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A falsificação dos mapas Israel-Palestina. Leia análise da Conib, que abrange 2.000 anos

08 Abr 2016 | 15:51
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Em busca da “Palestina histórica”

No ano 135 da Era Comum, o imperador romano Adriano decidiu trocar o nome da revoltosa província da Judeia para Palestina. A região permaneceu sob controle romano por cerca de 500 anos. Nela, viviam cristãos, judeus, samaritanos e pagãos. Após a derrota do Império Romano do Oriente (Bizantino) para os árabes, no ano 635, a unidade política foi perdida, e o termo Palestina designou, por séculos, uma região geográfica dominada por diversos impérios, voltando a configurar uma entidade política somente no início do século 20.

A propaganda anti-Israel tem prazer em fazer referência à “Palestina histórica”, dando a entender que os palestinos de hoje sempre estiveram lá. Mas nunca refletiu a respeito do que o termo poderia significar – é possível falar em uma “Palestina histórica”? Por outro lado, a propaganda manipula, omite e falsifica os mapas da região no século 20, para dar a entender que o ‘malvado” Israel abocanha cada vez mais o que os propagandistas consideram território palestino, até que não reste mais nada...

Esse é o conjunto de “mapas” usado pela propaganda para “embasar” seus ataques a Israel.


Antes de esmiuçar cada um deles abordaremos, para mostrar a dimensão da falsificação, a situação política da região geográfica chamada Palestina durante as principais trocas de poder nos últimos 2.000 anos, começando pela Judeia, passando pelo Império Romano até chegar à Primeira Guerra Mundial, sempre em busca da “Palestina histórica”.

TEMAS ABORDADOS

Você também pode fazer a leitura indo direto para cada um dos temas abaixo:

Primeira Guerra Mundial: o final do Império Otomano;

Uma viagem de 2.000 anos em busca da "Palestina histórica";

1917: Palestina, após 1.300 anos;

Século 20: o nacionalismo palestino;

1920: o Lar Nacional Judaico;

Os mapas falsificados.

O miito da Nakba.


O final do Império Otomano

Vejamos o que acontecia pouco antes de a Palestina voltar ao mapa político:

Em 1914, às vésperas de grandes mudanças, a região ficava no Império Otomano, dentro da Província da Síria, a qual tinha cinco subprovíncias, nenhuma delas com nome “Palestina” (como se vê nos mapas abaixo). É interessante notar que, já no Império Otomano, os donos da maior parte das terras da região, para a qual judeus europeus começaram a emigrar no final do século 19, viviam em Beirute ou Damasco. E eles venderam terras para os judeus.

O mapa abaixo mostra o Império Otomano em 1914.


Império Otomano em 1914.

 

O mapa abaixo mostra, dentro do Império Otomano, a Província da Síria e suas cinco subprovíncias. O “Estado palestino” não aparece:


Subprovíncias da Síria, no Império Otomano. 


Assim, não havia  nenhuma unidade política denominada Palestina - muito menos um Estado palestino-, quando os ingleses passaram a dominar a região, em 1917.


Túnel do tempo

Entraremos agora no túnel do tempo para examinar quando houve uma unidade política chamada Palestina na região. Voltamos às província romana da Judeia, no século I da Era Comum. No ano 70, os romanos destruíram o Segundo Templo em Jerusalém. Os líderes judeus foram exilados, escravizados ou mortos. Muitos judeus morreram de fome.


Província romana da Judeia, século 1 da Era Comum.

 


Moeda da série intitulada "Judea Capta". Foto: Wikipédia.


A moeda acima foi emitida pelo imperador romano Vespasiano para comemorar a captura da Judeia e da destruição do Segundo Templo por seu filho Tito, no ano 70 da Era Comum.

Décadas mais tarde, depois que o imperador Adriano quebrou sua promessa de reconstruir Jerusalém e o Templo, aconteceu a última revolta judaica, a de Bar Kochba, no ano 135 da Era Comum.

Para punir os judeus, Adriano decidiu então reconstruir, sobre os destroços de Jerusalém, uma cidade romana, com características pagãs e rebatizar a Judeia com o nome “Palestina”, referente à região litorânea da Filistia (ver mapa acima), terra dos filisteus, povo bíblica de origem grega.

A moeda traz um efeito histórico colateral, que não pode ser esquecido: Jesus, morto no ano 33, não era palestino (ao contrário do que diz a propaganda).

O mapa da Palestina romana (abaixo) passou a vigorar após o ano 135:

 


Província romana da Palestina, após “canetada” de Adriano (ou melhor, “penada”), em 135 da Era Comum.


