No Dia do Holocausto, Lottenberg exalta bravura dos sobreviventes e solidariedade judaica aos necessitados

Leia abaixo o discurso proferido pelo presidente da Conib, Claudio Lottenberg, na cerimônia do Dia do Holocausto:


Claudio Lottenberg, na cerimônia do Dia do Holocausto, em São Paulo. Foto: Eliana Assumpção.

"Hoje, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, é o dia em que pudemos, finalmente, ver de novo uma pequena fresta de sol, quase 70 anos atrás.

Em 27 de janeiro de 1945, tropas soviéticas entraram naquele que se tornou o maior símbolo da barbárie, da matança em escala industrial: o infame campo de extermínio de Auschwitz.  A humanidade ficou então cara a cara com um dos capítulos mais nefastos de sua história, um episódio sem precedentes em sua capacidade vil de mesclar ódio e assassinatos em massa.  Foram anos de chacinas, perseguições e matanças do meu povo, o povo judeu. Entretanto, não só este povo foi perseguido. Por isso, esta data também nos permite preservar os valores e o direito à vida dos negros, homossexuais, ciganos e pessoas com necessidades especiais.

É importante recordar, na presença de autoridades brasileiras que participaram do processo de reconstrução da democracia, que o nazismo perseguiu e aniquilou adversários políticos, enterrando brutalmente suas ideias.

Senhoras e senhores,

Estamos diante de uma tragédia que provocou impacto indelével em nossas vidas. Foram nossos pais, avós, nossas famílias que sofreram os horrores do Holocausto. Poucos sobreviveram. E, temos hoje o privilégio de estarmos, nesta solenidade, com alguns destes sobreviventes, exemplo de vida, de bravura, de resiliência. E exemplo de fé e de comprometimento com a continuidade dos valores judaicos. Dos valores da ética, da educação, da cultura, da religiosidade, que marcam nossa milenar tradição.  Nós, seus descendentes, temos motivos de sobra para nos orgulharmos deles. De olharmos em seus olhos e prometermos envidar todos nossos esforços, canalizar todas as nossas energias, para que o mundo não permita mais genocídios, matanças, assassinatos em massa. Para que o mundo não permita que se repitam também episódios que nos envergonham, como as tragédias de Ruanda e Darfur, ambas no coração do continente africano.

Aliás, queremos lembrar que, em 2014, se completam duas décadas de um capítulo responsável por demonstrar nossa imperdoável fragilidade enquanto comunidade internacional. Fomos incapazes de deter um genocídio que ceifou a vida de mais de 800 mil, em Ruanda. Quero registrar aqui nossa solidariedade e nosso compromisso em auxiliar nossos irmãos africanos em superar seus problemas. A comunidade judaica brasileira, presidente Temer, já estendeu sua mão, na ajuda e na solidariedade, a países como Guiné Bissau, para onde pessoalmente estarei indo no próximo mês, a pedido do Nobel da Paz Ramos Horta, repetindo o que fizemos em nome da nossa comunidade e do Brasil, junto às vitimas do terremoto que devastou o Haiti, poucos anos atrás.

Quem sabe por isso, pelo espirito de solidariedade desta comunidade, é que gostaria de registrar meu agradecimento e admiração por todas as iniciativas sociais de nossa comunidade – cujos representantes e dirigentes se encontram aqui conosco, voltadas à sociedade brasileira.

E temos orgulho de reafirmar as iniciativas baseadas no preceito judaico de “tikkun olam”, que sustenta a visão por um mundo melhor, de ações voltadas a ultrapassar as fronteiras de nossos próprios interesses  e contribuir, de forma sustentável e significativa, por um Brasil melhor e por um mundo melhor. Um mundo que tem no Brasil um exemplo de inspiração, país que recebeu a todos nós, imigrantes que somos, de mais de 500 anos, como bem sabe o nosso governador Geraldo Alckmin.

Falar em um mundo melhor significa manter-se permanentemente vigilante em relação às múltiplas ameaças que rondam nossas sociedades. Gostaria de aproveitar este momento tão especial para mencionar uma questão que há tempos me preocupa, como ser humano e como médico: a eugenia.

