“Causa judaica é justa”, diz Caio Blinder em debate sobre Judaísmo e Jornalismo, em São Paulo


Jaime Spitzcovsky e Caio Blinder. Foto: Divulgação.

Caio Blinder e Jaime Spitzcovsky têm vários pontos em comum em sua carreira como jornalistas. Um deles: ambos foram editores de Mundo da Folha de S. Paulo. Outro: ambos assumem, enquanto jornalistas, sua origem judaica. Esse foi o ponto de partida para o debate “Judaísmo e Jornalismo”, promovido pela Conib em parceria com a Congregação Beth-El, que levou na noite desta segunda-feira, 11 de novembro, cerca de 200 pessoas à sede da Beth-El, em São Paulo.

Em curta visita ao Brasil, Blinder também falou na capital federal: na noite chuvosa de 9 de novembro, ele atraiu mais de 100 pessoas para a Associação Cultural Israelita de Brasília, onde abriu "A cabeça de um jornalista e o quebra-cabeças do Oriente Médio", evento realizado em parceria com a Conib. Ele também falou de sua larga experiência na vida comunitária judaica em São Paulo e nos EUA.

Caio Blinder participa do programa Manhattan Connection, da GloboNews, desde seu início, em 1993, é colunista de VEJA.com, da Tribuna Judaica e correspondente da rádio Jovem Pan em Nova York. Jaime Spitzcovsky, coordenador de Relações Institucionais da Conib, é jornalista e palestrante. Integra o Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP. Foi correspondente da Folha de S. Paulo em Moscou e em Pequim.

“Mesmo em posições de comando, como na editoria de Mundo da Folha, assumi minha origem judaica”, disse Blinder em São Paulo. “Nunca vi nisso nenhum problema ético-profissional, pois a causa judaica é justa. Sempre colaborei com a imprensa judaica, desde o suplemento Campus, da Resenha Judaica, em 1975”. 

Spitzcovsky lançou então a pergunta, que “muitos aqui talvez queiram fazer”: ‘ A mídia é anti-Israel e antissemita?”. Para Blinder, “há uma preocupação das direções de jornalismo – seja na Globo, na Veja ou na Folha – em não serem partidárias. Assim, vejo certas reações da comunidade judaica como exageradas”.

Para Spitzcovsky, estas reações podem ser explicadas por “fatores históricos e atávicos”. Ele observou que as empresas de jornalismo são apartidárias, mas também são indústrias. “O chefe de redação é cobrado duplamente – pela qualidade e pelo resultado comercial. Uma foto impactante gera mais tráfego. No conflito entre Israel e Hamas, uma foto dos efeitos da guerra em Gaza terá mais impacto que uma foto de Sderot [cidade israelense na fronteira]”.

Ele acrescentou: “Há mais fatores em jogo, na mídia brasileira: 1) o elemento ideológico: o sentimento antiamericano é mais arraigado que o antissemitismo; 2) incompetência; 3) defeitos perversos – exemplo: noticiar sobre a Colômbia apenas fatos ligados ao narcotráfico”.

Para Blinder, existe outro ponto que serve para colocar o foco em Israel: o acesso à informação que, “em Gaza, era muito maior do que na Síria hoje, por exemplo”.  Independentemente disso, há para ele, no Brasil, “um excesso de interesse por Israel”, que Spitzcovsky explicou pelo fato de as notícias serem trazidas pelas agências internacionais, com um “viés anglo-saxão ou francês”.  Ele lembrou ainda a estratégia palestina de luta no campo das comunicações – dada a impossibilidade de vitória no campo militar -, cujos “primórdios” remontam ao voto que equiparou sionismo e racismo, na ONU, em 1975. Blinder acrescentou: “Os palestinos refinaram o uso de imagens e estão dando uma importância maior à desobediência civil. Isso é um desafio complexo para Israel”.  

O comentarista do Manhattan Connection nota um crescimento do “jornalismo conservador” no Brasil, com posições pró-Israel, para as quais pede a atenção da comunidade judaica, pois podem ser apenas “ativismo para se opor à esquerda brasileira”.

A plateia pediu aos debatedores que comentassem o caso Tatá Werneck. Blinder disse que a reação da comunidade judaica talvez tenha sido exagerada, mas “os judeus costumam reagir com mais humor que outros grupos de pressão”. Para Spitzcovsky, a Conib precisa estar atenta ao “pulsar” da comunidade. “Nossa reação é também uma estratégia de prevenção. Por outro lado, os judeus devem ser dogmaticamente a favor da liberdade de expressão”.

Os dilemas do jornalismo contemporâneo – empregos em queda, instabilidade, papel das redes sociais – também foram abordados. Para Blinder, “estamos no meio de um furacão, e ainda não é possível antever o que virá”. Spitzcovsky diagnosticou uma “desintegração das estruturas clássicas, e um jornalismo que se atomizou – na produção e na recepção”. O lado bom: “Há abundancia e acesso fácil à informação”. Blinder completou: “A pulverização pode ser positiva, por aumentar o número de denúncias”.

“Mas são necessários filtros, pois o mercado pedirá critérios”, ponderou ele. A grande questão é: “Quem pagará por estes filtros?”, completou Spitzcovsky.


Jaime Spitzcovsky, rabino Iehuda Gitelman, Caio Blinder e Daniel Feffer. Foto: Divulgação.

Casa cheia na Congregação Beth-El, em São Paulo. Foto: Divulgação.

Caio Blinder, Fernando Lottenberg e Jaime Spitzcovsky. Foto: Divulgação.


Casa cheia em Brasília para ouvir Caio Blinder. Foto: ACIB.

A partir da esquerda: diretor cultural da ACIB, Hélio Socolik; Caio Blinder; mediador Hugo Sternick e o presidente da ACIB, Peter Rembischevski. Foto: ACIB.