Conib defende diversidade judaica, Israel e combate à intolerância e ao discurso de ódio

O presidente da Conib, Fernando Lottenberg, defendeu a pluralidade da comunidade judaica brasileira e o combate à intolerância e ao discurso de ódio em seu discurso no jantar de gala da 50ª Convenção da Conib, sábado na Hebraica de São Paulo. Para Lottenberg, num momento de tanta polarização e fomento ao ódio e a divisões, a comunidade judaica precisa se manter unida em sua diversidade. E o guia único para promover essa união são os valores do judaísmo.

Leia a seguir os principais trechos de sua fala, aplaudida de pé pela plateia formada por lideranças comunitárias e líderes políticos, do Judiciário e do empresariado nacionais.

“Desde a nossa última convenção, muita coisa aconteceu – no Brasil e no mundo. Foi um ano de muitas realizações, de viagens, de encontros – e também de alguns desencontros.

Começamos o ano com a notícia de uma alteração na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, assegurando a alunos alternativas para realizar provas marcadas para datas nas quais, segundo seus preceitos religiosos, seja proibido o exercício de atividades.

Encontramos o presidente Jair Bolsonaro, no dia 15 de janeiro, em audiência no Planalto, com a frente das organizações filantrópicas, com o objetivo de apresentar a importância da filantropia como parceira do Estado na oferta de direitos sociais à população. Apresentamos, naquela oportunidade, as ações da comunidade judaica nas áreas de educação, assistência social e saúde.

Estivemos por duas vezes com o vice-presidente Hamilton Mourão. Na última, na qualidade de presidente em exercício, ele compareceu a um jantar promovido pela Conib, no qual mencionou a importância da contribuição judaica para a sociedade brasileira e manifestou sua admiração pelo povo judeu e por Israel.

Recebemos o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, em São Paulo. Alcolumbre é o primeiro integrante de nossa comunidade a presidir o Congresso Nacional e a ter assumido a Presidência da República, o que muito nos orgulha e confirma a vocação acolhedora do nosso país.

Na missão de manter diálogo com as lideranças políticas e defender nossos interesses, encontramos com diversos parlamentares, em São Paulo e em Brasília, vários hoje aqui conosco, e cuja presença é motivo de honra para nós.

Estivemos com o ministro Dias Toffoli, no STF, para solicitar que um recurso que discute a constitucionalidade do Artigo 19 do Marco Civil da Internet – permitindo a remoção de conteúdo de discurso de ódio – seja colocado em pauta, o que está previsto para o próximo mês.

Em reunião no Itamaraty, com o embaixador Kenneth Nobrega, secretário das Relações Bilaterais no Oriente Médio, Europa e África, reforçamos o pleito da filiação do Brasil à IHRA (Aliança Internacional em Memória do Holocausto).

Diversas iniciativas no campo do diálogo inter-religioso foram tomadas, sob a liderança do rabino Michel Schlesinger e com a participação de outros rabinos, em vários estados do Brasil.
Visitamos também comunidades em vários estados do Brasil, prestigiando suas atividades e entrando em contato direto com as realidades locais.
Senhoras e senhores,
Temos sido, há séculos, um termômetro do estado da intolerância no mundo. O aumento de ataques a alvos judaicos, o que por si só já é terrível, geralmente precede perseguições, ataques e conflitos mais abrangentes. Somos como o elo fraco da corrente da tolerância e do entendimento, que está prestes a se romper em várias partes do mundo.

Lideranças judaicas globais têm se esforçado em denunciar e combater essa onda, muitas vezes disfarçadas ou embaralhadas em disputas políticas e sectárias que transcendem a questão religiosa, étnica ou nacional. Mas, infelizmente, muitos ainda não querem ver e não querem ouvir.

Precisamos seguir firmes nessa linha de defesa do respeito e do entendimento, para o bem estar de todos.
E, para que possamos ter força nessa luta incontornável, é necessário que estejamos unidos, dentro de nossa diversidade. E o que pode nos unir se, entre nós, também há pensamentos divergentes, extremos que discordam e não se esforçam para buscar a conciliação?

Penso que o que pode nos unir, meus amigos, são nossos valores, que desde sempre se fundamentam tanto no espírito comunitário, que nos permitiu resistir e prosperar em meio a dificuldades extremas, quanto na diversidade de opiniões, fonte inesgotável de sabedoria e desenvolvimento.

Segundo o rabino Jonathan Sacks, a civilização judaica é uma das únicas cujos textos canônicos são antologias de argumentos. Os profetas discutem com Deus; os rabinos discutem entre si. E, onde você encontra argumentos, lá encontrará paixão. Somos um povo com opiniões fortes – faz parte de quem somos. Nossa capacidade de argumentar, nossa grande diversidade cultural, religiosa e de qualquer outra forma, não tem sido uma fraqueza, mas uma força.

