Corbyn e assessores intercederam para impedir investigação sobre antissemitismo no Partido Trabalhista, dizem ex-membros

Em programa exibido pela BBC, ex-membros do Partido Trabalhista britânico acusaram o líder Jeremy Corbyn e seus assessores de agirem para impedir investigações sobre denúncias de antissemitismo no partido.

Quatro ex-membros do Partido Trabalhista, incluindo o antigo secretário-geral, Iain McNicol, quebraram protocolos do partido para denunciar Corbyn e seus assessores mais próximos no programa Panorama da BBC na noite desta quarta-feira (10).

Os denunciantes disseram que Corbyn e seus assessores intervieram diretamente para impedir investigações e processos disciplinares contra membros do partido acusados de promover o antissemitismo.

A BBC divulgou uma série de troca de e-mails, entre o diretor de comunicação Seumas Milne e a secretária geral Jennie Formby, contendo recomendações para proteger os membros do partido acusados de antissemitismo.

E-mails de maio de 2018 mostram que Formby procurou influenciar a comissão disciplinar numa audiência para que um membro do partido não fosse punido por antissemitismo. “Não se pode esperar que o Comitê Nacional Constitucional esteja agindo nesse sentido, e eu também desafio o painel no caso de Jackie Walker”, escreveu Formby em um e-mail enviado a um grupo de altos funcionários, incluindo Corbyn e Milne.

Em outro e-mail, Formby disse ao grupo: “Eu excluí permanentemente todos os vestígios do e-mail (anterior)”. “Há muitos olhos voltados para o meu endereço (de e-mail) do partido, Por favor, use o meu endereço Unite”.

O denunciante Dan Hogan, especialista que atuou na comissão que investigava as denúncias, também acusou Formby de ter cometido “excessos”.

Em um dos e-mails, de março de 2018, Milne disse que telefonou para apurar denúncias de antissemitismo no partido, afirmando que o então líder trabalhista Sam Matthews achava que os procedimentos estavam sendo ‘maculados pela política’.

“Algo está dando errado, e estamos atrapalhando a luta política contra o racismo…Acho que daqui para frente precisamos traçar linhas de ação”, escreveu Milne a Matthews e a vários outros.

O antecessor de Matthews, Mike Creighton, relembrou no programa que Milne o abordou na primavera de 2016 para tratar de crescentes denúncias de antissemitismo.

E quando Creighton sugeriu que Corbyn deveria se dirigir à comunidade judaica para reconhecer o direito de Israel de existir, ele disse que Milne riu dele.

“Eu dei a ele um conselho e lembro que falei sobre duas coisas. Uma era, devemos lidar com alguns dos casos de antissemitismo de forma mais ativa”, lembrou ele. “E a segunda sugestão foi a de que essa seria a hora certa para Jeremy Corbyn, como líder, fazer um discurso significativo sobre a questão do Oriente Médio, reconhecendo o direito de Israel de existir”.

“E ele riu de mim…Eu achei que ele realmente queria saber como combater o antissemitismo dentro do Partido Trabalhista”, disse Creighton. “Eu acho que isso demonstra a forma como lidamos com a má publicidade que estamos recebendo”.

Um porta-voz do partido trabalhista citado pelo Guardian negou que essa conversa tenha ocorrido. “Essa alegação é falsa e maldosa. Jeremy Corbyn sempre expressou seu apoio ao direito de Israel existir e por uma solução de dois estados…então não há razão alguma para rir de qualquer sugestão desse tipo”.

De acordo com as informações há uma determinação para que todas as denúncias sobre antissemitismo sejam antes encaminhadas à liderança do partido.

O número dois do partido, Tom Watson, muito crítico a respeito de Corbyn, afirmou nesta quinta-feira que as revelações eram “desoladoras”. “Há uma cultura quase permissiva de que as pessoas podem usar linguagem antissemita e racista tanto em nossas reuniões como nas redes sociais, e não abordamos isso de maneira adequada”, declarou Watson à rádio BBC.

Em comunicado, o Partido Trabalhista negou qualquer intromissão nas investigações.

Nesta semana, outros três legisladores deixaram o Partido Trabalhista britânico em protesto contra o antissemitismo. David Triesman, Leslie Arnold Turnberg, ambos judeus, e o armênio Ara Darzi renunciam afirmando que o partido é “institucionalmente antissemita”.

O partido não é mais “um ambiente seguro para os judeus”, escreveu Triesman em sua carta de demissão. “Minha triste conclusão é de que o Partido Trabalhista é claramente e institucionalmente antissemita”, disse Triesman.