é secreta, mas pouco importa. Todo druso deve ser justo e honesto". Ele mostra uma casa, meio museu, típica, como o instrumento que ele toca. Lá fora, na calçada, uma mulher começa o que, para nós, é um show. Para ela, rotina repetida há gerações. Habilidade, prática, tradição. Pão, lafa, coalhada e azeite. O triunfo da simplicidade tirada da terra. De uma terra considerada santa.

VIAGEM EM LOMBO DE BURRO

Um olhar vigilante e curioso nas ruínas de Cafarnaum. Uma freira ajuda a cuidar da primeira sinagoga onde Jesus pregou. Está embaixo de outra, construída quatro séculos depois. O local onde Jesus teria nascido, em Belém, está guardado por uma igreja imponente. Faz parte do roteiro turístico cristão em Israel, mas fica na Cisjordânia, território palestino. A poucos quilômetros de Jerusalém, Belém também é o lugar onde muitos visitantes da Terra Santa entram em contato pela primeira vez com a dura realidade do conflito entre israelenses e palestinos, que tem como seu maior símbolo o muro que separa esses dois povos, tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes. Ainda em construção, já tem mais de 400 quilômetros, gera críticas pela comparação com outras barreiras das quais a Humanidade já se livrou. Israel assume esse risco para sua imagem em nome da segurança. "A priori, a imagem choca. Mas com o tempo você vai se acostumando e passa a entender o porquê", disse o pastor Dorival Pinheiro, em visita a Israel. "Essa questão política é ruim. Por outro lado, não é como se imagina.

Nós estamos visitando a Terra Santa há dias e não vimos nenhum confronto, nenhum problema", contou o pastor Adivanir Alves Pereira. O número de atentados caiu mesmo, drasticamente, depois do muro. Mas ele também cimentou um pouco mais o ressentimento entre os dois povos. Milhares de palestinos que tinham trabalho em Israel já não podem chegar até ele. O desemprego chega a 40% na Cisjordânia. Bilel e Jamil estão entre os que não podem ultrapassar o muro. São beduínos, descendentes de gerações de pastores de cabras e ovelhas na região de Jericó. Mas decidiram migrar para outra atividade. Balança um pouco, não é lá muito confortável. Mas o destino final compensa qualquer dor nas costas. Encravado no rochedo, fica o Mosteiro de São Jorge, da Igreja Ortodoxa grega, a meia hora de Jerusalém. Os aquedutos na encosta são herança romana. As cruzes aqui e ali sinalizam o caminho até o mosteiro, construído há mais 1,5 mil anos. Trilha seguida por peregrinos ao longo de séculos, mas que hoje não rende muito trabalho para Jamil e Bilel. Eles reclamam que a vida está difícil, que muita gente tem medo dos árabes. Mas garantem que no local a paz está garantida. Os turistas são bem-vindos, e o táxi, como Bilel chama seu burrinho, está sempre no ponto.

UMA CIDADELA MEDIEVAL

Plácida, no alto de uma elevação, Szfat parece estar longe dos problemas humanos, dos conflitos políticos. Uma cidadezinha medieval, judaica desde sempre. Szfat é uma das quatro cidades sagradas do judaísmo. Cada uma delas ligada a um elemento da natureza: Jerusalém, o fogo, sempre aceso no templo; Hebron, a terra, túmulo dos patriarcas; Tiberíades, a água; Szfat, o ar. A cidadela medieval atrai judeus religiosos de várias correntes pela qualidade do ar. O ar da sabedoria, diz a mística judaica. Nas lojas da ruazinha principal, arte e religião – juntas ou separadas, por toda parte. E são muitos os que procuram a pequena Szfat para viver plenamente sua fé. Sempre há fiéis nas sinagogas. O Senhor é louvado em todas as horas do dia. Estuda-se a Torá, o livro sagrado dos judeus. "Até em termos físicos, o ar aqui é limpo. É um ambiente muito bom para as pessoas que querem se aprofundar na Tora, se aproximar mais de Deus", diz Arie Toielboim, diretor de uma yeshivá – escola religiosa – que reúne alunos da vertente hassídica, um movimento de judeus da Europa Central que prega o judaísmo vivido com alegria e obediência às leis, a música e a dança como formas de oração.

