Protestos no Iraque e no Líbano mostram que começa a fracassar a tentativa do Irã de expandir sua influência no Oriente Médio

Os protestos no Iraque e no Líbano revelam o fracasso do modelo iraniano de tentar expandir sua influência no Oriente Médio através de aliados dentro desses governos.

No dia seguinte à erupção dos protestos contra o governo no Iraque, o general iraniano Qasem Soleimani voou para Bagdá tarde da noite e chegou de helicóptero à Zona Verde, onde fica a fortificada sede do governo, surpreendendo um grupo de altos oficiais de segurança ao presidir uma reunião no local. A chegada de Soleimani, chefe da Força Quds de elite do Irã e seu aparato de segurança regional, sinalizou a preocupação de Teerã com os protestos, que irromperam pela capital e no coração xiita do Iraque e que têm como principais reivindicações o fim da intromissão iraniana no país.

Matéria do Jerusalém Post mostra que o Irã e seus aliados estão preocupados que os protestos atrapalhem suas tentativas de assumir lentamente o controle do Líbano e do Iraque. Qualquer mobilização em massa de jovens ou de qualquer grupo que discorde do governo deve ser esmagada. No Iraque, as manifestações estão sendo reprimidas com jatos de gás lacrimogêneo e balas disparadas diretamente na cabeça dos manifestantes. No Líbano, diante da presença da mídia mundial, o Hezbollah tenta fingir que é um partido político ‘normal’ e que defende o país. Mas, no final, o Hezbollah adota a mesma linha do Irã no Iraque e tenta intimidar as pessoas comuns e silenciá-las, assim como silenciou o ex-primeiro-ministro Rafic Hariri com um carro-bomba em 2005. Ontem, o filho de Rafic, Saad, renunciou ao cargo de primeiro-ministro, deixando o Hezbollah atordoado.

Os protestos no Iraque e no Líbano são alimentados por queixas locais dirigidas principalmente às elites políticas, mas também representam um desafio ao Irã, que apoia de perto tanto os governos quanto os poderosos grupos armados de cada país. Uma repressão cada vez mais violenta no Iraque e um ataque dos apoiadores do Hezbollah no principal campo de protestos em Beirute levantaram temores de uma reação do Irã e de seus aliados.

“Nós, no Irã, sabemos como lidar com os protestos”, disse Soleimani às autoridades iraquianas, de acordo com dois altos funcionários que participaram da reunião e que falaram sob condição de anonimato. “Isso já aconteceu no Irã e nós conseguimos controlar”, teria dito Soleimani na reunião.

Mas quase um mês depois, os protestos no Iraque foram retomados e as manifestações continuaram no Líbano, ambas dirigidas a governos e facções aliadas a Teerã. Os protestos ameaçam a influência regional do Irã em um momento em que o país sofre com as sanções dos EUA.

No dia seguinte à visita de Soleimani, os confrontos entre os manifestantes e as forças de segurança no Iraque se tornaram muito mais violentos, com o número de mortos ultrapassando os 100, enquanto atiradores não identificados disparavam contra manifestantes. Quase 150 manifestantes foram mortos em menos de uma semana.

Durante os protestos desta semana, homens em trajes pretos e máscaras ficaram à frente dos soldados iraquianos, enfrentando manifestantes e disparando gás lacrimogêneo. Os moradores disseram que não sabiam quem eram, com alguns especulando que eram iranianos.

“O Irã tem medo dessas manifestações porque obteve muitos ganhos no governo e no Parlamento por meio de partidos próximos” desde a invasão do Iraque liderada pelos EUA em 2003, disse Hisham al-Hashimi, analista de segurança iraquiano. “O Irã não quer perder esses ganhos, por isso tentou trabalhar com partidos aliados para conter os protestos de uma maneira muito iraniana” Não deu certo.

Os protestos no Iraque foram retomados na sexta-feira após um breve hiato, com manifestantes reunidos na Praça Tahrir de Bagdá e entrando em confronto com as forças de segurança enquanto tentavam derrubar barricadas em uma ponte que leva à Zona Verde, sede do governo e de várias embaixadas.

No sul do Iraque, manifestantes atacaram e incendiaram escritórios de partidos políticos e milícias apoiadas pelo governo aliadas ao Irã.

Em um país que é o segundo maior produtor de petróleo da Opep, moradores pobres reclamam que milícias xiitas poderosas ligadas ao Irã construíram impérios econômicos, assumindo o controle de projetos de reconstrução do estado e se ramificando em atividades comerciais ilícitas.

“Todas as partes e facções são corruptas e esse sistema está conectado ao Irã, porque esse país está usando o governo para exportar seu sistema clerical para o Iraque”, disse Ali al-Araqi, um manifestante de 35 anos da cidade do sul de Nasiriyah, palco de confrontos violentos entre manifestantes e forças de segurança.

“O povo é contra isso, e é por isso que há uma revolta contra o Irã”, disse ele.

Na noite de terça-feira, homens mascarados que pareciam estar ligados às forças de segurança do Iraque dispararam contra manifestantes, em uma cidade sagrada associada ao martírio de uma das figuras mais reverenciadas do islã xiita. Pelo menos 18 manifestantes foram mortos e centenas ficaram feridos nessas manifestações.

Em Bagdá, manifestantes queimaram uma bandeira iraniana. Dias antes, os manifestantes haviam se reunido em frente ao consulado iraniano em Karbala, gritando “Irã, sai, sai!”.

No Líbano, centenas de milhares de pessoas foram às ruas, exigindo a renúncia de um governo dominado por facções pró-Irã. Como no Iraque, os protestos estão focados em queixas locais.

“Os protestos no Iraque e no Líbano são principalmente sobre política local e uma classe política corrupta que não consegue governar”, disse Ayham Kamel, diretor de política sobre o Oriente Médio e Norte da África no Grupo Eurasia.

Os protestos “mostram o fracasso do modelo de procuração, onde o Irã é capaz de expandir a influência, mas seus aliados são incapazes de governar efetivamente”, disse Kamel.