Do Marrocos até Omã, Gustavo Chacra analisa relações Israel-Mundo Árabe, no Centro da Cultura Judaica

Um voo panorâmico pelo norte da África e Oriente Médio, com algumas rasantes em questões específicas, como: o mundo árabe pós-Primavera Árabe, a pouca atenção da mídia a muitos conflitos em países árabes, as nuances do radicalismo islâmico (comparação entre sunitas e xiitas). Assim foi a multifacetada palestra do jornalista Gustavo Chacra, com o tema “Israel e o Mundo àrabe”, no ciclo “Israel e o Mundo”, em São Paulo.

Pós-Primavera, um instantâneo do mundo árabe: monarquias absolutistas no Golfo Pérsico, transição política na Tunísia, novo regime militar no Egito, caos na Líbia e no Iêmen, guerra civil na Síria e no Iraque, instabilidade na democracia sectária libanesa e manutenção do impasse entre israelenses e palestinos.

Chacra dividiu os países árabes em três grupos, baseados nas suas posturas sobre Israel:

Indiferentes – aqueles para os quais a questão Israel-Palestina é marginal, não afetando em quase nada suas políticas domésticas e posições internacionais: Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Iraque, Emirados Árabes, Kuwait, Yemen e Bahrain.

Parceiros – são aliados de Israel ou mantêm parcerias em temas específicos, embora sem relações formais: Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Qatar e Omã [país, que segundo Chacra, é amigo de todo mundo].

Inimigos – Possuem conflitos abertos com os israelenses: Síria, Líbano e palestinos.

Com relação aos indiferentes, seus conflitos são pouco divulgados na mídia: os interesses do Marrocos no Saara Espanhol, com um lobby marroquino bastante forte nos EUA, que consegue manter o conflito fora da mídia; os 250 mil mortos da Guerra Civil na Argélia, pouco lembrados hoje.

Com a guerra civil na Síria e o impasse com os palestinos, o maior problema para Israel entre os árabes passa a ser o Hezbollah no Líbano, afirma Chacra. Mas o maior inimigo de Israel não é árabe: o Irã, país que tem outros grandes adversários além de Israel: EUA e Arábia Saudita.

O jornalista procurou mostrar as nuances do radicalismo islâmico: o Irã, xiita, é inimigo do radicalismo sunita da Al Qaeda. O Hezbollah, xiita, não prega um islamismo fundamentalista, raramente ataca alvos civis e tem, entre seus aliados, os cristãos libaneses. Para Chacra, o grupo é perigoso para Israel porque tem apoio de 1,5 milhão de libaneses e investe não apenas em armas – seus mísseis já podem atingir Tel Aviv –  como em educação.

A religião não é o verdadeiro motivo que impede o desenvolvimento do mundo árabe, diz Chacra: “o Líbano é um país libertário; Beirute é uma cidade liberal,  muito parecida com Tel Aviv; os muçulmanos admiram a democracia israelense”. E mais uma das contradições do mundo árabe: é justamente no Líbano que os refugiados palestinos sofrem um regime de apartheid: não podem exercer certas profissões e são alvo de grande preconceito. Na Síria, eles não têm direito a voto, mas têm acesso à educação e saúde.

Chacra acredita que árabes e israelenses estão mais próximos da paz hoje do que em 1948: Israel quase chegou a um acordo com Assad, antes da guerra civil na Síria; o próprio reconhecimento da Autoridade Palestina na ONU, em 2012, como estado não membro, com base nas fronteiras de antes de 1967, significa, segundo o jornalista, um reconhecimento de Israel – já que as fronteiras israelenses pós-armistício de 1949 são implicitamente aceitas.

Quanto ao fato de os últimos governos israelenses terem orientação de direita, ele observou que nada impede que a direita faça a paz – como ocorreu com Begin e Sadat. Netanyahu nunca atacou países árabes, ele lembrou – e fez uma ofensiva bastante limitada contra Gaza, em 2012. Os árabes “o respeitam – ainda que o odeiem – porque sabem que ele defende Israel”.

Chacra vê a aproximação do Irã com os EUA com ceticismo, mas acha que as negociações devem prosseguir.  Para ele, a mudança na posição iraniana é resultado de dois fatores: as sanções econômicas e a ameaça de ataque de Israel.

Em 28 de outubro, às 20 horas, o ciclo, parceria entre a Confederação Israelita do Brasil e o Centro de Cultura Judaica, chega ao final com a palestra “Israel e Brasil e América Latina”, com Tullo Vigevani e Guilherme Casarões. Sinopse: será abordado o lugar ocupado por Israel na política externa brasileira e a maneira como tais relações repercutem sobre a liderança do Brasil na América Latina. Pretende-se discutir as quatro fases das relações: equidistância, que caracterizou os contatos iniciais e o desenvolvimento até a década de 1970; pragmatismo, comumente entendido como um alinhamento pró-árabe que se estendeu dos governos Geisel a Sarney; realismo, que envolveu o condicionamento das relações com Israel aos interesses dos Estados Unidos; e o novo pragmatismo, característico do governo Lula, em que se buscou a mediação da questão israelo-palestina, com importantes impactos em nossa região.

Tullo Vigevani possui graduação em Ciência Política pela Università degli Studi Roma Ter, mestrado em Ciências Sociais pela PUC-SP e doutorado em Historia Social pela USP. Atualmente é professor titular de Ciência Política da UNESP e pesquisador do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. Atua na área de Ciência Política, com ênfase em Relações Internacionais, e tem como principais temas de pesquisa Mercosul, Política Exterior do Brasil, Integração Regional, Globalização, Relações Internacionais, Brasil e Regimes Internacionais.

Guilherme Casarões possui graduação em Relações Internacionais pela PUC-MG, mestrado em Ciência Política, pela USP, e em Relações Internacionais, pela Unicamp. É doutorando em Ciência Política, pela USP. Atualmente, é professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco e da Fundação Getúlio Vargas. Tem artigos publicados na área de Ciência Política e Relações Internacionais, com ênfase em Política Externa Brasileira, Relações Brasil-Oriente Médio e Teoria das Relações Internacionais..

A curadoria do evento é do cientista social Daniel Douek.

O preço da palestra é R$ 65,00. Idade mínima: 18 anos.

A data: 28 de outubro, segundas-feira. Horário: das 20h às 22h. Informações, no Centro da Cultura Judaica: secretaria@culturajudaica.org.br ou secretaria1@culturajudaica.org.br. Telefone: (11) 3065-4349/4337.


Panorama da palestra de Gustavo Chacra, no Centro da Cultura Judaica, em São Paulo. Foto: Samuel Neuman.