Carta de vítima de campo de concentração de Auschwitz ressurge do passado

“Desde que estou aqui, jamais acreditei na possibilidade de retornar. Aqui é um outro mundo. É o Inferno. Mas o inferno de Dante é imensamente ridículo em relação ao verdadeiro daqui, e nós, como testemunhas oculares, não devemos sobreviver. Apesar de tudo, mantenho, por vezes, uma pequena faísca de esperança – talvez por um milagre qualquer. Eu que já tive tanta sorte, um dos mais velhos aqui, sobrevivi a tantos obstáculos, será que ocorrerá o milagre final? Mas, neste caso, chegarei antes que seja encontrada esta carta enterrada”.

O trecho acima faz parte de uma carta de oito páginas escrita em 6 de novembro de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, no campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau, e que hoje, 75 anos depois, ressuscita do passado em uma trama detetivesca que corrige a História ao revelar a verdadeira identidade de seu autor e surpreende seus familiares. Assinada apenas por “Hermann”, a carta foi descoberta em fevereiro de 1945 por um enfermeiro da Cruz Vermelha, Andrejz Zaorski, dentro de uma garrafa de vidro sob os escombros de um dos crematórios de Auschwitz.

Judeu polonês de Varsóvia, radicado em Paris e deportado do campo francês de Drancy em 2 de março de 1943, conforme descreveu em sua carta, Hermann foi imediatamente selecionado em Auschwitz para integrar o Sonderkommando (comando especial), grupo encarregado de transferir os cadáveres das câmeras de gás para os crematórios – o que incluía retirar as vestes, cortar os cabelos e extrair os dentes de ouro dos corpos -, função que exerceu por cerca de 20 meses.

Os membros do Sonderkommando eram isolados dos demais prisioneiros e, como testemunhas das práticas de extermínio, a Solução Final, estavam condenados à morte. Um mês após a conhecida revolta de integrantes do comando especial do Crematório IV, em 7 de outubro de 1944, Hermann, intuindo seu fim próximo, escreveu uma carta de despedida para sua mulher, Hela, e sua filha única adolescente, Simone, que permaneceram escondidas na França durante a guerra, e a enterrou. Trata-se da única carta manuscrita em francês do total de oito encontradas no campo de autoria de integrantes do Sonderkommando.

Em fevereiro de 1948, de posse da missiva, o Ministério de Ex-Combatentes e Vítimas de Guerra francês procurou contatar os destinatários publicando trechos do texto em um informe da associação de deportados de Auschwitz. A partir deste momento, o manuscrito original nunca mais foi visto. Em 1968, uma transcrição da carta que havia sido feita pelo ministério foi enviada ao Museu de Auschwitz. Pesquisadores do museu atribuíram sua autoria a Chaim Hermann, judeu de Varsóvia, habitante de Paris e único Hermann da lista de deportados de Drancy para Auschwitz em 2 de março de 1943, em um erro que acabou sendo repetido em todas as obras e documentos históricos ao longo de décadas. Nenhum parente de Chaim Hermann, morto no período da guerra, se manifestou, e tampouco ninguém atentou para o fato de que por ele ser solteiro e sem filhos não poderia ser o missivista.

O engano somente foi desfeito recentemente por acaso, durante as pesquisas de Karen Taieb, responsável pelos arquivos do Memorial da Shoah, em Paris, para a publicação de um livro sobre manuscritos de deportados judeus em Auschwitz. Em sua busca nos documentos indexados no Memorial, se deparou com a fotocópia de uma carta em francês que, na leitura, notou ser escrita por um integrante do Sonderkommando. Por saber que o único manuscrito em francês era de autoria de Chaim Hermann, comparou os dois e, para seu espanto, se tratava exatamente do mesmo texto, mas atribuído a outro nome: Hersz Strasfogel.

— Em 2002, a filha, Simone, atendendo a uma campanha de coleta de dados de deportados para futura inscrição do nome no nosso muro, esteve aqui no Memorial, preencheu o formulário, anexou uma pequena foto de identidade de seu pai e uma fotocópia da carta — conta Taieb. — Mas só mais tarde os documentos anexados a esses formulários foram indexados, e quem o fez não precisou que a carta tinha relação com o Sonderkommando. Infelizmente, naquele momento desperdiçamos uma informação capital. É uma pena, pois Simone ainda estava viva e poderíamos ter obtido seu testemunho. Ela morreu há dois anos, é terrível.

