“Uma comunidade respeitada. Isso também lhe devemos”, diz Lottenberg na despedida do rabino Sobel

Na cerimônia de Shabat realizada na última sexta-feira, 1º de novembro, na Congregação Israelita Paulista, o presidente da Conib, Claudio Lottenberg, agradeceu ao rabino Henry Sobel, em nome da comunidade judaica brasileira, o seu legado.

Para Lottenberg, Sobel “ultrapassou os limites de um líder religioso, dando à comunidade judaica brasileira uma fisionomia totalmente rejuvenescida e criativa”.  

Hoje, temos “uma comunidade que se insinua no mundo público participando de debates, sendo ouvida e respeitada. Isso também devemos a Henry Sobel”, acrescenta o presidente da Conib.

Leia abaixo o discurso:

A parashá [trecho da leitura da Torá] desta semana nos remete a Esaú e Jacó. Aprendi em minha vida que os ensinamentos da Torá, ricos em seus valores, são emblemáticos, na forma como se modernizam ao longo do tempo. A legitimidade da bênção era para um filho, mas a atitude fez com que o outro a merecesse.

A vida propõe enormes oportunidades de desenvolvimento, e a autoridade nos é creditada de formas variadas. Existe a autoridade que nos é remetida pelo voto popular. Existe a autoridade que nos é outorgada pela nomeação de quem tem poder para tal, mas existe a maior das autoridades, que é fruto do conhecimento, atemporal e inconfiscável.

Aqui começa a historia do rabino Sobel.   

Português de nascimento, americano por adoção e brasileiro de coração, conheci o rabino Sobel ainda em meu bar mitzvá e me recordo plenamente de nossa conversa às vésperas de sua prédica.

Hábil nas metáforas e objetivo na materialização das mesmas, ele explicava que a vida é comparável a um jogo de futebol, pois é jogada em equipe, levada com garra e composta pelos jogadores de dentro e de fora. Em outras palavras, ensinou-me a lutar, disputar com senso ético, formar times, respeitar aqueles que estão presentes naquele momento, e sobretudo aqueles que não estão tão presentes, mas que de alguma forma participam ou participaram.

Posso lhe dizer, rabino, que muito daquilo que faço por nossa comunidade tem o seu DNA, impregnado na prédica de minha maioridade religiosa.

Nestes anos, em que veio aqui atuando, Sobel foi impecável. Defensor da democracia e dos direitos humanos, orquestrador do diálogo inter-religioso, foi responsável por momentos ímpares.

Ultrapassou os limites de um líder religioso, dando à comunidade judaica brasileira uma fisionomia totalmente rejuvenescida e criativa. A democracia renascia e a maneira de se inserir deveria ocorrer de forma incisiva, mas ao mesmo tempo cuidadosa e com grande elegância. Embaixador de todas as causas, Sobel fez uma escola, a qual também frequentei.

Em todos os cantos deste país, judeus e não judeus, amantes ou não de Israel, passaram a construir uma imagem positiva de nossa comunidade. Hoje, temos um Estado com o qual nos identificamos: Israel, e as pontes que unem o Brasil ao Estado judeu também foram fortalecidas por Henry Sobel.

Em momentos tensos destas relações, ele esteve presente, em lutas heroicas como o da morte de Vladimir Herzog, ele se identificou como verdadeiro defensor da verdade e, em episódios agudos de negacionismo do Holocausto, como o do ex-presidente do Irã, nos deu o suporte necessário.

Jamais imaginei em minha vida despedir-me do rabino Sobel. Nem eu, nem nossa comunidade. Ele é dessas figuras paradigmáticas, que marcam a história.

Esta congregação, hoje presidida pelo jovem e brilhante Sérgio Kulikovsky e berço de muitas de nossas lideranças teve no rabino uma participação absolutamente inegável e inegociável.

A comunidade judaica assiste hoje a movimentos importantes de renovação e incorporação de novos valores. Cursos de liderança, escolas revigoradas, eleições na Hebraica que, no próximo domingo, terão três candidatos por vaga junto ao conselho.

Uma comunidade que se insinua no mundo público participando de debates, sendo ouvida e respeitada. Isso também devemos a Henry Sobel.

Aprendi em minha vida que somos anões nas costas de gigantes. Somos frutos de árvores sólidas, somos o que somos porque lutamos para ser o que somos. Nesta luta, o respeito ao passado tem que ser parte do presente.

Sobel nos EUA não deixará de ser o Sobel do Brasil. A comunidade judaica brasileira não deixará de ter na sua vida o marco contributivo do rabino. São coisas que se conectam, valores que não se desmembram. Cabe a cada um de nós dar valor a quem tem valor, como diria o próprio rabino. E esta comunidade lhe dá o mais legitimo dos valores, que é o do reconhecimento.

Em nome dos judeus do Brasil, em nome da comunidade que eu presido e em nome daqueles que acreditam na democracia, na tolerância e na diversidade, o meu muito obrigado, Henry Sobel.


Henry Sobel e Claudio Lottenberg. Fotos: Eduardo Rascov e Eliana Assumpção.