Pronunciamento de Fernando Lottenberg na Convenção

Boa noite a todos

Colegas de diretoria da conib

Presidentes de federações e associações estaduais

Autoridades

Amigas e amigos da Conib

Esta não é uma noite de pessach, mas podemos nos perguntar: por que esta convenção anual é ainda mais especial que as outras? a resposta é porque, nesta edição, estamos celebrando 70 anos da Confederação Israelita do Brasil.

A Conib foi criada pouco depois do episódio mais terrível da história judaica moderna, o Holocausto, e do momento mais marcante de sua renovação e esperança, a fundação do moderno Estado de Israel.

Com sua a nova confederação nacional, a comunidade judaica brasileira inseriu-se com força na corrente de trabalho das organizações judaicas nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina, pela reconstrução da vida judaica no mundo, seja participando dos acordos de indenização e reparações de guerra, seja no apoio diplomático e material ao Estado de Israel. A Conib participou ainda, desde sua fundação, da luta em prol da democracia e dos direitos humanos, contra o racismo e o antissemitismo.

É uma história que nos orgulha e inspira, agora resumida no livro que hoje lançamos, escrito pelo historiador Roney Cytrynowicz. Com pesquisas em arquivos nacionais e estrangeiros, a obra revela como a trajetória da Conib marca e é marcada pela história dos judeus, no Brasil e no mundo, nas ultimas sete décadas. A pesquisa revelou tantos fatos interessantes que queremos fazer do livro um ponto de partida sobre a história da comunidade judaica brasileira. Ainda há muito a ser pesquisado e contado.

São sete décadas de muitas conquistas e de muito trabalho, que ajudaram a assegurar que o Brasil se tornasse, até hoje, uma nação acolhedora para nós e para nossos antepassados. Em nome dos 120 mil judeus brasileiros, agradecemos ao povo brasileiro pela acolhida. E agradecemos também aos líderes de nossa comunidade – os que nos antecederam e os atuais, muitos aqui presentes – pelo trabalho árduo e quase sempre voluntário, de manter a vida judaica segura e vibrante no Brasil.

senhoras e senhores

É uma grande alegria estarmos aqui, mais uma vez reunidos, para nossa convenção anual. E que ano tivemos!

2018 marca uma mudança profunda na política brasileira, operada por meio de um processo eleitoral tenso e polarizado. Mas, ao final, a eleição foi realizada de forma livre e democrática e trouxe as mudanças que a maioria escolheu.

A comunidade judaica brasileira, como todo o Brasil, participou ativamente da campanha eleitoral, a maioria pelas redes sociais e pelo WhatsApp.

 

Muitos de nós foram além das redes e tiveram participação ativa nas mais diversas campanhas – o que só enriquece a experiência judaica no Brasil.

Nesse turbilhão político, a Conib permaneceu fiel ao seu mandato de representar a todos os judeus e judias, em toda a sua imensa diversidade de opinião e visão política. A Conib acompanhou as eleições de forma ativa e atenta, guiada pelos valores e princípios que norteiam a nossa ação: segurança e bem estar da comunidade, combate ao ódio e à discriminação, defesa da aceitação mútua e do império da lei e melhoria das relações entre o brasil e Israel.

Entregamos nossa carta de princípios aos principais candidatos e esperamos que o novo governo eleito traga mais desenvolvimento e justiça ao nosso país, combata a intolerância e defenda o entendimento.

A pauta que se abre nas relações Brasil-Israel são promissoras. A visão do futuro governo, reiterada até agora, é explorar o grande potencial de parcerias entre os dois países, nas áreas de tecnologia, segurança, água, agronegócio e outras. E também de alterar, de maneira significativa, a postura do Brasil nos organismos internacionais. Estaremos atentos e acompanhando a concretização dessa importante mudança em direção a um verdadeiro equilíbrio nas relações bilaterais e nas questões relacionadas ao Oriente Médio.

É necessário reconhecer o avanço nas relações Brasil-Israel ocorrido ainda no atual governo, com apoio da Conib. desde a solução da chamada “crise dos embaixadores”, na gestão do ministro José Serra, até a visita a Israel do ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, na qual a Conib foi convidada a integrar oficialmente sua comitiva.

Foi uma viagem que aprofundou as relações bilaterais e abriu uma pauta rica de oportunidades. Temos feito de forma permanente missões com parlamentares brasileiros – alguns que nos dão hoje a honra de sua presença – de diferentes partidos políticos, para o Oriente Médio. O objetivo fundamental destas missões é o de promover o intercâmbio, criar vínculos significativos com nossos legisladores e, especialmente, mostrar aspectos da sociedade israelense, pouco visíveis no noticiário – como sua vibrante democracia, sua economia pujante, sua verve inovadora e tecnológica, para que formem suas próprias opiniões a respeito do que ali ocorre, e da complexidade da situação local. Temos certeza que tem sido uma experiência extremamente importante para todos os envolvidos nestas missões.

É o momento também de reconhecer os resultados do trabalho feito até aqui por nossa diretoria – e por nossos profissionais. Como exemplo, destaco que neste ano tivemos a primeira edição do Enem realizada exclusivamente aos domingos. A prova aplicada aos sábados prejudicava os estudantes observantes do Shabat e também integrantes de outras comunidades religiosas. O esforço da Conib foi fundamental para a mudança de datas, determinada pelo então ministro da Educação e grande amigo da nossa comunidade, Mendonça Filho.

