Bacharelado em hebraico na USP faz 50 anos; em entrevista exclusiva, professores abordam conquista

O Centro de Estudos Judaicos do Departamento de Letras Orientais da FFLCH-USP comemorou em 27 de novembro os 50 anos da criação do bacharelado em hebraico.

A Conib foi representada pela professora e psicóloga Sofia Débora Levy, que é sua representante no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, e ressaltou a importância da contribuição do Centro de Estudos Judaicos na formação da cultura e  identidade judaico-brasileira “por meio de seus inspiradores  trabalhos”. Claudio Lottenberg, presidente da entidade, enviou a seguinte mensagem: “Cumprimentamos os fundadores e professores do Centro de Estudos Judaicos pela conquista, motivo de orgulho para a nossa comunidade”.

No evento, as professoras Nancy Rozenchan, Jaffa Rifka Berezin e Berta Waldman foram homenageadas.  Sérgio Adorno, diretor da FFLCH-USP, e Reginaldo Gomes de Araújo, chefe do Departamento de Letras Orientais, debateram a repercussão do programa no Brasil.

Os professores Nancy Rozenchan, Luis Sérgio Krausz e Gabriel Steinberg concederam entrevista ao boletim da Conib, em que abordam a origem do curso, o perfil dos alunos e as linhas de pesquisa.
 

Quem foram os criadores do curso? Como era em sua origem?

O curso de hebraico da USP foi inaugurado em 1963, tendo como responsável o professor e rabino da CIP Fritz Pinkuss e com grande incentivo do então diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Eurípides Simões de Paula. Inicialmente vinculado ao Departamento de História da Faculdade, tinha como foco a abordagem alemã da chamada Wissenschaft des Judentums ou Ciência do Judaísmo, uma corrente dos estudos judaicos que se desenvolveu entre os judeus do mundo de língua alemã no século 19.

Com o advento da Emancipação, os judeus começaram a sentir-se em casa nos estudos seculares. Até então, o passado judeu tinha sido conhecido apenas através da interpretação não crítica de textos sagrados. O que se imaginava, a partir da Emancipação, era que o estudo científico do passado judaico seria capaz de colocar a cultura judaica em pé de igualdade com a do ambiente alemão, e que o estudo intensivo e racional iria revelar a riqueza do passado judaico, algo que serviria para restaurar – na visão dos judeus seculares – o orgulho por seu legado e para melhorar seu estatuto social ante o mundo gentio.

Os estudiosos seculares, assim, abordavam a tradição a partir de uma ótica estritamente moderna e científica e empenhavam-se em estudar o judaísmo de maneira totalmente desvinculada dos sentimentos subjetivos despertados pelo seu conteúdo. Seu objetivo era compreender o judaísmo em seu contexto histórico, determinar seu lugar na evolução cultural humana, e para tanto fez-se necessária uma ruptura com concepções teológicas prévias, tanto judaicas como cristãs.

Esta determinação em alcançar a objetividade levou-os a uma cisão com o passado, pois seu viés restringiu-os a um estudo dos aspectos racionalistas da religião, levando-os a uma desconsideração ou preconceito contra outras tendências, especificamente o misticismo em todas as suas formas, incluindo o Chassidismo. A esta linha de estudos desenvolvida pelo Prof. Pinkuss agregou-se, em 1966, o curso de língua hebraica, então ministrado pela Profa. Rifka Berezin.

Com a transferência do curso de hebraico do Departamento de História para a área de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP surgiram restrições ao ensino de matérias que não fossem de línguas e literaturas. Em 1969, foi criado o Centro de Estudos Judaicos, anexo ao curso de hebraico. Alinharam-se então ao Prof. Pinkuss, por meio do Centro, outros professores que entenderam que o interesse sobre os diversos campos do saber judaico, já despertado entre os alunos, deveria ter continuidade, com cursos de filosofia e sociologia judaicas, cultura judaica medieval, cristãos-novos, etc.. Foi a concretização dos chamados “Estudos Judaicos” promovidos pelo Centro de Estudos Judaicos.