OS MISTÉRIOS DA CABALA

Em Szfat também é forte um outro ramo do judaísmo: a cabala, que hoje está na moda. Celebridades como a cantora Madonna e a atriz Demi Moore se tornaram adeptas. Mas o estudioso Eyal Reiss, diretor do Centro Internacional de Cabala, conta que durante séculos a cabala esteve restrita a poucos iniciados. Ressurgiu há 700 anos, na Espanha. Depois, expulsos de lá, os cabalistas se refugiaram em Szfat, onde uma escavação revelou uma caverna usada por eles nos séculos 15 e 16. Mas, afinal, o que é a cabala? "A cabala decifra o código da criação usando números, geometria, letras. Segundo ela, cada elemento físico da Criação tem uma raiz espiritual. Essas raízes podem ser identificadas e os elementos da Criação, usados para as causas de Deus e do bem", diz ele. Ou seja: complicadíssimo. Estudo que ocupa a vida inteira de muitos cabalistas.

O DIA SAGRADO DOS JUDEUS

É um pequeno território, pelo qual se bateram grandes impérios do mundo. Lugar sagrado para metade da população do planeta. Corações e mentes de mais de três bilhões de pessoas rezam voltados para Jerusalém. Em uma cidade de tantas crenças, existe um ponto-chave, em que muitas delas se entrelaçam: Monte do Templo para os judeus, Esplanada das Mesquitas para os muçulmanos. Cenário de relatos bíblicos, onde Abraão, patriarca das três religiões monoteístas, quase teria sacrificado um filho, e o mesmo lugar de onde Maomé, o fundador do islamismo, teria iniciado sua jornada ao céu. Construídas há mais de 1,3 mil anos, a Mesquita de El Aqsa e o Domo da Rocha marcam essa tradição islâmica. E uma cena dentro da rocha sagrada raramente pode ser filmada. A entrada de não-muçulmanos é proibida nas mesquitas. Tivemos uma licença especial. Grandiosas, imponentes, ricamente decoradas no rebuscado estilo árabe, elas só podem ser apreciadas por fora pelos turistas. A área está sob custódia de uma organização árabe. A religião judaica proíbe a entrada de judeus nesse pedaço da Cidade Velha de Jerusalém.

Eles chegam somente até o Muro das Lamentações, na base da esplanada, que fazia parte das fundações do segundo grande templo judaico, construído pelo rei Salomão e destruído pelos romanos há quase dois mil anos. Judeus de todo o mundo têm nesse lugar seu símbolo mais sagrado. A eterna lembrança da dispersão do seu povo e do sonho de retorno. A Velha Jerusalém é uma cidade murada e cercada pela cidade atual, com 800 mil habitantes. Dentro dos muros vivem 50 mil pessoas – judeus, cristãos, muçulmanos – em bairros chamados quarteirões, bem definidos, com características próprias. Milênios de história se escondem e se revelam em ruelas onde o sagrado se mistura vivamente com o profano. Peregrinos de três grandes crenças se cruzam em um labirinto, celebram seus ritos, descansam das sempre longas caminhadas. Na sexta feira, entre a manhã e o cair da tarde, a Velha Jerusalém fervilha. Desde as primeiras horas do dia os muçulmanos celebram seu dia sagrado. Rumo às mesquitas da esplanada, milhares de pessoas chegam pelos portões voltados para o lado árabe, oriental, da cidade. Um deles é o Portão de Damasco. Ao cair da tarde, ao surgir a primeira estrela no céu, começa o Shabatt, o dia sagrado dos judeus. Roupas saídas de séculos passados mostram a origem de cada grupo religioso. O Shabatt pára as áreas mais religiosas do país. O comércio fecha, as ruas se esvaziam. É dia de recolhimento, de descanso.

