O Bayern Munique e seu presidente judeu

Difícil imaginar onde o mais poderoso clube alemão estaria hoje sem Kurt Landauer. O bancário judeu que sobreviveu à Primeira Guerra e ao campo de concentração ajudou a moldar a vitoriosa história do time de Munique.

“O Bayern era a sua vida – nada e ninguém foi capaz de mudar isto”. Em setembro de 2009 as torcidas organizadas Schikeria e Club Nr. 12 do Bayern Munique estenderam uma faixa gigante nas arquibancadas da Allianz Arena com estes dizeres.  Era uma homenagem ao seu lendário presidente judeu Kurt Landauer, que, com algumas interrupções, influenciou os destinos do clube bávaro por mais de quatro décadas.

O banner e a impressionante coreografia da torcida acabaram dando origem à ideia de se produzir um filme sobre o dirigente. O canal ARD encampou o projeto e, em 2014, 130 anos depois do seu nascimento, o filme Landauer – o homem que inventou o Bayern Munique estreava na televisão.

Ainda adolescente, Landauer se apaixonou pelo futebol e pelo Bayern Munique. No começo do século passado, jogar futebol era considerado “coisa de pobre”. Mas o jovem Kurt não estava nem aí e, aos 17 anos, vestiu pela primeira vez a camisa do seu clube. Jogava no gol, mas logo percebeu que não levava muito jeito.

Passou então a exercer funções administrativas, já que possuía uma formação profissional como bancário. Em 1913, aos 29 anos, acabou se tornando presidente do Bayern, mas por pouco tempo.

Em 1914 estourava a Primeira Guerra Mundial, e ele foi para a frente de batalha, assim como outros tantos milhares de judeus alemães. Na sua volta, em 1919, foi eleito novamente presidente do clube.

Os 14 anos subsequentes iriam representar a primeira época de ouro do Bayern. Visionário, Landauer criou um departamento para descobrir e incentivar jovens talentos. Naqueles tempos, mais de 500 jovens treinavam e jogavam regularmente nas mais diversas categorias do clube.

Os frutos deste trabalho não demoraram a chegar. Em 1926 e 1928 o Bayern foi campeão do Sul da Alemanha e chegou à final do campeonato alemão em três oportunidades (1926, 1928 e 1929).

O auge foi em 1932, quando os bávaros conquistaram pela primeira vez na sua história o título de campeão alemão ao derrotar o Eintracht Frankfurt por 2 a 0. Kurt Landauer estava feliz porque viu seus esforços serem coroados de pleno êxito.

Sua felicidade, porém, iria durar pouco. Um ano depois, os nazistas, com Adolf Hitler à frente, assumiram o poder. Com a instauração da ditadura, veio a nazificação que impregnou todas as esferas da sociedade alemã, inclusive o esporte e, especificamente, os clubes de futebol.

Landauer foi obrigado a se demitir do cargo de presidente do Bayern. Em 1938 foi preso e levado para o campo de concentração de Dachau, onde ficou por dois meses.  Após sua temporária liberação pelas autoridades nazistas, conseguiu fugir para a Suíça. Suas três irmãs foram assassinadas.

Voltou à Alemanha tão somente em 1947, onde novamente assumiu a presidência do Bayern, exercendo o cargo até 1951.

Naquela época, os aliados estavam empenhados em desnazificar as instituições alemãs, inclusive os clubes de futebol. Havia razões suficientes para tanto: o papel dos clubes de futebol durante a ditadura nazista foi nefasto. Todos os clubes passaram por auditorias para determinar o seu papel, a serviço ou não, do regime nazista. A própria Federação Alemã de Futebol foi um instrumento fácil e se deixou manipular pela máquina de propaganda ideológica montada por Hitler, Goebbels e asseclas.

Um dos primeiros clubes a voltar a funcionar normalmente foi justamente o Bayern Munique, que, além de ter tido um presidente judeu de 1919 a 1933, não se submeteu à “nazificação” dos seus quadros e resistiu o quanto pôde até 1943.