Quais os estudos mais importantes que foram desenvolvidos no Centro?

Ao longo de seus mais de 40 anos de existência, o Centro de Estudos Judaicos serviu como plataforma para uma vastíssima gama de estudos acadêmicos ligados ao universo judaico, que vão desde os estudos bíblicos até o estudo da sociedade israelense contemporânea; das línguas do antigo Oriente Médio à vanguarda da literatura hebraica; da história judaica no Brasil Colônia até estudos sobre o Genocídio, da cultura iídiche à poesia hebraica da Andaluzia… E os cursos que foram oferecidos, por docentes brasileiros tanto quanto por convidados das mais importantes universidades do mundo, também versaram sobre uma grande diversidade de temas.  Praticamente, não há campo do saber judaico que não tenha sido abordado.

Quais as principais linhas de pesquisa?

O curso de hebraico possui desde 1989 a pós-graduação em nível de mestrado, e desde 1996, o doutorado. Cerca de 120 trabalhos de mestrado e doutorado já foram defendidos por alunos desta área Hoje, as principais linhas de pesquisa desenvolvidas pelos docentes da área de Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas abordam os estudos bíblicos, as antigas línguas semíticas, a literatura hebraica medieval, do século XIX e contemporânea, a literatura judaica européia em uma multiplicidade de idiomas, a língua hebraica contemporânea e a sociedade israelense e judaica em diversas partes do mundo. Mas tivemos também professores que se aprofundaram em temas como o marranismo, a arqueologia bíblica, a história da língua hebraica…

Quantos alunos tem o curso de Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas?

Temos cerca de 30 alunos de graduação que estão se encaminhando para o bacharelado, mas também a presença de muitos alunos de outras áreas da Faculdade e mesmo de outras faculdades da USP que cursam disciplinas de nossa área como matérias optativas, que enriquecem seus currículos e lhes proporcionam um olhar diferente e mais aprofundado sobre temas judaicos. E temos também cerca de 40 mestrandos e doutorandos, que são orientados por docentes da ativa e também por aposentados que continuam atuando na pós-graduação. 

 Qual o perfil atual dos alunos? Como mudou o perfil nestes 50 anos?

A maior parte dos nossos alunos hoje não pertence à comunidade judaica. São pessoas que, por um motivo ou outro, se interessam por diferentes aspectos desta tradição riquíssima, cuja influência sobre a formação da cultura ocidental foi e tem sido marcante. Talvez este seja um dado novo no perfil de nossos alunos: são pessoas que têm enorme interesse e curiosidade sobre um universo cultural a respeito do qual nada aprenderam em suas casas.

Como repercute o trabalho desenvolvido pelos docentes e alunos dos cursos de graduação e pós-graduação no Brasil e no exterior? 

A USP é a única universidade latino-americana a oferecer um doutorado em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas, de maneira que ao longo do tempo formamos uma série de professores hoje atuando em universidades em diferentes localidades do Brasil. Por isso, desempenhamos o papel de um ponto de referência no mapa dos estudos judaicos em nosso continente e temos recebido alunos de lugares distantes. Temos também alunos que iniciaram seus estudos na USP e continuam estudando em universidades do exterior. Nossos docentes e alunos de pós-graduação participam, sempre que possível, de simpósios e seminários promovidos por associações internacionais de Estudos Judaicos, sobretudo em Israel, na Europa e nos EUA, de maneira que suas pesquisas são divulgadas e repercutem na comunidade acadêmica internacional. E nossos docentes têm também artigos acadêmicos publicados em revistas especializadas internacionais, assim como livros traduzidos para idiomas como o inglês e o alemão.


A partir da esquerda: Sérgio Adorno, Reginaldo Gomes de Araújo, Sofia Débora Levy e Luis Sergio Krausz. Foto: Divulgação.