Livro de Hitler em escola reabre discussão sobre nazismo

Uma foto publicada, por um equívoco de edição, na capa de terça-feira do Correio, reacendeu o debate sobre uma questão delicada: divulgação de símbolos e de ideias nazistas na sociedade contemporânea. A imagem trazia quatro estudantes segurando livros de uma jornada literária, objeto da reportagem. Um deles, no entanto, estava com um exemplar do polêmico Minha luta, livro escrito por Adolf Hitler para disseminar a doutrina historicamente condenável e responsável por milhões de mortes dos anos 1930 até o fim da Segunda Guerra Mundial.

O livro de Hitler, porém, não constava dos selecionados da Jornada Literária. Mas, conforme mostrou apuração posterior, fazia parte do acervo da biblioteca do colégio. A foto provocou reação, principalmente, da comunidade israelita, representada por Mourad Ibrahim Belaciano e Humberto Baruch, integrantes da Associação Cultural Israelita de Brasília (Acib); e críticas sobre a presença do exemplar em uma escola pública de ensino médio. “Eles (o governo) têm que fazer um levantamento sobre quais livros estão nesta biblioteca, como este livro foi parar lá, qual a extensão disso nesta e nas bibliotecas da rede inteira”, destaca Baruch.

A Secretaria de Educação assegurou que o caso é pontual e que a obra não está presente no acervo de outras escolas. “A obra foi comprada pela escola com a proposta de discutir o nazismo do ponto de vista crítico. As escolas públicas do Distrito Federal têm autonomia para desenvolver projetos pedagógicos próprios e comprar livros com recursos do PDAF (Programa de Descentralização Administrativa e Financeira)”, diz nota oficial.

A pasta destaca que condena o nazismo, mas não proíbe o debate sobre o tema, “que causou tanto mal à humanidade”.

“É preciso conhecer para melhor prosseguir. A SEEDF jamais recomendou a compra de obras como esta e nunca as distribuiu às escolas. A escola em momento algum se propôs a defender o nazismo. Pelo contrário”, esclarece.
O professor Aninho Irachande, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, defende o acesso de estudantes à informação e a livros de qualquer natureza. Ele ressalta, porém, a necessidade de que um conteúdo como esse seja trabalhado com responsabilidade e postura crítica pelos profissionais de qualquer instituição de ensino. “Todos os alunos têm o direito – e nós, como professores, temos o dever de permitir – de ter conhecimento sobre todas as ideologias que a humanidade construiu ao longo tempo. Não é prudente cercear isso sob pena de limitar o conhecimento sobre o que elas causaram”, explica.

Irachande ressalta que o receio com o tema extrapola a foto publicada pelo Correio. “Há uma preocupação muito grande com qualquer tipo de aproximação e de manifestação que possa remeter a essa ideologia, que sempre foi condenável, e a tudo que ela envolveu. Nesse sentido, há uma preocupação de que, eventualmente, a exibição desses símbolos não seja tão casual assim”, argumenta.

Na visão do professor, houve no Brasil uma relativização do que representou a ideologia nazista e dos males causados por ela. “Por isso, qualquer descuido ou qualquer manifestação proposital nos remete a um estado de alerta e a uma preocupação muito grande, já que estamos numa sociedade em que parece termos perdido um pouco o senso crítico do que representou o nazismo e o Hitler”, avalia.

Precisar o crescimento, como sugere o professor, e a quantidade de simpatizantes de Hitler e da ideologia nazista no Brasil é tarefa complexa. Não existem números oficiais, e os únicos dados disponíveis são levantados por pesquisadores que se aprofundaram no tema nos últimos anos. Levantamento de 2013 da antropóloga da Universidade de Campinas Adriana Dias, porém, apontava que o Brasil tinha cerca de 150 mil simpatizantes do neonazismo, muitos monitorados pelos serviços de inteligência brasileiros.

À época, a pesquisadora destacou os estados em que havia maior número de ocorrências. O DF ocupava a quinta posição na lista, com 8 mil pessoas identificadas com ideias desse tipo. Santa Catarina (45 mil), Rio Grande do Sul (42 mil), São Paulo (29 mil) e Paraná (18 mil) eram os quatro estados com números mais preocupantes do que a capital federal.

Clique e confira na íntegra uma entrevista com Mourad Ibrahim Belaciano e Humberto Baruch.