Combate ao discurso de ódio passa por mais educação, dizem pesquisadores

Em uma sociedade cada vez mais marcada pela polarização, em especial quando o assunto é política, pesquisadores se reuniram na segunda (4) e na terça (5) na Universidade de São Paulo para debater e buscar soluções contra o discurso de ódio. Nas palestras, os debatedores enfatizaram como atitudes que parecem simples como uma piada, o compartilhamento de um meme no celular ou uma charge podem carregar preconceito e potencializar atitudes hostis.

Os presidentes da Conib, Fernando Lottenberg, e da Fisesp (Federação Israelita do Estado de S.Paulo), Luiz Kignel, estiveram na abertura dos debates. E o diretor geral da Conib, Sergio Napchan, participou do evento.

Para os pesquisadores, o combate ao discurso de ódio passa pela educação. Segundo João Pedro Favaretto Salvador, da FGV Direito, mais informação e sentimento de empatia nos interlocutores podem reduzir a efetividade do discurso. Ele descarta a possibilidade de limitar a liberdade de expressão. “Ao invés de tentar limitar necessariamente o que é dito, é melhor fazer com que a audiência desse discurso seja inoculada contra ele, com empatia, com políticas que levem um grupo a entender outro grupo”.

Em sua fala ao lado de Fabrício Vasconcelos Gomes, também da FGV Direito, os limites e práticas da atuação de empresas como Facebook e Twitter para coibir práticas de ódio foram mostrados. Hoje, cabe a elas limitar o alcance ou retirar do ar conteúdos qualificados como impróprios, mas os critérios ainda geram discussão.

Estudiosa do neonazismo há quase 20 anos, a pesquisadora Adriana Dias, da Unicamp, destacou que, com diferentes matizes e em distintas regiões do planeta, esse grupo tem ganhado força. “Há milhares de páginas e milhões de pessoas ao redor do mundo”, disse ela, que mapeou conteúdos online em inglês, espanhol e português sobre o tema.

“Precisamos fazer um esforço para levar isso a sério e compreender. E compreender não quer dizer justificar”, ressaltou.

Na palestra “Nazismo reciclado”, o jornalista e doutor em história social Marcos Guterman identificou a retomada de um método discursivo similar ao que embasou a ascensão e a manutenção do nazismo na Alemanha. Para o pesquisador, o sentimento tribal fortalecido pelas redes sociais tem alimentado esse processo na política, que tem sido cada vez mais negada.

Em sua apresentação, trouxe trechos de documentos históricos como o livro Minha Luta, de Adolf Hitler, escrito em 1925, no qual há explicações sobre o papel da propaganda. “A ideia da propaganda não é esclarecer, é não abrir espaço ao contraditório”, explicou Guterman sobre as palavras de Hitler, comparando o método com o de governos autoritários ao redor do mundo.

Segundo ele, hoje em dia muitas pessoas se julgam bem informadas lendo apenas títulos de redes sociais. “Perde-se a noção da realidade compartilhada, só a realidade do grupo é valida”. Destacou, ainda, a presença de um discurso contra a imprensa, contra intelectuais e contra a ciência, uma vez que o “real torna-se inimigo do poder”. “O antissemitismo e o anticomunismo são armas retóricas de grande alcance porque reduzem o inimigo. O discurso anticomunista tem esse propósito – muita gente nem sabe o que é comunismo, mas isso não é relevante. O que importa é dizer que aquele que não pensa como eu é comunista”.