Artigo de Ney Carvalho em O Globo fala sobre a relação entre Brasil e Israel

Em artigo publicado nesta quarta-feira no jornal O Globo, intitulado “Necessária revisão na relação com Israel”, o historiador Ney Carvalho fala da presença judaica no Brasil e do novo momento na relação com Israel.

A vinda de Benjamin Netanyahu à posse de Jair Bolsonaro e sua posterior condecoração com a Ordem do Cruzeiro do Sul são carregadas de grande simbolismo. Trata-se de autêntica revisão histórica.

Desde o Descobrimento, o Brasil vive altos e baixos no convívio com os judeus. Três anos antes, em 1497, Dom Manuel, o Venturoso, no ambiente opressivo da Inquisição, havia determinado a expulsão dos israelitas que não se convertessem ao catolicismo. A terra lusitana abandonava sabedoria e experiência comercial milenares, e começava a decadência de seu poderio. Os judeus deixaram Portugal e foram para Amsterdã, onde construíram uma nova potência marítima.

Quando da ocupação holandesa do Nordeste brasileiro, no segundo quartel do século XVII, os judeus foram parte importante da saga. Inclusive construindo em Recife a primeira sinagoga das Américas. Expulso pela Insurreição Pernambucana, o grupo seguiu para Nova York, onde, uma vez mais, ajudou a edificar o que é, até hoje, o maior centro de finanças e comércio mundial.

No século seguinte, prosseguiu o tormento da Inquisição em Portugal e no Brasil. Os que não abjuravam a fé judaica eram perseguidos, processados e condenados à morte. O caso mais conhecido é do brasileiro Antônio José da Silva, cognominado “O Judeu”, que foi importante dramaturgo naquele período em terras lusitanas. Condenado pelo Tribunal do Santo Ofício, foi executado na fogueira, em Lisboa, em 1739.

Quando da descoberta de ouro em Minas Gerais, ainda no século XVIII, muitos cristãos novos, como eram conhecidos os que se convertiam à fé católica, migraram para aquele novo eldorado. Em fins dos anos 1700, não mais era constatada a presença de judeus no Brasil. Todos haviam se convertido para escapar dos sacrifícios que lhes eram impostos.

Por volta de 1810, iniciou-se nova onda migratória de judeus sefarditas vindos do Marrocos para Belém do Pará e, mais tarde, para o Amazonas. Dom Pedro II, que reinou pela segunda metade do século XIX, era cultor do hebraico e chegou visitar a Terra Santa. Foi uma era pacífica na convivência do Brasil com os judeus. A República Velha manteve a tradição. O israelita David Morethson Campista chegou a ministro da Fazenda no governo Afonso Pena.

O quadro mudou radicalmente a partir da chamada Revolução de 1930. A Europa passava pelo crescimento do nazismo e restrições aos judeus. Tais ideias tiveram repercussões no Brasil, conforme descrito no livro “O antissemitismo na Era Vargas”, de Maria Luiza Tucci Carneiro, editado em 1988. Começaram com o Integralismo e se intensificaram com o Estado Novo. Acossados na Europa, os semitas buscavam refúgio nas Américas. A procura por vistos de emigração explodiu nas embaixadas e consulados brasileiros.

Em junho de 1937, o Itamaraty emitiu a circular secreta 1.127, que adotava restrições à imigração judaica. Os judeus passaram a ser considerados nocivos e indesejáveis. E as autoridades no exterior proibidas de conceder os necessários vistos aos semitas. Em seguida, outros documentos do gênero foram também sancionados. Alguns diplomatas, como Sousa Dantas, em Paris, e Guimarães Rosa, em Hamburgo, ignoraram as regras, propiciando fugas de judeus do nazismo rumo ao Brasil.

Os regimes de 1946, militar e a redemocratização não trouxeram modificações significativas nas relações. A partir de 2003, nos governos petistas, os laços ditos Sul-Sul privilegiaram os países árabes em detrimento de Tel Aviv.

Agora, o pêndulo se reverteu, e o Brasil passou a conceder a devida atenção a Israel. As vantagens tecnológicas que poderemos obter são incomensuráveis. Não que se devam desprezar os laços comerciais mantidos com os árabes do entorno. É fundamental sopesar cuidadosamente cada interesse. Mas, sem dúvida, se inicia nova era com essa necessária revisão histórica.