Festival de Berlim concede o Urso de Ouro para o filme israelense “Synonymes”

Pode ser que Synonyms, o longa do israelense Nadav Lapid, que venceu o Urso de Ouro no sábado, 16, seja melhor em partes que no todo. Nesse sentido, o filme metaforiza o próprio festival. Quando é bom, Synonyms é ótimo, exatamente como a seleção da Berlinale deste ano, que teve coisas boas meio perdidas num conjunto ruim. Muita gente, na própria imprensa internacional, chegou a interpelar o diretor do evento, Dieter Kosslick, para saber por que Marighella, de Wagner Moura, passou na competição, mas sem concorrer. Kosslick deu respostas evasivas, mas, dada a premiação do júri presidido por Juliette Binoche, é improvável que terminasse recompensado com algum Urso.

Synonyms conta a história de um ex-soldado israelense expatriado em Paris. Yoav, interpretado pelo estreante Tom Mercier, que veio do teatro, possui uma presença cênica esplendorosa. Não tem problema nenhum em passar boa parte do tempo nu. Yoav abandonou Israel porque não aguentava mais sua herança cultural. Ser soldado num país em que o Estado está sempre em guerra mexeu com ele. Em Paris, onde busca recomeçar, Yoav torna-se protegido de um casal de franceses. É bom acrescentar que isso ocorre depois que ele é roubado e fica sem nada.

Seu objetivo é aprender francês, daí o título. Yoav está sempre consultando o dicionário, tentando se apropriar da língua. Ele arranja emprego de segurança no consulado, daí a contradição. Quando tenta se expressar em francês e manifesta preocupações com a alta cultura, ele parece um bicho acuado, pronto para o ataque. No seu aprendizado da França, não apenas da língua, Yoav experimenta emoções viscerais – faz strip-tease trepado na mesa de uma boate techno; posa nu para um artista perverso; ouve música clássica com sua benfeitora, e parece que a situação vai evoluindo para algo mais; e, como se estivesse tentando criar novas raízes, canta com paixão a Marseillaise. O prêmio de interpretação para Mercier teria sido suficiente.

Na noite de sexta, quando recebeu o prêmio da crítica, o diretor conversou com o repórter (leia matéria). Mais prêmios estavam por vir, mas quem poderia prever naquele momento? O júri atribuiu seu prêmio especial para By the Grace of God, de François Ozon, um filme que não se assemelha a nada que o diretor tenha feito antes. Num estilo austero, documentado mais que documentário, Ozon aborda um caso de pedofilia na Igreja de Lyon. Os três homens que denunciaram o padre que abusou deles – a história é real – “são meus heróis”, disse o diretor ao receber seu prêmio. E ainda houve o Urso de Prata para o roteiro de La Paranza dei Bambini. Subiram ao palco os três roteiristas, Maurizio Brausi, o diretor Claudio Giovannesi e o escritor Roberto Saviano, em cujo romance o livro é baseado. Fizeram duros ataques à política do governo italiano para os refugiados. Com 11 filmes em diferentes seções (leia abaixo), o Brasil foi recompensado pela Anistia Internacional por um filme que aborda a violência do Estado contra os jovens – Espero Tua (re)Volta, de Eliza Capai.

Quando lhe disse que era do Brasil e ia recomendar seu filme para amigos distribuidores, você pareceu entusiasmado. Por que?

Porque meu sonho sempre foi conhecer o Brasil. Seu país, com todas as contradições, me atrai muito. Gostaria muito de ir mostrar pessoalmente Synonymes aos brasileiros (Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo).