Estudo revela ‘alarmante aumento’ do antissemitismo na Bélgica, com retóricas nazistas e negação do Holocausto

Relatório anual sobre antissemitismo global divulgado pelo Kantor Center revelou que incidentes antissemitas tiveram um ‘alarmante aumento’ na Bélgica, onde 39% dos judeus sofreram algum tipo de ameaça ou constrangimento, levando muitos a temerem usar quipá em público.

O estudo apontou que, depois da França, “os judeus não sentem em qualquer outro lugar da Europa tanta hostilidade nas ruas quanto na Bélgica”.

Organizações que monitoram o ódio contra judeus na Bélgica relatam um aumento crescente de incidentes antissemitas, como vandalismo a locais judaicos, negação do Holocausto e ofensas verbais, assim como das teorias da conspiração e da retórica nazista.

O Centro de Oportunidades Iguais, apoiado pelo governo belga, registrou 101 casos de antissemitismo em 2018, contra 56 no ano anterior.

O resultado do estudo coincide com a conclusão da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia, que constatou que 42% dos judeus belgas consideraram emigrar nos últimos cinco anos, um dos índices mais altos na pesquisa entre 12 países do bloco, ficando atrás apenas da França e da Alemanha.

As portas do Museu Judaico da Bélgica, em Bruxelas, nunca costumavam ficar trancadas durante o dia. Tudo isso mudou depois que em maio de 2014, um jihadista matou quatro pessoas em ataque ao museu em uma das atrocidades terroristas que mais chocaram o país. O jihadista francês Mehdi Nemmouche foi condenado à prisão perpétua no começo do ano pelos crimes cometidos no ataque.

Cinco anos após o ataque, o antissemitismo voltou às manchetes na Bélgica, país que simboliza a diversidade da Europa. Não só a capital, Bruxelas, sede das instituições como a União Europeia e a NATO, a Bélgica é constituída por três grupos linguísticos (francês, holandês e alemão), que dão ao país e imagem de ‘cartão de visita’ da Europa.

Os resultados das pesquisas não são surpresa para Ariella Woitchik, diretora de assuntos jurídicos e públicos do Congresso Judaico Europeu, com sede em Bruxelas. “Mesmo que você não tenha passado por um incidente antissemita, você ouve relatos de pessoas próximas em todos os lugares, de seus amigos, nas escolas, nos locais de trabalho. As pessoas não podem andar nas ruas de Bruxelas com um quipá na cabeça”, diz ela.

Ela afirma que a situação do antissemitismo está piorando também nas escolas. “Nas escolas públicas da Bélgica, o insulto mais grave que se ouve é ser chamado de ‘judeu'”. “Por causa das hostilidades, muitos pais estão tirando seus filhos de escolas públicas e transferindo-os para escolas judaicas”, diz ela. “Eles nem sequer têm a opção de escolha: ou deixam o filho numa escola pública e ele é alvo (de ofensas antissemitas), ou o coloca em uma escola judaica e esta também é alvo de ataques de vândalos, ou de outros tipos. É uma situação muito difícil”, afirma.

Os locais judaicos, principalmente o museu, tiveram proteção reforçada com equipamentos de segurança, com câmeras e portas duplas que só podem ser abertas por dentro. Soldados patrulham o lado de fora das escolas judaicas.

Raya Kalenova, vice-presidente do Congresso Judaico Europeu (CJE) ressalta que, lamentavelmente, o antissemitismo não é um problema exclusivo da Bélgica. Ela lembra os recentes ataques a uma sinagoga em Pittsburgh e a “ideologia antissemita do Partido Trabalhista britânico”. Ela cita que a França e a Alemanha estão entre os países europeus que vivem um forte aumento do antissemitismo, ameaçando “os próprios valores nacionais desses países”, conforme reconheceu o próprio presidente francês, Emanuel Macron.

Cinco anos atrás, líderes políticos europeus achavam que o CJE estava exagerando, diz ela, mas agora há uma maior compreensão da ameaça. “Estamos preocupados hoje, não só pelo povo judeu, mas por toda a nossa sociedade”, diz ela. “Atacar judeus significa atacar e desestabilizar a sociedade democrática”.