Depois de publicar charge antissemita, New York Times deixa de divulgar cartuns opinativos

Um mês e meio depois que o jornal americano The New York Times publicou uma charge considerada antissemita em sua edição internacional, o veículo decidiu por fim a sua seção de charges-editoriais.

A mudança foi revelada após Patrick Chappatte, um dos chargistas do jornal, postar um texto em seu blog criticando a decisão e o motivo por trás dela – segundo ele, a recente controvérsia em torno da charge que retratava o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, como um cachorro.

“Temo que isso não seja só por causa das charges, mas sim uma questão de jornalismo e de opinião de forma geral. Estamos em um mundo onde multidões moralistas se reúnem nas redes sociais e criam tempestades, que atingem as redações de forma arrasadora”, escreveu Chappatte.

James Bennet, editor de opinião do New York Times, afirmou à rede CNN que a decisão foi tomada bem antes da polêmica.

Ele destacou que a versão do jornal a que maioria dos leitores têm acesso – aquela vendida nos EUA – não tem charges.

“Somos gratos a Patrick Chappatte e Heng Kim Song (chargistas) pelo trabalho que eles fizeram na edição internacional do New York Times, que é comercializada no exterior. No entanto, já faz mais de um ano que nós consideramos alinhar essa versão à nacional (dos EUA), eliminando as charges políticas a partir do 1º de julho”.

Bennet também afirmou à emissora que o jornal continuará a investir em narrativas gráficas, incluindo tirinhas como a “Welcome to the New World” (bem-vindo ao novo mundo), sobre uma família síria refugiada. A série recebeu o prêmio Pulitzer de charges editoriais de 2018 – o primeiro do New York Times na categoria.

O desenho que teria dado origem à polêmica mostrava o presidente americano Donald Trump cego usando uma quipá e sendo guiado pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, representado na forma de cão com uma coleira, na qual havia uma estrela de Davi.

A charge foi feita pelo português António Moreira Antunes e publicada originalmente pelo Expresso, um jornal de Lisboa. Colocada à disposição do CartoonArts International, uma espécie de agência de desenhos, foi selecionado por um “editor de nível médio” antes de o jornal ser impresso.

À época, o New York Times publicou em sua conta no Twitter uma nota de retratação, afirmando que lamentava “profundamente” o ocorrido e que mudanças seriam feitas “em termos de processos internos e treinamento”.