“Não (só) em nosso nome”

Quando, em 2005, a ONU instituiu o 27 de janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, o objetivo era aumentar o conhecimento sobre o extermínio de 6 milhões de judeus pela Alemanha nazista e, assim, ajudar a conter e prevenir o antissemitismo e outras formas de ódio e preconceito.

Mais recentemente, porém, o ódio contra minorias vem se espalhando pelo mundo, muito em função das novas e potentes tecnologias de informação, que dão voz e força a grupos antes relegados às margens das sociedades modernas.

As comunidades judaicas, da forma mais dura, acumularam enorme know-how sobre o enfrentamento a esse ódio. Desde a dispersão, tornaram-se minoria por todo o mundo. Foi um curso milenar de resistência ao ódio, às fake news e a ataques letais, com perdas irreparáveis.

O que aprendemos nesses séculos é que as perseguições e catástrofes desse tipo são precedidas por sinais aos quais nem sempre se dá o valor necessário e que vão se avolumando até se tornarem atos violentos –por vezes em larga escala. Por isso, precisamos estar sempre atentos e vocais em relação a eles. Como agora. Porque o antissemitismo está em alta no mundo. Todos os índices que medem esse tipo de ocorrência, nos EUA e na Europa, atestam isso.

O atentado a uma sinagoga de Pittsburgh em outubro de 2018, que deixou 11 mortos, foi perpetrado por um extremista, que pouco antes havia postado, em uma rede social, que judeus estavam ajudando as caravanas de imigrantes rumo aos EUA. Um ano antes, em Charlottesville, grupos de extrema direita marcharam com tochas, emulando marchas nazistas e gritando contra judeus e outras minorias. O presidente Donald Trump reagiu de forma ambígua.

Na Europa, os coletes amarelos, unindo a extrema esquerda à extrema direita, já entoam slogans antijudaicos como palavras de ordem. E pesquisa recente da CNN na Europa mostra a resistência de estereótipos antissemitas: cerca de 25% acreditam que os judeus têm influência demais nos negócios, na imprensa, na política e nas guerras pelo mundo, enquanto um terço diz saber nada ou quase nada sobre o Holocausto.

E há ainda a injusta campanha de deslegitimação contra Israel, que concentra metade da população judaica mundial. A crítica a determinadas políticas de um governo se converte, rapidamente, em tentativa de boicotes e de negação ao direito à existência nacional judaica.

No Brasil, felizmente as manifestações antissemitas ainda são raras e de pouca expressão. Após grande esforço — da Conib e de outros setores –, o ensino do Holocausto finalmente entrou no currículo das escolas brasileiras. Neste ano, nos atos em memória do Holocausto em várias cidades brasileiras, serão homenageados os pracinhas da FEB, que há 75 anos desembarcavam na Itália, entre os quais cerca de 50 integrantes da comunidade judaica brasileira, que correram duplo perigo ao lutar contra o nazifascismo.

É preciso estar sempre alerta e denunciar o preconceito, onde ele estiver e contra quem se manifestar. Se não lembrarmos o Holocausto, corremos os riscos do esquecimento e do revisionismo. Por isso, insistimos.

Não o fazemos apenas em nosso nome e de nossos antepassados, mas em nome de um mundo melhor, com menos ódio, mais moderação e mais respeito.

Fernando Lottenberg (Presidente da Conib – Confederação Israelita do Brasil – e advogado)