O termo eugenia não é algo que se restrinja ao momento histórico hoje recordado. A eugenia tem suas bases no contexto de preconceito racial dos anos 1930. Chegou a contaminar a política de Estado brasileira, como se viu durante a ditadura do Estado Novo, quando a emissão de vistos, conforme provaram historiadores, se baseava essencialmente em critérios raciais. Em tempos mais recentes, este tema foi também aqui aprofundado em nossa Suprema Corte e recebeu por parte do professor Celso Lafer um verdadeiro tratado esclarecedor, buscando impedir que o sentimento de ódio racial pudesse ganhar espaço na pujante sociedade brasileira.

A eugenia não ficou relegada aos livros de história. Ainda traz perigos a um mundo que cada vez mais discute e encontra na genética caminhos para a melhora da qualidade de vida. A genética pode ser usada como orientação, mas no momento em que se apropria do direito de selecionar seres humanos, os riscos de um Holocausto retornam silenciosamente. Por isso, momentos como a data de hoje servem para avisar os menos avisados de que, nos atalhos para a compreensão de uma sociedade melhor, ainda existem caminhos para maquiar o sentimento da intolerância. Portanto, minhas senhoras e meus senhores, é um engano desqualificar o Holocausto como algo do passado e que deva ser esquecido. O Holocausto é presente, o é tema da vida atual e se mescla de forma discreta com rótulos que podem desencadear novos movimentos de intolerância.

O rastreamento da historia nos permite ir além do horizonte da Alemanha nazista. Recordar o passado é tirar dele o melhor, em prol do conhecimento. Negacionistas, desconhecendo a história, ou propositadamente querendo ocultá-la, utilizam-na  com interesses destrutivos. Na Europa, os judeus contribuíram nas universidades, na musica clássica, na medicina, no direito, nos negócios e, na Alemanha até serviram as Forças Armadas. O Holocausto foi a demonstração de um sentimento antissemita, abusivo, sem escrúpulos e cruel. E, se foi assim, o que permitiu que os fatos se encaminhassem de forma tão radical? Aqui, me preocupa o sentimento encoberto, disfarçado, que permite o surgimento de ideias absurdas e inaceitáveis, que fogem do controle da comunidade internacional.

Em um clima de guerra, não é fácil entender o contexto. Nada melhor que o palpável bode expiatório da questão judaica, usado pelo nazismo, para suas ambições racistas, totalitárias e extremistas. Mas isto não irá se repetir. Estamos alertas e mobilizados. Aqui no Brasil, nossos presidentes têm sido muito fieis ao compromisso da democracia e ao respeito às minorias. 

Como presidente da Confederação Israelita do Brasil, tenho a obrigação de lutar contra os negadores do Holocausto e os intolerantes maquiada por um sentimento de igualdade e respeito. Faço isto, não apenas para o judaísmo, mas porque vejo nesta luta as raízes que contribuem para a democracia, a liberdade de expressão, o respeito ao próximo e, no limite, a ética dentro do contexto de Weber que coloca o próximo como objeto de nossos movimentos.

Como líder de uma comunidade que aqui vive intensamente, tenho o dever moral de me alinhar aos que preservam este ideário em nosso país, muitos deles hoje aqui presentes. O presidente Michel Temer, de família libanesa, um dos maiores conhecedores de direito constitucional deste país, sabe muito bem que as leis servem de suporte para a democracia, mas sabe também que na legitimidade das atitudes e mesmo no limite da legalidade, existe um limbo para o qual a atenção da sociedade civil deve estar permanente atenta, para evitar atos de intolerância.

Senhoras e senhores,

A originalidade do pensamento de Martin Buber, que nasceu na Áustria e emigrou para Israel, influenciou profundamente a filosofia ocidental do ultimo século, indo além das fronteiras da comunidade judaica, onde foi gestado. Nas suas análises sobre as relações vivenciadas pelo homem, Buber defende que suas atitudes em sua relação ao mundo apresentam uma dualidade. Em sua ótica, as relações humanas são caracterizadas pela princípio Eu-Tu, e as relações nas quais o outro é considerado objeto, pelo binômio Eu-Isso. É obvio que no Eu-Tu, as relações não podem acontecer somente pelo acordo entre nós e nossos próprios princípios. Hpa aqui uma aproximando com a ética de Weber, no resgate do que Buber  chamou de Eclipse de Deus. Esta ocultação, passageira, também não está sob nosso controle, mas na clareza da relação entre todos os homens, crédulos e incrédulos, crentes em Deus e ateus, de que não há como aceitar o sentimento da indiferença.

