Referência em Israel, médico brasileiro faz transplante de pulmão na esposa do presidente

O cirurgião brasileiro Milton Saute, de 66 anos, especialista em transplantes de pulmão, recebeu, no começo de março, uma paciente ilustre em Israel, país onde ele vive há três décadas. Como diretor do Departamento de Cirurgia Pulmonar do Centro Médico Rabin, em Israel – mais conhecido como Hospital Beilinson -, Saute fez um transplante de pulmão em Nechama Rivlin, esposa do presidente israelense, Reuven Rivlin.

A “cidadã número 1 de Israel”, como esposas dos presidente são conhecidas, estava na lista de espera para um transplante de pulmão há um ano e meio, desde que sua fibrose pulmonar piorou. No dia 12 de março, no entanto, a espera acabou.

Nechama foi chamada às pressas ao Hospital Beilinson, na cidade de Petah Tikva (próxima a Tel Aviv), depois da morte prematura de um jovem de 19 anos, que se afogou. Os pulmões do jovem foram transplantados pelo cirurgião brasileiro.

“Graças a Deus, ela se operou conosco e, por enquanto, está bem”, disse Saute. Por problemas secundários, a patologia pulmonar dela é um caso bem difícil, mas está evoluindo muito favoravelmente. Espero que, se Deus quiser, ela volte ao convívio da família, ao convívio do presidente. Ela está ainda na Terapia Intensiva, mas está falando, está sentando e já se alimenta”

Formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o médico nasceu em Porto Alegre. Ele fez residência no Hospital das Clínicas de sua cidade natal e no Sanatório da Curicica, no Rio de Janeiro. Quase foi trabalhar no Incor, em São Paulo, mas decidiu, há 30 anos, se mudar para Israel com a família por um motivo: a fé judaica. Acreditava que, em Israel, teria mais facilidade em manter a alimentação “kasher”, que segue preceitos culinários específicos, bem como desenvolver a educação judaica dos filhos.

Na época, segundo ele, o panorama da cirurgia torácica em Israel era muito inferior a do Brasil. O País, desde os anos 40, é uma potência em cirurgia pulmonar e cardíaca.

“Muitos dos progressos da cirurgia torácica mundial são brasileiros. Eu aprendi muito lá”, afirma o médico gaúcho. “Muita coisa que eu sabia fazer, eles nunca tinham visto. A cirurgia cardíaca era bem desenvolvida aqui, mas na érea de cirurgia pulmonar, havia muito o que ser feito”.

Desde o ano 2000, Saute dirige o Departamento de Cirurgia Pulmonar do Beilinson, que desenvolveu quase do zero. Já havia transplantes de pulmão no hospital desde 1997, mas apenas 10 em três anos e com uma mortalidade bem elevada.

A chegada do médico brasileiro mudou esse quadro. Dois anos depois, o hospital passou a ser o único centro de transplantes de pulmão do país, com uma taxa de sucesso acima da média. Hoje, o Hospital Beilinson é referência internacional, realizando uma média de 55 transplantes por ano.

O hospital pioneiro nesse tipo de cirurgia, o Toronto General, no Canadá, faz 200 por ano, mas o centro israelense é o único que consegue transplantar pulmões, anualmente, para mais de 50% dos pacientes na lista de espera.

“No meu primeiro ano aqui no Beilinson, fizemos 25 transplantes de pulmão, com uma mortalidade de 8%. Nós somos uma potência em transplantes, fazemos em torno de 55 a 58 por ano. Nossa mortalidade cirúrgica gira em torno de 9% no primeiro mês e cerca de 18% no primeiro ano. Nossa casuística é um pouquinho melhor do que a média mundial”, explica.

Não há muitos médicos cirurgiões brasileiros em Israel. Na especialidade torácica, Saute é o único. Para ele, ser brasileiro foi a chave para o sucesso no país para onde imigrou. O segredo é o relacionamento mais caloroso com os pacientes.

“A minha mulher gosta de dizer que a gente pode deixar o Brasil, mas o Brasil nunca vai deixar a gente”, brinca o médico. “Eu acho que é uma verdade. O nosso ‘approach’, a relação médico-paciente do profissional brasileiro é muito melhor do que outros povos, como o israelense, pelo menos. O médico israelense é muito frio, infelizmente. O ‘approach’ do médico brasileiro é… brasileiro. Pega na mão, faz um afago, dá um tapinha nas costas. Tem um jeitinho brasileiro que me abriu muitas portas aqui. Isso é importante, é uma coisa que é da alma do brasileiro”, conclui Saute (Daniela Kresch, RFI).