USP prepara arquivo digital que revela postura anti-semita do Brasil no Holocausto
O Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, vinculado à USP, planeja lançar até julho um banco de dados na internet com documentos sobre o Holocausto do ponto de vista brasileiro. Segundo os pesquisadores, os documentos revelam uma postura anti-semita do Brasil durante o período. Os dados foram coletados em fontes como o Arquivo do Itamaraty, a Biblioteca Nacional, o Fundo Dops, além de dados retirados de bibliotecas de Portugal, França, Itália, Alemanha, Estados Unidos e Israel. De acordo com a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do projeto, apenas no arquivo do Itamaraty foram coletados mais de 10 mil documentos, que desde dezembro estão sendo digitalizados. Segundo a pesquisadora, que iniciou a coleta desse material em 1984, a intenção é permitir que os internautas conheçam melhor a posição brasileira diante do Holocausto, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-45) e de Eurico Gaspar Dutra (1946-51). Os arquivos mostram que o governo Brasileiro negou vistos de entrada a muitos judeus apátridas de diversas nacionalidades que tentavam fugir da Europa. A pesquisadora afirma também que o Brasil preparou diversos dossiês com conteúdo anti-semita, alguns deles inclusive de autoria de ministros. Eles pedem "medidas repressivas" contra a entrada de judeus no país. Há também documentos emitidos por diplomatas brasileiros no exterior, que detalham o cotidiano de cidades como Berlim e Hamburgo durante a vigência do regime Nazista, nas décadas de 30 e 40.

Facilidade de acesso - "Estas informações já estão em domínio público, mas as pessoas desconhecem a posição do Brasil diante desse assunto. Queremos também ressaltar o papel de vários diplomatas brasileiros que ajudaram a salvar judeus, acionaram associações e conseguiram trazer muitos para o Brasil. A idéia é fazer uma galeria dos 'justos", afirma Tucci. Na página também estarão disponíveis vídeos com depoimentos de sobreviventes do holocausto e também dois novos documentários produzidos pela TV USP. A idéia é também localizar, registrar e entrevistar os sobreviventes dos campos de concentração e os refugiados radicados no Brasil. O site será colaborativo. Ou seja, os internautas que tiverem fotos de arquivo ou documentos pessoais sobre o assunto poderão enviá-las para o Leer. Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail leer@usp.br. O portal ficará hospedado no site do Leer e deve estar disponível a partir de julho deste ano. A proposta é que em um prazo de dois anos o site esteja completo. Para o projeto, o instituto recebeu financiamento inicial da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), mas está em busca de outros patrocinadores.

fonte: Folha de S.Paulo