A conquista árabe

No século 5, já sob o Império Romano do Oriente (Império Bizantino), havia duas Palestinas, ambas cristãs (veja mapa abaixo). As duas dioceses tornaram-se um centro do cristianismo, enquanto mantinham significativas comunidades judaicas e samaritanas. Algumas áreas, como Gaza, eram conhecidos redutos pagãos, em que deuses como Dagon eram cultivados havia milhares de anos. Não havia árabes.


Palestina no Império Romano do Oriente (século 5 da Era Comum). Fonte: Wikipédia.

Por volta do ano 635 da Era Comum, os árabes conquistaram a região (veja no mapa abaixo a sequência das batalhas):



​Batalhas entre romanos e árabes. Fonte: Wikipédia.


Sob domínio árabe, a região foi dividida em distritos militares, um deles de nome Filastin. O nome se referia a uma pequena parte da região, localizada na costa sul (veja acima, no mapa da Judeia). Este não é um nome de origem árabe, mas uma adaptação do nome latino, tomado dos filisteus, povo etnicamente próximo dos gregos que vivia justamente na região costeira na época bíblica. Epifanius, um dos autores da Igreja antiga, escreveu, por volta do ano 400: “A semente de Abrahão está espalhada pela Terra de Canaã, ou seja, na terra judaica Ioudaia [Judeia] e na terra dos filisteus, que é agora conhecida como Philistiaia [Palestina]”. Ver “A History of Palestine(634-1099)”, de Moshe Gil].

Note-se que os árabes só chegariam à região 200 anos depois. Assim, ao conquistarem-na, os árabes mantiveram o nome romano/bizantino para designar um de seus distritos militares, sem que houvesse antes “palestinos” ali. Os judeus da época sabiam que o nome Filastin se referia à “Terra dos Filisteus”, como aparece em carta do século 11. [ver “A History of Palestine (634-1099)”, de Moshe Gil].

Quanto ao nome “Jerusalém”, as primeiras gerações de árabes chamavam-na de Iliya, referência ao nome romano, Aelia Capitolina. Somente a partir do século 11, o nome Al-Quds passou a ser usado. O nome Ierushalaim também aparece em documentos árabes da época. [ver também “A History of Palestine (634-1099)”, de Moshe Gil].


Expansão árabe

O mapa abaixo mostra a expansão árabe no século 7, de Maomé até os Umíadas. Note-se que não há mais, sob os árabes muçulmanos, uma unidade política chamada Palestina, como havia sob domínio romano/cristão.


Expansão árabe no século 7.

 

Os Cruzados tomam Jerusalém, no século 12

Mesmo após o estabelecimento de um reino cristão, a região não voltou a se chamar Palestina, mas Reino de Jerusalém. Veja no mapa abaixo:
 

Oriente Médio, em 1135 da Era Comum,  entre a Primeira e a Segunda Cruzadas


Os árabes retomam Jerusalém

Em 1187, a Dinastia dos Aiúbidas reconquistou Jerusalém, enquanto outras regiões próximas ainda eram mantidas pelos cruzados, mas a Palestina como unidade política continuou fora do mapa:

 


Dinastia dos Aiúbidas, final do século 12.

 

A expulsão dos cruzados

Por volta do ano 1300, os mamelucos conquistaram a região, expulsaram os cruzados de seus últimos redutos e a Palestina continuou sumida. Veja o mapa abaixo:

 


Império Mameluco (séculos 13 e 14).


A chegada dos otomanos

Até que, por volta de 1500 da Era Comum, os otomanos venceram os mamelucos e ocuparam a região – lá ficariam por mais de 400 anos. O mapa abaixo mostra a extensão do império estabelecido por Suleiman, o Magnífico, em 1580. Note-se que, desde a conquista árabe, a unidade política regional é a Síria [isso terá implicações importantes até meados do século 20, como veremos].
 


Império Otomano, em 1580.

 

Os otomanos permaneceram na região até 1917, como vimos (as unidades políticas do Império Otomano na região são mostradas nos mapas apresentados acima, no início desse texto).

Fica claro, portanto, que desde a derrota do Império Bizantino, em 635, quando não havia árabes na região, até a derrota do Império Otomano, em 1917 [por britânicos e franceses, entre outros], não houve na região uma unidade política denominada Palestina, que voltou a existir politicamente graças aos britânicos, como veremos abaixo, e não aos árabes.

Concluímos que as unidades políticas que existiram na região (Judeia e Palestina romana) não eram árabes.