E essa fortaleza, portanto, vem da conjunção de dois fatores aparentemente contraditórios: a coesão comunitária e a diversidade de pensamento. É uma combinação nem sempre fácil, mas sempre necessária.

Trata-se de um arranjo pelo qual a Conib vem lutando desde sempre, ainda mais nesses tempos de tanta polarização e de promoção do ódio e da intolerância. Mas essa postura de defesa firme e intransigente de nossa diversidade nem sempre é compreendida como tal.

Como estabelece nosso estatuto, somos uma instituição política, mas também apartidária. E, nesse papel, devemos manter boas relações e diálogo efetivo com todas as vertentes políticas e institucionais do nosso país. Não há como fazer de outro jeito. É isso o que temos feito. Dialogamos – e divergimos, quando necessário – com todos os governos, independentemente de sua orientação política. Tivemos encontros com autoridades e ministros, em vários governos, cada um a seu tempo, sempre de forma independente. Respeitamos as autoridades estabelecidas e exigimos respeito por nossa institucionalidade.

Não temos partido, mas temos lado. E o nosso lado, na liderança da comunidade judaica brasileira, é a defesa da democracia, dos direitos humanos, dos valores judaicos e das boas relações do Brasil com Israel.

Organizamos, nos últimos anos, missões de formadores de opinião a Israel, com a Fisesp e o projeto Interchange, com resultados muito positivos. E já estamos pensando na próxima.

Na última delas, em junho deste ano, como vimos, realizamos uma visita inédita, de um grupo formado pelos ministros do STF, Dias Toffoli, Luis Roberto Barroso e Rosa Weber e do STJ, Ricardo Vilas Boas Cueva, Mauro Campbell Marques, Joel Paciornik, Sebastião Alves dos Reis Jr. e Maria Isabel Galotti Rodrigues. Passaram ali uma semana, em encontros de alto nível com lideranças do Judiciário, da vida política e social do país, voltando de lá com uma visão atualizada e realista da sociedade israelense e do Oriente Médio, tantas vezes descrita de forma parcial e injusta.

As boas relações do Brasil com Israel são um objetivo central da Conib, pois assegurar a existência de um Estado judeu forte e soberano é peça fundamental na defesa dos valores judaicos. E é preciso, nesse sentido, registrar a crescente melhoria do relacionamento dos dois países. A postura mais equilibrada do Brasil em órgãos internacionais como a ONU e o Conselho de Direitos Humanos, tem contribuído muito para este aperfeiçoamento.

Agradeço a presença de todos vocês nesta noite, nossos apoiadores permanentes, pessoas físicas, jurídicas e fundações, que não medem esforços em nos apoiar e assim podermos manter a qualidade de nossos projetos.
Gostaria também de registrar o trabalho incansável e voluntário, das lideranças comunitárias, muitas delas aqui presentes. Sem o trabalho de vocês, cada um em sua área de atuação, não teríamos uma comunidade forte, diversa e próspera.

Meus amigos: vivemos tempos difíceis.

O ressurgimento do antissemitismo, de forma organizada e letal em sociedades democráticas e livres, mostra que precisamos trabalhar ainda mais.

Na Conib, nas nossas federadas e em outras organizações comunitárias trabalhamos intensamente focados em segurança, para que nosso país siga sendo esse porto seguro da vida judaica. Não faltam ameaças, principalmente nas redes sociais e na chamada deep web. Estamos atentos e atuantes em relação a isso, com diálogo intenso com as autoridades e monitoramento constante do mundo e do submundo digital.

Enfim, ser judeu não é fácil, nem simples. E está ficando mais complicado.

Poucas décadas depois do Holocausto, nossos inimigos saem das sombras e vêm à luz das telas de celulares, tablets e computadores, promovendo o antissemitismo e sua forma contemporânea, o antissionismo, com efeitos letais. As redes sociais estão cheias de exortações contra alvos judaicos.

E essa luta contra a intolerância e a propagação do ódio, portanto, não pode ser apenas nossa. Por tudo isso, temos a obrigação de estar na linha de frente da promoção do entendimento e do combate ao ódio e à intolerância.
Este é o melhor legado que podemos deixar para as próximas gerações. A trajetória de nossa comunidade e de sua representação tem sido uma história de integração, desenvolvimento e sucesso. Está em nossas mãos garantir sua continuidade.

Sobre nossa missão de melhorar o mundo, o Talmud nos alerta que não devemos nos intimidar pela enormidade da tarefa. Não somos obrigados a completar a missão, mas não podemos abandoná-la.

Muito obrigado a todos.
Shalom!