“Uma Cidade Sem Judeus”, o filme que anteviu o Holocausto

É com desconfortável fascínio que se assiste à sátira muda austríaca “Uma Cidade Sem Judeus” (1924), de Hans Karl Breslauer (1888-1965), o maior destaque da 23ª edição do Festival de Cinema Judaico Hebraica – São Paulo, que acontece de amanhã (3) até o dia 14. Rodado na turbulenta Viena do entre-guerras, o filme pautou polêmicas e protestos de nazistas em sua estreia, sumindo de circulação por mais de meio século. Pudera: em tom surpreendentemente leve, antecipa a obsessão pela eliminação dos judeus posta em prática cerca de uma década depois pela ascensão de Hitler ao poder na Alemanha.

“A Cidade Sem Judeus” adapta, com certa liberdade, o best-seller homônimo publicado em 1922 pelo escritor e jornalista austríaco Hugo Bettauer (1872-1925). Judeu convertido ao luteranismo, colega de escola em Viena do satirista Karl Kraus (1874-1936), Bettauer teve uma vida atribulada, com longos períodos fora de seu país natal, em paradas em Zurique, Berlim, Munique e Nova York, chegando até a obter cidadania americana.

Viena fixou-se como seu endereço definitivo apenas ao se tornar, nos anos 1920, um ativo polemista na imprensa e sobretudo um escritor prolífico de romances populares. Nenhum fez mais barulho do que “A Cidade Sem Judeus”, com mais de 250 mil exemplares vendidos em seu primeiro ano nas livrarias. Bettauer traduziu o marcante antissemitismo da época numa alegoria distópica em que o governo austríaco bane de suas fronteiras toda a população judaica.

Não surpreende, assim, que Breslauer tenha movido mundos e fundos para levá-lo às telas. Quatro outros livros de Bettauer já haviam sido adaptados e, pouco depois, ninguém menos que o mestre alemão G. W. Pabst (1885-1967) lançaria a carreira internacional de Greta Garbo (1905-1990) em sua versão para “Rua de Lágrimas” (1925), sobre a vida de prostitutas numa Viena acossada por crise econômica e inflação.

É esse também o cenário inicial do romance de Bettauer, mas não de sua adaptação cinematográfica. Breslauer descartou as referências geográficas e históricas imediatas, transferindo o entrecho para a abstrata República da Utopia. Foi além, adotando um tom crescentemente paródico e, sem avançar em “spoilers”, suavizando o final pelo foco dividido com uma peripécia romântica.

Ainda assim, “A Cidade Sem Judeus” é uma evidente parábola de denúncia e oposição ao obsessivo antissemitismo da crescente horda nazista, colhendo protestos de hitleristas em sessões públicas e mesmo ataques por gás lacrimogênio em alguns cinemas.

Quando da estreia do filme, Hitler se dedicava à redação de “Mein Kampf” (“Minha Luta”) enquanto amargava uma cana no presídio de Landsberg, em consequência da fracassada tentativa de golpe de Estado na Baviera, no episódio que passou para a história como o “putsch da cervejaria”, de novembro de 1923. Em fins de dezembro de 1924, já estava novamente em liberdade para reconstruir seu partido, até alcançar o poder em 1933, concretizando sob a forma de genocídio o profetizado por Bettauer.

O próprio escritor tornou-se uma precoce vítima dos nazistas, executado a tiros em seu escritório por Otto Rothstock, em março de 1925. Alegando insanidade, o jovem assassino foi solto após cerca de um ano e meio de internação num hospital psiquiátrico.

“A Cidade Sem Judeus”, o filme, sumiu de circulação após a entronização de Hitler. Em protesto contra sua chegada ao poder, uma última sessão foi organizada num cinema de arte em Amsterdã, em 1933. A partir de então, o filme de Breslauer foi considerado perdido, até que em 1991, na mesma cidade holandesa, localizou-se uma cópia em péssimo estado. Catorze anos se passaram até a descoberta, num mercado de rua em Paris, de uma cópia em nitrato impecavelmente conservada.