Em evento para lembrar a “Noite dos Cristais”, Guterres pede “vigilância contínua” contra o ódio e a intolerância

O secretário-geral da ONU, António Guterres usou o pódio no Museu da Herança Judaica – um Memorial do Holocausto em Lower Manhattan – para falar sobre a necessidade de “vigilância contínua” contra o ódio e a intolerância.

Guterres participou de evento no museu nesta quinta-feira para lembrar o 81º aniversário da “Noite dos Cristais” – Kristallnacht -, que aconteceu em 9 de novembro de 1938 e que marcou o início do Holocausto. Cerca de 300 pessoas estiveram presentes no evento.

“A Kristallnacht não foi apenas a noite dos vidros quebrados, foi a noite das vidas quebradas e das sociedades quebradas”, disse Guterres. “Este museu nos convida a testemunhar e nos convoca a falar”.

“Nunca mais significa contar a história várias vezes, especialmente nestes tempos”, continuou ele, citando incidentes recentes contra judeus, que ele chamou de “lembretes diários assustadores da persistência do antissemitismo”. Ele citou especificamente as constantes vandalizações de túmulos judaicos, nos EUA, principalmente, e ao ataque à sinagoga da Árvore da Vida em Pittsburgh, em outubro do ano passado.

Guterres disse que terroristas e neonazistas estão aumentando o recrutamento e a radicalização e que usam a Internet como uma ferramenta para espalhar o fanatismo. Ele disse que os esforços online visam especificamente atrair jovens e pessoas vulneráveis. Guterres pediu uma ação urgente de pais, professores e líderes políticos “antes que o ódio clandestino se manifeste novamente de forma alarmante”.

Ele disse que a ONU está “totalmente envolvida nessa luta”.

Guterres, que atuou como Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados de 2005 a 2015 e primeiro-ministro de Portugal de 1995 a 2002, disse que sente uma conexão pessoal com os judeus por ter crescido em Portugal e ter aprendido que séculos antes seu país expulsou o povo judeu sob o que ele chamou de “estupidez total”.

“Portugal pagou um preço enorme por sua total estupidez na expulsão de judeus”, disse Guterres. “Os judeus que foram expulsos deram enormes contribuições em seus novos lares”.

A cerimônia começou com o toque do único shofar que sobreviveu em Auschwitz e que foi contrabandeado para fora do campo de concentração em 1945. O shofar foi tocado pelo rabino Eli Babich, da Sinagoga da Quinta Avenida.

O embaixador Danny Danon, representante de Israel nas Nações Unidas; George Klein, vice-presidente do Museu da Herança Judaica; e Phyllis Heideman, presidente da Marcha da Vida, também falaram no evento.

Danon ecoou o alerta de Guterres sobre os perigos do crescente antissemitismo.

“Qualquer pessoa que tenha visto a exposição neste museu se tornou uma testemunha (do Holocausto)”, disse Danon. “As testemunhas têm a obrigação de falar, porque o passado pode se repetir”, alertou.

“Hoje à noite estamos lembrando o que aconteceu na Kristallnacht”.”É importante não apenas por causa da destruição naquela noite, mas também pelo que está acontecendo agora. Sabemos que isso pode acontecer novamente”, disse ainda Danon.

Entre os membros da plateia havia uma dúzia de sobreviventes do Holocausto, incluindo a conhecida personalidade da mídia Ruth Westheimer.

O Museu da Herança Judaica, a 3 km da Estátua da Liberdade e da Ilha Ellis, é o terceiro maior museu do Holocausto do mundo e o segundo maior da América do Norte.

O museu vai inaugurar no próximo ano a exposição “Auschwitz: Não tão longe, não muito distante”, que exibirá peças de mais de 20 museus e instituições internacionais. Os itens incluem malas, óculos e sapatos que pertenceram a sobreviventes e vítimas de Auschwitz. A exibição está prevista para 30 de agosto de 2020.