“Para entender a crise entre Israel e o Hezbollah”

Israel e o Hezbollah têm um conflito regido por uma espécie de regras de um jogo no qual os dois lados evitam atritos que possam levar a uma escalada militar na fronteira entre os territórios libaneses e israelenses. Ao longo dos últimos 13 anos, este acerto não oficial tem impedido um confronto armado como o de 2006. Os dois lados sabem que os danos seriam gigantescos em caso de uma guerra. Seria a teoria da mútua destruição assegurada, onde o equilíbrio sem guerra é o melhor cenário. Mas, obviamente, o cenário no Oriente Médio é fluído e, em alguns momentos, a equação pode mudar.

Ao longo desta década, o conflito entre Israel e o Hezbollah, ao lado dos seus aliados iranianos, se ampliou também para o território sírio. As regras do jogo, claro, são distintas na Síria por alguns motivos. Primeiro, pelo lado do Hezbollah, não há população associada ao grupo como no Líbano. Ataques israelenses não destruirão as cidades e vilas onde os militantes da organização vivem com as suas famílias. Ações israelenses, portanto, são toleradas pelo grupo. Em segundo lugar, o Hezbollah e o Irã são aliados de Assad e da Rússia no combate a grupos armados jihadistas da oposição e também ao Estado Islâmico. Ao mesmo tempo, porém, enfrentam resistência do regime de Bashar al-Assad e de Moscou para criar uma nova frente contra os israelenses contra o território sírio. Israel, por sua vez, considera inaceitável a criação desta nova frente síria, já que afetaria o equilíbrio porque o Hezbollah naturalmente teria mais força podendo atuar a partir da Síria, além do Líbano.

As ações de Israel na semana passada estariam dentro deste contexto de evitar uma nova frente e impedir a alteração das regras do jogo. Há ainda um segundo fator que tem afetado o cálculo israelense. No caso, envolve o Irã, mas não necessariamente o Hezbollah. O regime de Teerã tem intensificado o fortalecimento de milícias iraquianas pró-Irã que tem sido usadas em ações para instabilidade no Golfo Pérsico. O objetivo iraniano é aumentar seu poder de barganha para uma possível negociação de um novo acordo nuclear com Trump. Seria dentro do contexto mais amplo de conflito entre uma aliança de Israel, EUA e Arábia Saudita contra os iranianos e seus aliados não governamentais da região, como o Hezbollah e as milícias iraquianas.

Donald Trump mantém relutância em envolver os EUA em ações militares contra o Irã. O presidente dos EUA, no entanto, não vê problemas em Israel agir na região. Portanto, além de atacar a Síria e o Líbano com foco no Hezbollah, no mesmo dia, os israelenses alvejaram também o Iraque contra as outras milícias pró-Irã. Seria um benefício indireto a Washington, que não precisaria bater de frente com seus aliados no governo em Bagdá, que também mantém aliança com os iranianos.

O Hezbollah e o Irã, diante destas ações israelenses, avaliaram que precisavam dar alguma resposta para não se mostrarem fracos. Esta resposta precisava ser suficiente para mostrar que “fizeram algo”, mas insuficiente para gerar uma escalada e provocar uma guerra contra Israel. Basicamente, atacar veículos militares israelenses sem causar baixas civis seria o mais adequado na visão de Teerã e do grupo xiita libanês. Também sabiam que Israel responderia a esta ação de forma calculada e restrita para impedir o acirramento da tensão. Foi o que aconteceu e, por este motivo, o atrito não se transformou em guerra. Todos os atores envolvidos agiram racionalmente e dentro das regras do jogo.

Vale também levar em consideração os contextos domésticos de Israel e Líbano. Benjamin Netanyahu enfrenta eleições em pouco mais de duas semanas. As ações israelenses para frear a expansão do Hezbollah pela Síria e seu fortalecimento no Líbano são positivas para o premier que tem como rival um experiente ex-comandante militar. Mais importante, o primeiro-ministro conseguiu realizar toda esta operação sem colocar vidas israelenses em risco.

No lado libanês, a economia enfrenta problemas e uma guerra seria devastadora para o país. O Hezbollah sabe disso e sabe dos riscos. Mais importante, outros atores libaneses também agiram para amenizar a tensão. Saad Hariri, primeiro-ministro e maior líder político sunita libanês, deixou de lado sua rivalidade com o Hezbollah e usou seus excelentes relacionamentos com os governos de Trump e de Macron para convencerem Israel a não escalar a tensão. Em troca, pediu ao presidente do Líbano, Michel Aoun, maior líder político cristão do país e aliado do Hezbollah, para conter o grupo xiita. Contou ainda com a ajuda de Nabi Berri, presidente do Parlamento libanês e líder da Amal, um grupo e maioria xiita mais laico e próximo ao Hezbollah.

Desta vez, portanto, a escalada em direção ao conflito foi impedida. Ainda assim, não podemos descartar uma guerra aberta no futuro. O equilíbrio entre israelenses e o Hezbollah é frágil e depende bastante do contexto externo. Apenas um novo acordo entre os EUA e o Irã afastaria a possibilidade de um conflito. Os americanos atuariam para segurar Israel e o regime de Teerã para segurar o Hezbollah.