Quando se mudou para a França no final dos anos 1920, Strasfogel passou a usar o prenome Hermann no lugar de Hersz, o que explica a assinatura. Sua mulher, Hela, era também chamada de Hélène, e sua filha, Sima, adotou o Simone. Os familiares nunca souberam que a carta circulava sob autoria de Chaim Hermann e não tinham a mínima ideia da importância histórica do texto. Em sua investigação, Taieb descobriu, graças a um documento encontrado nos arquivos do Memorial de Caen, que a carta original fora entregue à família em 2 de março de 1948.

Simone só viu a carta em 1989, ao esvaziar o apartamento de sua mãe recém-falecida, e passou a guardá-la em um cofre no banco. Filho de Simone e neto de Strasfogel, Laurent Muntlak, hoje com 64 anos, conta que o tema era tabu na família.

— Eu mesmo só tive acesso a uma fotocópia em 2002, quando minha mãe esteve no Memorial, mas confesso que só li o manuscrito recentemente, quando fui mostrar o original a Karen Taieb. Todos queriam viver com um grande “V” e esquecer essa história após tudo o que se sofreu. Sabia que minha avó e minha mãe haviam se escondido durante guerra, mas não conhecíamos os detalhes. Só agora tivemos consciência do testemunho histórico que representava esta carta. E é um texto dramático, mas também repleto de esperança. Pretendo fazer uma viagem a Auschwitz, no inverno, para tentar entender tudo pelo que passou meu avô — diz, vertendo lágrimas.

Strasfogel trabalhava como alfaiate em uma parte de seu próprio apartamento parisiense, no 117 do bulevar Richard Lenoir, nas proximidades da Praça da Bastilha. Seu pedido de naturalização francesa ainda não havia sido avaliado até o dia de sua detenção, em 20 de fevereiro de 1943. Para o historiador alemão Andreas Kilian, especialista no estudo dos Sonderkommando, é provável que tenha sido incluído no grupo transferido para o campo de Gros-Rosen, em 26 de novembro de 1944, juntamente com parte do equipamento dos crematórios, e lá executado, aos 49 anos. Kilian destaca a importância do achado da carta original, o primeiro manuscrito encontrado após a liberação dos campos:

— Até hoje só conhecíamos a transcrição, com alguns erros. É uma carta especial, pois mais íntima, diferente dos demais relatos, mais históricos, e que trata do significado de vida e morte no cotidiano dos Sonderkommando. Muitos pensam que eles eram desumanizados, colaboracionistas que agiam como animais, o que não é verdade. Ele escreve que era politicamente ativo, estava na resistência, mas que não poderia falar mais sobre isso. O conteúdo da carta revela sua consciência política e o profundo amor por sua família. É um exemplo muito importante de humanidade no Sonderkommando.

Os nazistas por vezes obrigavam os prisioneiros a escreverem cartões postais às famílias, tanto como operação de propaganda, para mostrar que “gozavam de saúde em um campo de trabalho”, como para descobrir o eventual paradeiro de novas vítimas. Registros atestam que Strasfogel enviou duas destas mensagens (desaparecidas), mas sua carta revela que recebeu uma resposta de sua família, algo bastante incomum, segundo Karen Taieb:

— Graças à carta de Strasfogel, sabemos que cartas foram enviadas e recebidas pelo destinatário. É algo extraordinário, que não se imaginava, e ainda mais se tratando de integrantes do Sonderkommando, pois deveriam estar em total isolamento.

o domingo passado, o Memorial da Shoah organizou uma cerimônia para oficializar a doação pela família do manuscrito original de Strasfogel, que ganhará um espaço em sua exposição permanente destinada aos campos de extermínio.

— Trata-se também de uma questão de justiça retribuir a este senhor a paternidade de sua carta. Fico triste por Chaim Hermann, que era conhecido apenas por esta razão, por isso fizemos pesquisas aprofundadas para recuperar algo de sua história, mas, infelizmente, não encontramos praticamente nada — lamenta Taieb.