Na cidade de Nethanya fomos conhecer a cerimônia do Shabatt, que costuma ser fechada aos não-judeus. Mas na sinagoga de uma corrente mais liberal somos acolhidos com entusiasmo por uma rabina. Lá homens e mulheres se misturam. Em sinagogas mais ortodoxas, rezam separados. E uma mulher rabina, então, é impensável. A benção do vinho é feita por um fiel. A abertura da arca sagrada, onde está a Torá, dá solenidade à liturgia. Vem a lamentação. Fim da cerimônia. "Estudei judaísmo minha vida inteira. Sempre estive envolvida com o judaísmo", diz a rabina Mira Raz. E brinca: "Todo mundo ficou orgulhoso, algo parecido com ter uma astronauta na família". Acabamos recebendo um convite irrecusável: celebrar o fim do Shabatt na casa da rabina. No apartamento em Tel Aviv ela reuniu toda sua turma: duas filhas, dois genros e o filho em uma mesma família – um bom retrato da sociedade de Israel. Shiira é cantora lírica. Hanana, bailarina e atriz. Está em um seriado de enorme sucesso na televisão israelense. Oren é militar. Continuou no Exército depois do serviço obrigatório de três anos como especialista em informática. A mesa está preparada para a cerimônia do Havdalá: velas, pães, sal e vinho. Todos celebram. É o espírito do Shabbat: encher o coração de alegria, para que ela continue durante a semana até a primeira estrela aparecer, na próxima sexta-feira.

MULHERES NO EXÉRCITO

O som parece duro, difícil de reproduzir. O hebraico chegou a ser uma língua morta, mas renasceu e foi um dos fundamentos do novo Estado de Israel. Traço de união entre tantas nacionalidades. O hebraico é fundamental para cumprir outro rito de passagem na vida israelense: servir o Exército. Aos 18 anos, homens e mulheres são convocados. Para elas, dois anos. Três para eles. Dedicação exclusiva. Planos, só depois do serviço militar. Uma unidade é só para imigrantes no norte do país. "Dá um tempo aos jovens para ganharem maturidade", avalia uma instrutora. Ela diz que, além de importante para a segurança do país, o Exército ajuda a nivelar os israelenses de diferentes classes sociais. "Aqui todos são iguais", ela diz. Uma alemã, ao lado de duas colegas russas e uma francesa, é a mais animada. Diz que desde criança, quando vinha passar férias com os pais, sonhava viver aqui, que se sente em casa e que, para ela, Israel é o Exército. Léa também quer vestir farda a vida inteira. Já as gêmeas Svetlana e Cristina parecem apenas conformadas em esperar dois anos para continuar os estudos. Depois a vida segue, elas dizem. E para esquecer um pouco os rigores da vida no quartel, nada melhor do que Tel Aviv. A principal cidade de Israel ainda não completou cem anos.

Exala juventude em um país tão cheio de história. Exibe construções modernas, assim como a maioria da população: Mais secular, menos religiosa. Tel Aviv é conhecida como "a bolha": um lugar fechado em si mesmo, que não se deixa afetar pelo que acontece em outras partes do país. Mas isso é mesmo possível? "Acho que todo mundo gostaria que fosse a bolha, mas não dá. Você é rodeado por vozes, notícias e tudo mais. Não dá para ignorar. Muitos buscam essa bolha, mas ela está explodindo o tempo todo", diz um escritor, sentado na rua mais boêmia da cidade. O garçom não concorda. "A mídia aponta a câmera para um só ponto e diz que isso é Israel. Mas se você andar por aí vai ver que não é assim", diz ele. E outro jovem completa: "As pessoas têm sua própria vida. São o centro da própria vida, e não as bombas". Até parece verdade, na Tel Aviv à beira-mar, em uma tarde de inverno camarada. A música que vem do parque parece de outros tempos. E é. São canções dos judeus da Europa oriental. A língua é o iídiche, um dialeto com base no alemão, que os músicos nem dominam. Só o suficiente para fazer uma releitura do gênero, chamado klesman.