Política do Oriente Médio invade a cozinha em filme de diretor brasileiro

Quando o diretor Fernando Grostein Andrade ganhou seu primeiro sobrinho, Joaquim, ouviu do irmão Luciano Huck o pedido para fazer um filme sobre história das festas judaicas. A ideia não empolgou, mas fez Fernando abrir a cabeça para o tema da religião, ainda que se considere mais ateu ou agnóstico do que propriamente judeu praticante.

Treze anos depois, o resultado é seu segundo filme de ficção, a comédia dramática “Abe”, exibido no domingo no festival de cinema independente Sundance, na cidade de resorts de esqui Park City, em Utah (EUA).

O protagonista é Abe, um menino de 12 anos que ama cozinhar e postar suas criações online. Solitário, ele acaba quase sempre na linha de fogo das brigas da família, formada pelo pai ateu, a mãe judia e os avós muçulmanos e judeus. “É livremente inspirado na minha vida, mas nunca tive pressão para decidir ser de um lado ou outro”, contou o diretor de 37 anos, cujo pai tinha formação católica e a mãe é judia. “Ainda assim, tinha uma confusão na minha cabeça de quem eu era”, continuou, numa entrevista num café de Los Angeles antes de embarcar para o festival.

Na casa de Fernando também não tinham brigas como na casa de Abe. Seus pais passavam as festas de fim de ano reunidos com os filhos e ex-parceiros de casamentos anteriores. “Fiquei então imaginando, e se não fosse bem assim?”. O filme é brasileiro, produção da Spray e Gullane Filmes, e foi rodado em inglês no Brooklyn, em Nova York. No papel principal está o ator americano Noah Schnapp, mais conhecido como Will da série “Stranger Things”.

Como mentor gastronômico de Abe, além de refúgio das angústias religiosas, está o chef brasileiro Chico Catuaba (Seu Jorge), que tem uma cozinha no bairro nova-iorquino e prepara uma série de quitutes brasileiros, como acarajé e dadinhos de tapioca. “É uma fusão apetitosa de influências diversas”, escreveu o crítico Justin Lowe, do site “The Hollywood Reporter”. “Arrastar a política do Oriente Médio para uma casa no Brooklyn pode parecer algo planejado demais, mas Andrade faz isso funcionar entrelaçando valores culturais conflitantes no contexto da experiência de imigrantes americanos, com Abe assumindo a responsabilidade principal de assimilar sua herança complexa.”

Encorajado pelo chef brasileiro, Abe tenta fazer da comida uma ponte para unir a família briguenta, preparando um grande jantar com receitas judaicas e árabes. A tela se enche de sabores e cores, embora o espectador desconfie que não será uma tarefa simples. Na casa de Abe, um simples homus vira discórdia geopolítica. O filme tampouco procura uma saída fácil (Fernanda Ezabella, Folha de S.Paulo).