“Só fica na história quem ajudou a fazê-la”, diz religiosa do candomblé em homenagem a Sobel, em SP

Egbomi Conceição Reis de Ogum chegou ao Memorial da América Latina, na noite desta quinta-feira, 31 de outubro, e esperou pacientemente que o rabino Sobel recebesse os cumprimentos de dezenas de convidados, até que chegasse a sua vez. A religiosa negra do ramo Ketu do candomblé pôde então abraçá-lo.

“Só fica na história quem ajudou a fazê-la”, disse ela ao site da Conib. “Sobel é um ícone. Foi ele quem puxou a integração entre as religiões, desde o ato na Sé [em homenagem a Vladimir Herzog, em 1975]. Sempre foi muito simpático conosco. É uma pena que ele vá embora [de volta aos EUA]. Uma grande perda”.

Na homenagem realizada ao rabino pela família de Vladimir Herzog, pela Congregação Israelita Paulista e pela Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-Judaico, com a presença de cerca de 500 pessoas, Egbomi não era a única religiosa a ter esta opinião.

“Conheci Sobel em 1991. Com ele e o cardeal Cláudio Hummes, trabalhamos pelo ecumenismo. O rabino é muito carismático e amado pelos brasileiros. A comunidade judaica perde, todos perdemos. Deveriam tê-lo mantido no Brasil”, disse o xeique Armando Hussein Saleh.

O arcebispo de São Paulo, cardeal dom Odilo Scherer, um dos oradores da noite, afirmou: “Os católicos aprenderam a admirá-lo em muitos momentos. Sobel conquistou um espaço no  coração da cidade e deixou sua marca na história, com certeza. E se parte, também fica”.

Clara Ant, diretora do Instituto Lula, trouxe uma carta do ex-presidente, na qual ele afirma: “A democracia que usufruímos hoje se deve a protagonistas como Sobel. Ele encontrou a resposta precisa no momento exato e conquistou seu lugar na história e em nossos corações. Mostrou que os judeus são uma comunidade sensível à violação dos direitos humanos e que a justiça é um de seus principais preceitos”.

O governador Geraldo Alckmin, representado pela secretário da Cultura, Marcelo Araújo, pediu que fossem transmitidas a Sobel duas palavras: “Reconhecimento e gratidão. Reconhecimento de 40 milhões de paulistas pelos mais de 40 anos de Sobel no Brasil [ele chegou em 1970]; gratidão, pelos seus ensinamentos”. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso enviou a Sobel um CD.

Na longa lista de personalidades presentes ao evento, os juristas Celso Lafer e José Gregori, Abram Szajman, da Federação do Comércio; Jorge da Cunha Lima, da Fundação Padre Anchieta; Lia Diskin, presidente do Instituto Palas Athena; os jornalistas Audálio Dantas, Alexandre Machado, Henrique Veltman, Juca Kfouri e Mônica Bergamo; os acadêmicos Nachman Falbel e Tullo Vigevani; o empresário Gustavo Halbreich e sua esposa Theresa Collor; Pedro Herz, da Livraria Cultura; o deputado estadual Adriano Diogo; o vereador Gilberto Natalini; Daniel Borger, diretor da Conib; Ricardo Berkiensztat, vice-presidente da Fisesp, Abraham Goldstein, da Bnai Brith, o padre José Bizon, da Casa da Reconciliação; membros da Congregação Israelita Paulista; o cineasta João Batista de Andrade, presidente do Memorial da América Latina, que cedeu o espaço para a homenagem.

O site da Conib perguntou: "O que o trouxe aqui hoje, Juca Kfouri?". “A admiração por um jovem rabino recém-chegado, que teve a mesma atitude de dois pastores experientes [Arns e Wright]. Para ele, foi muito mais difícil, por ser jovem, estrangeiro e discriminado por ser judeu. E não posso deixar de lembrar que eu era o diretor da Playboy, na época em que o rabino deu uma rumorosa entrevista [1993]”. A reação? “Os progressistas adoraram; os conservadores detestaram”.

Emocionado, Sobel disse aos jornalistas que saía do Brasil “sem mágoas e com o reconhecimento do trabalho feito pela integração dos judeus à vida brasileira”. Ele acrescentou que deixa discípulos para prosseguir seu exemplo.

Em seu longo discurso, fez um depoimento detalhado sobre os fatos que se seguiram ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, culminando no culto inter-religioso na Catedral da Sé, há exatos 38 anos. A inspiração para seus atos: os três pilares mencionados no Pirkei Avot [Ética dos Pais]: a verdade, a justiça e a paz. E o incitamento, no livro Devarim [Deuteronômio], da Torá: “Buscarás a justiça!”.

Lembrou do grande papel do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, do reverendo James Wright e do jornalista Audálio Dantas, colega de Vlado, e o apoio dado pelo então presidente da Confederação Israelita do Brasil, Benno Milnitsky.

“Mas nada de despedidas!”, concluiu. “Minha filha casará no Brasil em novembro de 2014, e voltarei já em março para os preparativos. Terei o duplo orgulho, na cerimônia, de ser o pai e o rabino”.


Henry Sobel e Egbomi Conceição Reis de Ogum. Foto: Eduardo Rascov.
 


O xeique Armando Hussein Saleh abraça o rabino Sobel. Foto: Eduardo Rascov.


Na primeira fila, a partir da esquerda: Marcelo Araújo, João Batista de Andrade, Odilo Scherer, Henry Sobel, Amanda Sobel, Ivo Herzog e rabino Michel Schlesinger. Na segunda fila, atrás de Herzog, Egbomi Conceição Reis de Ogum. Ao seu lado, o padre José Bizon. Foto: Eduardo Rascov.


Henry Sobel fala no Memorial da América Latina, em São Paulo. À esquerda, foto do culto inter-religioso na Catedral da Sé, em 1975, com dom Paulo Evaristo Arns. Foto: Eduardo Rascov.