Brasil-Israel uma parceria

Decorrido cerca de um mês da viagem do Presidente ao exterior, tornam-se mais claros os seus aspectos positivos. Inicialmente, a opinião pública e até parte da imprensa, influenciada pelas estatísticas, considerava que não teria sido útil para o nosso comércio exterior. Com o decorrer do tempo e os esclarecimentos prestados por autoridades diversas e em particular alguns diplomatas, verificou-se que as reações negativas no Oriente Médio não tinham as dimensões que os pessimistas previam, tanto mais que o mundo árabe comporta várias tendências e posições, além de divergências entre algumas das grandes potências da região, cujas políticas passaram a tolerar menos o terrorismo. O exemplo dos Estados Unidos, que tem excelentes relações tanto com vários países árabes quanto com Israel, com um envolvimento muito maior do que o Brasil, evidencia o acerto do governo brasileiro de abandonar preconceitos ideológicos do passado recente.

Mais recentemente, reconheceu-se a possibilidade de uma parceria que pode ser muito útil e proveitosa, justificando-se pelas relações privilegiadas entre o maior país da América Latina e a única democracia do Oriente Médio, respeitando ambos o Estado de Direito, as liberdades individuais, inclusive a diversidade religiosa, e incentivando a livre iniciativa. É, pois, preciso reconhecer que, no campo internacional, uma parceria seria benvinda, tanto mais que Israel é um grande centro tecnológico, que pode dar apoio importante e não invasivo ao nosso esforço de completar e renovar a nossa infraestrutura, utilizando-se a privatização, total ou parcial, as concessões e o investimento privado, tanto nacional como estrangeiro.

Além dos números do comércio exterior, que são em parte distorcidos e que podem mudar rapidamente no tempo é, pois, preciso considerar, nas relações internacionais, outros fatos, na área de serviços que podem ser prestados e especialmente em relação às joint ventures suscetíveis de serem criadas entre empresas dos dois países, tendo, de um lado e de outro, o Estado como catalisador. Não se deve esquecer que o século XXI é o das parcerias, em que os interesses comerciais superam as divergências políticas e constituem um caminho seguro para a paz, não obstante as dificuldades que podem apresentar, e que devem ser superadas. Foi na realidade o relacionamento comercial que permitiu o fim da Guerra Fria e a derrubada do Muro de Berlim, pois o isolamento econômico destrói as economias nacionais.

Dentro deste raciocínio, é possível conceber também, que o Brasil e, em particular as empresas brasileiras, possam também ser os catalisadores de joint ventures entre algumas sociedades dos países árabes, como o Egito, e outras de Israel, formando-se multinacionais, com companhias dos dois países e eventualmente até, conforme os interesses em jogo, contando com capitais chineses, europeus ou americanos. As oportunidades de negócios no campo da infraestrutura são imensas, tanto no Oriente Médio, como no Brasil, mas os investimentos não se realizam por falta de confiança.

Em relação à exploração do petróleo e do gás, a revista inglesa The Economist reconhece que os problemas decorrem mais da falta de cooperação entre os Estados do que da ausência de recursos. O mesmo se pode dizer da captação e distribuição da água, cujas dificuldades se refletem em toda a economia da região. A afirmação se aplica a toda a região, desde Chipre e a Turquia, até a Jordânia, o Egito e a Turquia. Trata-se da necessidade de investimentos gigantescos que pressupõem contratos a longo prazo, permitindo as concessionárias reaver o seu capital e realizar o seu lucro.

O Brasil, embora evidentemente não lhe seja dado garantir a paz na região, tem uma posição privilegiada para que as nossas empresas possam atuar na região com as garantias adequadas de segurança jurídica dadas pelos Estados ou por entidades internacionais. Se fossem utilizados em investimento de infraestrutura os recursos gastos nas guerras ocorridas na região, muitas soluções teriam sido dadas aos problemas locais. O momento internacional é propício e talvez nenhum país tenha atualmente, ou possa vir facilmente a ter, a confiança dos diversos Estados da região para, se não liderar, ao menos provocar “alianças para a paz” organizadas por empresas privadas com apoio dos Estados e das organizações internacionais. Recentemente, países de ideologias diferentes se uniram para o combate ao terrorismo, assumindo posições convergentes que não eram concebíveis há alguns anos. A maioria das grandes potências mundiais já tem posições que impedem que sejam consideradas imparciais, do contrário de que ocorre com o nosso país.

Em artigo publicado pouco antes do seu falecimento, o ex-presidente de Israel, Shimon Peres, analisou a situação das águas do Nilo que poderiam ser recicladas, transformando a economia de toda a região no interesse tanto do Egito, como do Sudão e da Etiópia, levantando o nível de vida desses países e garantindo-lhe um desenvolvimento no médio e longo prazo. Reciclando as águas do Nilo, afirmou o estadista israelense, multiplicaríamos por dois ou três, a utilização da água do rio, sendo a reciclagem menos onerosa do que o desvio dos rios e do que o custo dos conflitos. Seria uma solução que poderia ser dada por empresas privadas mundiais.

É um contexto no qual as empresas brasileiras de engenharia e obras públicas alcançaram alto nível de eficiência e passaram a ter importante experiência internacional. Se reorganizadas e devidamente reestruturadas, inclusive na sua gestão, podem participar do planejamento e da execução de parte desses grandes projetos, criando riquezas para a região e utilizando o nosso know-how específico. Independentemente dos resultados práticos, que podem ser mais ou menos amplos, dar-se-ia, assim, um passo importante para a abertura da nossa economia, alcançando-se uma nova posição do Brasil no cenário internacional.