O que é a indiferença? Etimologicamente, a palavra significa que não há diferença. Um estado estranho e pouco natural, no qual as linhas entre a luz e a obscuridade, o amanhecer e o anoitecer, o crime e o castigo, a crueldade e a compaixão, o bem e o mal se fundem.

E quais sãos as consequências da indiferença? Seria ela uma filosofia de vida e de comportamento humano? Pode ser entendida como uma virtude? Podemos nos acomodar com um bom prato de comida e vida boa enquanto o mundo ao nosso redor passa por uma terrível experiência?

A indiferença pode ser tentadora e sedutora, mas não ao ponto de nos afastarmos dos problemas. E aqui o exercício da vida pública nos é muito próximo presente. Na tendência do que mencionei sobre Buber, temos que assumir que o binômio Eu-tu é fundamental, para que tenhamos uma sociedade com equidade.

Possivelmente, cidadãos como o Presidente Temer e o Governador Alckmin poderiam, no contexto de seus interesses pessoais, legítimos e de direito, abrir mão de suas responsabilidades coletivas e restringirem suas preocupações a questões de caráter pessoal.

Quem sabe, nosso país seja afortunado. Aqui vivem pessoas das mais diferentes origens, e paira um espírito de harmonia e um senso de justiça como em poucas partes do mundo.

Gostaríamos, nesse contexto, de lamentar a sobrevivência de líderes políticos empenhados mais na destruição do que na construção. Lamentar a sobrevivência de políticas que sustentem líderes que ousam, num desafio à comunidade internacional, pregar a destruição do Estado de Israel, país que desde a sua criação pela ONU, em 1948, jamais teve um dia sequer de paz. Jamais teve um dia sequer sem enfrentar ameaças de destruição batendo à sua porta.

Presidente Temer, Governador Alckmin:

Tive o privilegio de visitar o Estado Judeu de Israel com ambos. Convivo com vossas excelências há muitos anos. Dentro desta perspectiva, tomo a liberdade de lhes confidencial algo em que acredito que de forma muito transparente:

O antissemitismo nos tempos mais remotos assumiu caráter religioso. As inquisições e as perseguições da Península Ibérica queimavam vivos os nossos irmãos, em nome de sua fé religiosa.

No Holocausto, este antissemitismo ressurgiu, agora não mais no sentido religioso, mas transvertido pelo caráter racial. Hoje, ele é exposto nas agressões ao Estado de Israel, como anti-israelismo e antissionismo.

Nossos inimigos se referem a nós dizendo “não temos nada contra vocês, o nosso problema é contra o Estado de Israel “.

Pois saibam, minhas senhoras e meus senhores, este tipo de assertiva é entendido por todos nós judeus como uma provocação de caráter antissemita. Não pensem que concordamos com tudo que ocorre em Israel, temos nossos pontos críticos, mas quem ofende o Estado judeu ofende a mim e a todos os judeus brasileiros

Quando falamos de líderes que pregam a destruição, estamos falando, por exemplo, do regime iraniano que, desde sua implantação, em 1979, defende a destruição de um país, Israel, criado por uma votação nas Nações Unidas, em assembleia presidida por um brasileiro como nós, o diplomata Oswaldo Aranha. A atuação de Aranha naquele momento histórico nos enche de orgulho e demonstra o compromisso histórico que o Brasil ostenta com a existência de um Estado judeu, um Estado palestino e com um Oriente Médio em paz e harmonia. Um Oriente Médio em que sejam garantidas a segurança e o direito à vida de todas as populações da região.

Senhoras e senhores,

Temos nesta noite, entre nós, brasileiros que lutaram, colocaram suas vidas em risco, para garantir a nós, à comunidade internacional, o direito de viver em segurança e em paz. Ao contemplar a figura de nossos pracinhas, não encontro palavras capazes de descrever nosso sentimento de admiração e de gratidão. Ao contemplar as faces dos sobreviventes do Holocausto, não encontro palavras para descrever nosso sentimento de admiração e de gratidão. Vocês, sobreviventes, representam nossa história e, sobretudo, o nosso futuro. Como presidente da comunidade judaica, como cidadão brasileiro, como judeu, como homem ligado cultural e religiosamente ao Estado de Israel, reafirmo, perante a vocês, o meu compromisso de jamais esmorecer na luta pelo direito à vida, na luta pela democracia, na luta pela paz.

Muito obrigado!"