Essa sucinta apresentação dos mapas é confirmada pela introdução do livro “The Claim of Dispossession: Jewish Land-Settlement and the Arabs, 1878-1948”, de Aryeh Avneri, que traduzimos abaixo:

A Palestina, uma terra localizada entre três continentes e de fronteiras com desertos, foi ao longo dos séculos uma arena de conflitos entre impérios e um imã para invasores e nômades. Depois que a nação de Israel perdeu sua independência, houve muitas expedições de conquista, cada uma das quais deixou uma camada de novos colonos na população. Também a conquista árabe, no ano 635, trouxe novos colonos, que impuseram a religião do Islã e a língua árabe a todos os habitantes.

Ao longo da história, houve muitas instâncias de conquista que levaram, por meio de um processo de absorção e assimilação, à formação de novas entidades nacionais. Se a conquista árabe tivesse levado à formação de uma nação árabe cristalizada – por menor que fosse em número de habitantes – teria sido difícil contradizer a alegação árabe de uma continuidade histórica na Palestina. Mas esse não foi o caso.

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A volta de uma entidade política chamada Palestina, após 1.300 anos

E a rejeição deste nome... pelos “palestinos”


O nome latino "Palestina" como identificação de uma entidade política, que deixou de existir após a conquista árabe, no ano de 635, ressurgiu apenas em 1917, quando o Reino Unido estabeleceu seu domínio sobre as ruínas do Império Otomano, após a Primeira Guerra Mundial. Um dos primeiros documentos em que o termo é citado é a Declaração Balfour, que trata do estabelecimento na Palestina de um “lar nacional para o povo judeu”. Consequência do uso do novo nome, sob o Mandato Britânico: todas as pessoas que passariam a viver ali seriam "palestinas", tanto judeus como árabes.

Mas, imagine só: quem não gostou do nome Palestina foram os árabes...

O primeiro Congresso das Associações Muçulmanos e Cristãos da área se reuniu em fevereiro de 1919, em Jerusalém para considerar o futuro do território outrora governado pelo Império Otomano, que se dissolveu após a Primeira Guerra Mundial. O Congresso declarou: "Consideramos a Palestina como parte da Síria árabe, da qual nunca se separou em nenhum momento. Estamos conectados com ela por laços nacionais, religiosas, linguísticos, morais, econômicas e geográficas". [ver “A History of the Israeli-Palestinian Conflict”, de Mark Tessler. nota da Conib: como vimos em muitos mapas acima, a Síria foi por séculos a unidade política da região].

Um congresso de árabes palestinos aconteceu em Damasco, em fevereiro de 1920, e defendeu fortemente uma unidade Pan-Síria. [ver “Greater Syria”, de Daniel Pipes]. O Príncipe Faisal, que negociava com os franceses o controle da Síria após a Primeira Guerra, era simpático à presença dos judeus, como veremos abaixo. Após o fracasso de Faisal em governar a Síria – ele “ganhou” como consolação o Iraque -, começou a surgir o nacionalismo palestino, liderado por radicais como o Mufti, que aumentou a violência no território do Mandato Britânico.

Mesmo com o crescimento deste nacionalismo, Auni Bey Abdul‐Hadi, secretário-geral do Alto Comissariado Árabe, disse à Comissão Peel, enviada pelos britânicos para analisar a disputa entre judeus e árabes na Palestina, em 1937:  "Não existe um país chamado Palestina. 'Palestina' é um termo inventado pelos sionistas. Não há Palestina na Bíblia. Nosso país foi durante séculos parte da Síria. O termo 'Palestina' nos é estranho. Foram os sionistas que o introduziram”. 

Pois é: em 1937 os árabes palestinos não tinham sequer ouvido falar da “Palestina histórica”. Será que ela foi inventada posteriormente por motivos políticos e/ou ideológicos e/ou de propaganda?

Em 14 de maio de 1947, o representante sírio na Assembleia Geral das Nações Unidas, El –Khouri, afirmou a mesma coisa: “Eu acho que a maioria de vocês, se não todos, sabem que a Palestina era uma província síria. Temos laços geográficos, históricos, religiosos e raciais. Não há qualquer distinção entre os palestinos e os sírios” [ver documento oficial da ONU].

Por outro lado  - e tornando risível a menção propagandística à “Palestina histórica”, os judeus adotaram o nome Palestina, enquanto o Estado de Israel não foi criado.   O jornal “Jerusalem Post” chamava-se “The Palestine Post” e comemorou a independência de Israel, em 1948, como mostra a imagem abaixo - o jornal só mudou de nome em 1952, mais uma amostra de que os judeus da Palestina se viam como palestinos; só após 1948, a Palestine Philharmonic Orchestra tornou-se Israel Philharmonic Orchestra. E veja que incrível: os judeus representaram a Palestina, jogando com a Estrela de David no peito, em amistosos de futebol contra a Austrália, em 1939 [documentado em vídeo britânico].



“The Palestine Post”, edição de 15 de maio de 1948, festeja a independência de Israel. Não, isso não é montagem.






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