Movimento juvenil sionista socialista Hashomer Hatzair comemora centenário com festa no Rio

O movimento juvenil judaico Hashomer Hatzair [O Jovem Guardião], de base sionista e socialista, comemora 100 anos de fundação. Ele foi criado na região da Galícia [no então Império Austro-Húngaro; atual Ucrânia].  Está presente em 21 países. No Brasil, tem grupos no Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis.

Na década de 1920, o movimento já tinha quatro kibutzim na então Palestina e pregava a igualdade entre árabes e judeus, em um Estado binacional. Entre seus membros, destaca-se o herói Mordechai Anielewicz, líder da resistência judaica contra o exército nazista no Gueto de Varsóvia, em 1943.

Para comemorar o centenário, o grupo traz ao no Rio de Janeiro o artista israelense Danny Sanderson, que fará show no Teatro Oi Casa Grande, em 22 de outubro.

Em meio aos preparativos para a comemoração, Priscilla Karaver, 19, líder do movimento em São Paulo, falou à Conib sobre os projetos do movimento, sua visão do judaísmo e a adaptação de suas ideias ao fracasso do socialismo real.

 

Quando surgiu o movimento no Brasil?

O Hashomer Hatzair chegou ao Brasil na década de 1940, em São Paulo, e se expandiu para Rio de Janeiro e Florianópolis.  Já houve grupos também em Porto Alegre, Brasília, Recife e Manaus, entre outras cidades.

Como é a organização do movimento e quais são os principais objetivos?

Hoje, no Brasil, são cerca de 200 membros, e temos objetivo de mostrar à comunidade judaica que há uma alternativa real para a prática do judaísmo, um caminho entre a ortodoxia e o secularismo radical: o judaísmo humanista, baseado em alguns dos valores mais fortes e representativos da história judaica, como a cooperação, a luta e a valorização do homem como elemento central. A prática do judaísmo humanista envolve as tradições milenares do judaísmo clássico, como o Shabat, Pessach, Rosh Hashaná, Iom Kipur, com debates sobre seus significados e valores.

O movimento visa atrair os jovens para que lutem por um mundo mais justo e ecológico, por meio de pequenas ações, como atos contra o uso de sacolas plásticas, debates de conscientização política e social, apoio a organizações como a Pipa Social, que incentiva a arte nos morros cariocas.

Um de nossos mentores é o educador Paulo Freire, que nos guia para o objetivo da mudança social, em três fases: a revolução do indivíduo, seguida pela comunidade que o cerca, para que, finalmente, seja possível revolucionar a sociedade. Dessa forma, mostramos às crianças que todos podem ser um agente de mudança.

Nos últimos anos, foram feitas diversas assembleias em Israel, com representantes do mundo inteiro, para reformular e modernizar as bases ideológicas do Hashomer Hatzair. No século 20, a única forma de um membro completar o seu ciclo era por meio da imigração para Israel; hoje, há diversas formas, algumas já mencionadas acima e muitas outras documentadas e praticadas por milhares de jovens, ativistas e educadores do Brasil e do mundo.

Como o movimento lida com o fracasso do socialismo real? 

Com o fim da União Soviética e o domínio cada vez maior do capitalismo como sistema socioeconômico, o Hashomer passou por uma crise. Durante este período de instabilidade, a ideologia precisou ser revisada e adaptada de tal forma que pudesse prover uma educação baseada em um socialismo mais moderno. Em 2008, este modelo pedagógico-ideológico foi formalmente escrito, durante assembleia que juntou representantes de todas as sedes do mundo.

O novo modelo aborda os três pilares do movimento: sionismo, judaísmo e socialismo.

Em relação ao sionismo, acreditamos que os povos têm direito à autodeterminação e que Israel é a expressão da autodeterminação judaica. A terra judaica deve ser um porto seguro para todos os judeus e um centro em que a cultura e a identidade judaica possam florescer. Nossa proposta é criar e manter um equilíbrio autocrítico entre uma sociedade judaica socialista e um Estado pluralista, democrático e secular, que garanta justiça social para todos.

Em relação ao judaísmo, nos baseamos na cultura judaica e na abordagem humanista. Colocamos o indivíduo no centro da nossa visão de mundo judaica, e nossa moral deriva primariamente do nosso senso de responsabilidade e respeito à humanidade. Acreditamos e praticamos uma forma ativa de judaísmo que encoraja todos a dar um significado pessoal ao seu judaísmo, dentro do movimento.

Em relação ao socialismo, visualizamos um mundo de comunidades pequenas e cooperativas, feitas de indivíduos e grupos que pratiquem relações espontâneas, livres, igualitárias. Acreditamos que estas comunidades devam ter um equilíbrio entre o individual e o coletivo – e que o coletivo é a força que libertará o indivíduo.

O documento descreve também como colocar esses pilares em prática.

Como ocorre a integração entre os participantes do movimento no Brasil?

A integração se dá por meio dos coordenadores de ideias e projetos dos três estados, que se falam quinzenalmente; além de um acampamento nacional anual, no mês de julho. Em 2013,  por ser o ano do centenário, teremos um seminário continental em novembro, e uma acampamento nacional, em dezembro.

O grupo continua enviando membros a Israel?

Uma das bases ideológicas do Hashomer é o sionismo, que preza o fluxo de jovens para Israel, seja para programas como o Shnat Hachshará [intercâmbio de um ano em Israel] ou a imigração propriamente dita.  Em 2013, o Brasil conta com dois representantes em Israel; em 2014, a expectativa é que pelo menos 20 jovens do movimento experimentem a vivência em comuna [moradia urbana coletiva] e em kibutz, e aprendam hebraico.

Quais são os próximos projetos do Hashomer Hatzair?

Temos projetos na área educativa e de ativismo social. Acreditamos que os seres humanos são livres e criativos, que merecem viver em uma sociedade que os permita se desenvolver ao seu potencial máximo. Os valores centrais são a igualdade social, econômica e política e a justiça.


Mordechai Anielewicz, junto amembros do Hashomer Hatzair, Polônia, 1937. Foto: Divulgação.

Integrantes do Hashomer Hatzair (à direita) junto a um time de futebol, Polônia, 1925. Foto: Jewishgen.