Um clássico absoluto da música judaica

Nas famílias judias originárias da Europa Central e Oriental, muitas pessoas das novas gerações sentem o sabor inconfundível da infância quando ao ouvir essa canção, que lhes era cantada por seus avós. Poucas, no entanto, conhecem a história singular de “Oyfn pripetchik”, que fez parte da trilha sonora do filme "A Lista de Schindler’ e cujo significado será elucidado abaixo.

Este nome parece bastante complicado. Mas essa é apenas uma de suas inúmeras grafias:

“Oif’n pripetchick”, “Oif’n pripetshik”, “Oif’n pripetchok”, “Oif’n propetchok”, “Oifen pripetchik”, “Oifen pripitchik“, “Oyfn pripitchik”, “Afn pripetshik”, “Auf’n pripetchok”, “Oyf’n pripetshok”, “Alep-Beth”, “Aleph Beith”, “Alef-Bet”, “Alef-Beit” e “Alef-Beyz” referem-se todos à mesmíssima música e tornam a busca na internet uma grande aventura. A riqueza de nomes mostra a disseminação dessa estimada canção pelas regiões da Europa em que habitava até a Segunda Guerra Mundial um grande número de judeus, cuja língua era o iídiche.

Seu compositor, Mark Varshavski (ou Warshawski) nasceu na atual Ucrânia na década de 1840 (as fontes divergem sobre o ano exato). Foi descoberto no final do século 19 pelo grande escritor de língua iídiche Scholem Aleichem, que prefaciou o lançamento em livro, em 1901, de 25 de suas canções, com o título “Yidishe folkslider mit notn” [Canções folclóricas em iídiche com notas musicais]. O livro tornou autor e obra muito populares. As canções de Varshavski trazem motivos da poética popular judaica, abordando a vida de pessoas simples, suas alegrias e tristezas, estas contrabalançadas por uma forte espiritualidade. Varshavski faleceu em 1907.

Como se poderia esperar, não somente o título “Oyfn pripetchik” (que, aliás, é o nosso favorito) varia, mas também sua letra. Há duas versões principais. A do sudeste europeu apresenta mais estrofes do que a versão do norte. Uma tradução livre da versão reduzida, certamente não definitiva e sem a poesia do original, segue abaixo:

Na lareira arde uma pequena chama
E na sala está quente
O Rabino ensina às crianças
O Alef-Beit
[alfabeto hebraico]

Estudem bastante e lembrem-se, crianças,
Do que estão aprendendo agora
Repitam outra e mais uma vez
O “A” [Alef] com um sinal embaixo vira “O”!

Estudem com vontade, crianças
É o que eu lhes digo
E aquele que aprender mais rápido
Ganhará um presente

Quando vocês forem mais velhas, crianças
Entenderão que estas letras
Contêm o sofrimento e as lágrimas
Do nosso povo

E quando estiverem exaustas, crianças
E fatigadas pelo exílio
Encontrarão força e consolo
Nestas mesmas pequenas letras

É natural que também o título da canção tenha recebido diferentes traduções: uma mais literal: “Junto à Lareira”; outra, mais afetuosa: “No Lar”; e uma terceira, que faz referência direta ao conteúdo: “O Alfabeto” (como já revela o título “Alef-Beit”). Pode-se dizer que o texto de “Oyfn pripetchik” sintetiza séculos de história judaica, mostrando a relação simbiótica do chamado “povo do livro” com as letras, onde quer que um judeu esteja.

Apesar dos inúmeros títulos e versões, a vida da canção estava tranquila, até que sua inclusão na trilha sonora do filme “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg, retirou-a do aconchego dos lares judaicos e tornou-a um hit mundial. Entre as interpretações mais marcantes encontram-se a do coral da Universidade de Hong Kong, de 2007; uma versão instrumental em violão clássico, junto a obras de Mozart e Bach, em um disco de canções de ninar; e a gravada em 2008 com muita “Yiddishkeit” [algo como “judaicidade”] pelo coral mirim “MGeneration”, de Nova York , A versão mais antiga que encontramos é a do tenor Meyer Kanewsky, em gravação original de 1915, em Nova York. Como se vê, é uma longa história. 

Em tempo: na trilha do filme, a canção tem o título “Oyf’n pripetshok”, que deve ser o favorito de Spielberg.