Beatie Deutsch , uma  haredi mãe de 5 e campeã de maratona, compete por uma causa

Beatie Deutsch, ultra-ortodoxa “Mãe Maratona”, de Jerusalém, teve uma carreira estelar cheia de novidades, desde que descobriu seu talento para correr aos 26 anos e impressionar multidões ao completar uma maratona com sete meses de gravidez.

Ela ganhou as maratonas de Tel Aviv e Jerusalém, bem como o campeonato nacional. Esta semana, ela se tornou a primeira mulher ultra-ortodoxa a vencer uma competição internacional de atletismo, terminando em primeiro lugar entre as mulheres na meia-maratona de 21 quilômetros em Riga, Letônia, com o tempo de 1 hora, 17 minutos e 34 minutos.

Deutsch, que é conhecida por usar roupas modestas, incluindo uma saia, mangas abaixo do cotovelo e lenço na cabeça, agora está de olho no próximo objetivo: os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.

Mas para Deutsch, sua carreira é muito mais do que correr e quebrar estereótipos.

Desde dezembro de 2017 – quando a prima de seu marido, Daniella Pardes, 14, morreu por suicídio depois de uma luta contra a anorexia nervosa – Deutsch vem usando sua campanha para conscientizar e financiar um novo centro de reabilitação chamado Beit Daniella (Casa Daniella), para adolescentes com distúrbios de alimentação e outras questões psiquiátricas que foram hospitalizados ou abandonaram a escola.

Beit Daniela _ que está situada em uma fazenda de cavalos em Tzur Hadassah, uma pequena comunidade a oeste de Jerusalém e vem tratando pacientes há vários meses –  foi oficialmente inaugurada na  sexta-feira passada com uma cerimônia de abertura na qual familiares relataram a trágica história e falaram sobre sua missão para ajudar outras crianças que lutam para se integrar novamente à sociedade após uma hospitalização prolongada.

Deutsch também falou no evento, antes de seguir para o aeroporto para ir à Letônia antes do Shabat e se preparar para a corrida. Ela, que tem 29 anos, imigrou de Nova Jersey em 2009, depois se casou e teve quatro filhos em seis anos.

“Há três anos e meio eu era apenas mais uma mãe fora de forma”, disse ela ao The Times de Israel em uma entrevista recente, perto de sua casa no bairro de Har Nof, em Jerusalém.

A  mais velha de cinco irmãos,  Deutsch diz que sempre foi naturalmente atlética e praticava esportes quando criança. Sua família fazia corridas na praia e ela geralmente era a mais rápida. Mas, em 2015, a família realizou outra corrida e ela ficou em último lugar.”Eu não conseguia nem me reconhecer. Eu estava tipo “o que aconteceu comigo?”, ela diz.

Foi então que ela tomou a decisão altamente incomum – especialmente na comunidade ultra-ortodoxa –  correr uma maratona completa.

Ela diz que treinou para seu primeiro evento de uma maneira muito básica. Quando se inscreveu para a Maratona de Tel Aviv, em fevereiro de 2016,  não sabia o que escrever quando solicitada a preencher seu tempo estimado para a corrida de 42 quilômetros. No final, após consultas, o marido preencheu: quatro horas e quarenta minutos. Ela acabou chegando às 3:27:26 horas, ficando em sexto lugar entre as mulheres.

“Quatro meses antes, eu não conseguia nem correr seis milhas e não achava que poderia correr quatro horas e meia. Se eu não tivesse me empurrado para fora da minha zona de conforto, eu não teria descoberto esse talento ”, diz Deutsch. “E eu estava obviamente viciada em correr depois disso. Eu nem percebi o quanto eu precisava disso. ”

No ano seguinte, ela surpreendeu organizadores e multidões ao completar a Maratona de Tel Aviv, enquanto estava grávida de sete meses de seu quinto filho. Em 2018, ela foi a mulher israelense mais rápida na Maratona de Jerusalém, e em janeiro passado se tornou campeã nacional, vencendo o campeonato oficial em Tiberias com o tempo de 2:42:18 – o quinto melhor resultado para uma mulher israelense na história.

Deutsch – cujo apelido nas mídias sociais é “Mãe Maratona” – também tem percorrido distâncias menores. Em dezembro, ela venceu o campeonato nacional de meia maratona em Beit She’na. Neste ano, ela ganhou a meia-maratona de Tel Aviv e ficou em segundo lugar na meia maratona de Jerusalém, além de ser a segunda colocada nos campeonatos nacionais de 10k e 15k.

A sequência de sucessos a convenceu a deixar de ser  uma amadora para transformar-se em  uma corredora profissional em tempo integral.

Seu objetivo é ser a primeira atleta ultra-ortodoxa a competir nas Olimpíadas, que serão realizadas no próximo ano em Tóquio, no Japão. Isso será difícil, já que a Associação Internacional de Federações de Atletismo tornou os padrões de qualificação mais difíceis do que no passado. Em vez de 2:45:00 – o limiar da maratona nas Olimpíadas de 2016, que a Deutsch alcançou – o tempo de qualificação automática será agora 2:29:30. Apenas 80 mulheres se qualificarão, com um limite de três por país.

Como menos de 80 mulheres correram uma maratona em menos de 2:29:30, aproximadamente metade das qualificatórias será selecionada por meio de um novo e complicado sistema de classificação, que prioriza a posição dos corredores em relação aos outros e a qualidade da corrida sobre os tempos atingidos. É assim que Deutsch tentará se qualificar, já que é improvável melhorar em 13 minutos seu tempo, no período de um ano.

 

Sua primeira maratona internacional completa provavelmente será em setembro, embora ela ainda não tenha decidido de qual delas  participará. Quando perguntada sobre as dificuldades que ela enfrenta como atleta religiosa, Deutsch diz: “Por um tempo eu não vi nenhuma dificuldade mas quanto mais eu entro em campo mais eu vejo desafios que surgem. “Primeiro, quando você se concentra no seu tempo, sua roupa faz diferença. Estou correndo com o dobro de roupas que qualquer outro corredor. Eu sou patrocinada pela Nike, mas o que eles me enviam são coisas que não posso usar, então é meio frustrante. Eu sou uma anomalia; não há outro corredor profissional por aí que se pareça comigo. ”

Ela diz que ainda não encontrou uma roupa que seja apropriada para uma mulher ultra-ortodoxa e leve o suficiente para correr confortavelmente. Depois, há a questão do Shabat, o dia judaico de descanso. Muitas das principais competições internacionais acontecem na sexta-feira à noite ou no sábado, o que significa que o Deutsch não pode participar.

“Eu não sinto que estou desistindo de algo. Não há nem mesmo uma pergunta na minha cabeça. É uma escolha da qual tenho orgulho, ”ela diz. “Mas sou muito respeitosa com todos os outros, e não acho que alguém me deve algo extra, porque sou diferente.”

Outro desafio é criar cinco crianças pequenas, mantendo o estilo de vida intenso de um corredor profissional. Deutsch diz que muitas vezes ela chega em casa exausta depois de treinos e é “um ato de malabarismo constante”. Mas ela também é grata por ser paga para fazer o que ama.