Temos desempenhado papel relevante também na discussão da Base Nacional Comum Curricular, participando da audiências públicas, levando reflexões sobre temas importante para nós, tais como o ensino do Holocausto, o período da Inquisição no Brasil e a contribuição dos judeus na formação da sociedade brasileira. Como fruto desse trabalho, o ensino obrigatório do Holocausto já está assegurado, a partir de 2019, para o 9° ano do ensino fundamental.

Fizemos uma parceria importante com a Faculdade direito da FGV de São Paulo, que gerou uma pesquisa acadêmica sobre o conceito do discurso de ódio, buscando estabelecer parâmetros para os julgamentos de crimes de ódio, especialmente diante do discurso agressivo encontrado nas redes sociais.

Porque é nesse território – o das redes sociais e das novas mídias digitais – que encontramos crescimento exponencial de situações contra as minorias, incluindo os judeus. continuaremos atentos – e solidários – contra qualquer tipo de tentativa de discriminação que venha a se desenvolver – no mundo virtual ou no mundo real.

Realizamos também uma ação importante perante o Supremo Tribunal Federal. Estivemos com ministros daquela corte e fizemos a entrega de memoriais em julgamento de um caso que pode agilizar o combate aos abusos e incitações ao ódio e preconceito na web, facilitando a exclusão de conteúdo e a responsabilização dos infratores.

Estamos orgulhosos também com os resultados dos esforços da Conib e de nossas federadas em diversas áreas como segurança, educação, representação política e diálogo inter-religioso.

Amigos e amigas

Por mais que façamos, sempre haverá muito mais a fazer.
Como tem sido ao longo de nossa história, os desafios neste início do século 21 não são poucos. Surgem ameaças diversas, que vão de um extremo ao outro do espectro político e social. Grupos organizados e indivíduos insistem em colocar judeus e judias como bodes expiatórios e como minoria a ser culpada e atacada – por problemas que não são nossos, nem foram criados por nós.

Não podemos deixar de falar do recente ataque contra a sinagoga de Pittsburgh, nos Estados Unidos, que matou 11 pessoas durante um serviço de Shabat. Esse massacre odioso de inocentes mostra como as ameaças podem surgir, em qualquer lugar e a qualquer hora, mesmo em locais que se imaginava seguros.

Estamos atentos a tudo isso e aumentando nossa capacidade de organização e segurança. Mas os desafios à frente vão muito além das questões materiais. É preciso aprofundar a relação dos nossos jovens com o judaísmo e com a comunidade judaica, atraindo quadros para que nossas instituições se renovem e se adequem ao novo mundo que vivemos.

Enquanto a extrema direita segue colocando os judeus como alvo a ser odiado e atacado, a agenda antissemita (muitas vezes disfarçada de antissionista) cresce também em setores da esquerda. Vemos isso ocorrer até em partidos tradicionais e do mainstream, como o Partido Trabalhista britânico e setores do Partido Democrata norteamericano.

Tomamos a iniciativa, há alguns anos de trazer para a comunidade, em nossas convenções, figuras de destaque do mundo judaico. Nosso convidado especial desta noite, o filósofo Bernard-Henri Lévy, pensador original de primeira grandeza e um homem de ação, poderá nos contar sobre essas questões na França e no mundo e também falar como a prodigiosa mente judaica, forjada ao longo dos séculos, está preparada para enfrentá-las. Destaco aqui um de seus muitos insights:

“As pessoas sempre acham que a lealdade é louvável. As pessoas sempre dizem que devemos permanecer fiéis à tradição, à família, à nossa classe, às nossas ideias. Claro que não! Isso seria equivalente a zero atividade cerebral. Se você realmente quer pensar, buscar a verdade, avançar intelectualmente, deve dar as costas aos clichês, a ideias preconcebidas – até mesmo aquelas que pertencem à sua família espiritual.”

Temos uma comunidade judaica diversa e vibrante no Brasil, que vive em paz e prosperidade. Todos nós contribuímos para isso, e seguiremos trabalhando nesse sentido, sempre, porque nossa causa é justa e estimulante.

É o momento para ressaltarmos nossa essência e valores que nos unem e nos fazem existir como comunidade.

A Eleição que dividiu o país provocou o mesmo efeito em nossa comunidade, o que é natural.

Acima de tudo isso, porém, devemos lembrar que foram a ética e os valores judaicos que nos trouxeram até aqui. Eles são as nossas garantias de que seguiremos unidos e fortes, dentro de nossa essencial diversidade de opiniões, independentemente de governos, que vêm e vão.

Nesta celebração de nossos 70 anos, gostaria de, mais uma vez, reconhecer e agradecer, a todos que nos precederam, nessa nobre tarefa de promover e defender o judaísmo no Brasil.

Muitos da geração de imigrantes que formaram a base sólida, na qual a comunidade judaica brasileira prosperou já nos deixaram. Cabe agora a nós e, principalmente, aos nossos filhos e netos, a missão de garantir mais 70 anos de judaísmo vivo e vibrante no Brasil.

 

 

Senhoras e Senhores

 

Quantas vezes, ao passar por uma ponte ou por um edifício, nos lembramos de quem os construiu? Quais as dificuldades enfrentadas? Como eram os locais antes das obras?

 

Quantas vezes, ao nos deslocarmos por uma estrada moderna e segura, pensamos que talvez antes dela, ali havia um caminho difícil e perigoso?

 

Quem ousou projetar o novo caminho?

 

Quem colocou as mãos à obra e abriu o terreno para aquele edifício?

 

 

Há setenta anos estamos projetando, abrindo terrenos e construindo caminhos para as atuais e para as futuras gerações da comunidade judaica brasileira.

 

muito obrigado e Shalom!