Filósofo franco-argelino Bernard-Henri Lévy analisa o espírito judeu

Afinal, quem é judeu? A pergunta foi feita há exatos 60 anos por David Ben-Gurion, então primeiro-ministro de Israel e fundador do Estado Judeu. Na ocasião, a questão tinha um propósito prático: uma década depois do estabelecimento de Israel, ainda havia dúvidas sobre como registrar a nacionalidade de crianças de casamentos mistos, especialmente entre um homem judeu e uma mulher não judia, já que o judaísmo é de linhagem matrilinear – ou seja, segundo os ortodoxos, só é judeu quem nasce de mãe judia. O problema de decidir quem era judeu – e, portanto, tinha o direito automático a cidadania e residência naquele nascente Estado, graças à Lei do Retorno, firmada em 1950, dois anos após a fundação de Israel – tinha graves implicações políticas.

Quando Ben-Gurion fez a pergunta, endereçada a intelectuais judeus de diversas origens e vertentes de pensamento, a questão da identidade judaica ameaçava derrubar seu governo. Como é possível imaginar, os partidos religiosos e seculares que integravam a coalizão governista expressavam visões radicalmente distintas sobre o assunto, e qualquer decisão que o premiê viesse a tomar seria vista pela parte derrotada como argumento para abandonar a aliança. Em entrevista ao Estado, Lévy, que esteve no Brasil recentemente a convite da Confederação Israelita do Brasil (Conib) para uma série de palestras sobre seu livro, definiu o que, em sua opinião, um judeu deve fazer para honrar sua condição e sua identidade: “Defender Israel.” Para ele, a crítica ao Estado Judeu tem servido de pretexto para normalizar o antissemitismo, e isso deve ser denunciado como um atentado à humanidade.

Segundo os secularistas como Lévy, o pertencimento ao judaísmo é nacional, e não religioso. Esse conceito está em Hannah Arendt, cujo ensaio O Judeu como Pária (1944) descreve a religião judaica como um conjunto de valores aos quais se pode ou não aderir, enquanto o judaísmo, isto é, o pertencimento à nação judaica (jewishness) é tratado como uma condição existencial, portanto inescapável. Por esse motivo, a existência de Israel, conforme esse pensamento, teve o condão de redefinir o judaísmo. A vontade de integrar o povo judeu e defender as fronteiras de seu Estado Nacional, seja lá qual for a linhagem a que se pertence, seria superior ao exclusivismo religioso na definição da identidade.

Lévy sustenta que a missão dos judeus é “estudar, tanto quanto possível, os textos judaicos e o tesouro de inteligência e moral que eles contêm”, mas apenas isso não basta. É preciso também “acreditar nos valores universais e liberais, no espírito livre e na liberdade de pensamento, e lutar contra toda forma de fanatismo e violência”. Esse seria “o verdadeiro espírito do judaísmo”, disse Lévy, elevando Israel à categoria de farol moral e democrático do mundo – e isso seria tão mandatório que não dependeria nem mesmo da vontade dos judeus.

No livro, para ilustrar esse ponto, Lévy invoca a imagem de Jonas, profeta bíblico que Deus manda a Nínive, capital da Assíria, para advertir que a cidade seria destruída em 40 dias se o povo não se arrependesse. Essa passagem sugere que Deus estava disposto a converter os assírios, tradicionais e cruéis inimigos de Israel, em vez de destruí-los. Jonas, contudo, tenta escapar da missão – como se fosse possível esconder-se de Deus e renunciar a seus deveres – e acaba engolido por uma baleia. Três dias depois, ouvindo as súplicas do profeta, Deus o liberta. Agradecido, Jonas vai então a Nínive e, ainda contra sua vontade, faz o que Deus lhe havia ordenado – e o povo assírio se arrependeu. Ato contínuo, Deus poupa a vida dos assírios, para grande desgosto de Jonas, que critica a misericórdia do Senhor. Então, Deus ensina a Jonas a poderosa lição da compaixão (Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo).