2020 já registra um antissemitismo quase recorde no Reino Unido, diz organização

Pesquisa do grupo britânico Community Security Trust (CST) revelou uma ligeira queda nos crimes de ódio no Reino Unido por causa das medidas contra o coronavírus, mas destacou que os 789 casos registrados entre janeiro e junho deste ano representam o terceiro maior número de incidentes antissemitas ocorridos no mesmo período em anos anteriores.

De acordo com a organização, que monitora os casos de antissemitismo no Reino Unido desde 1984, os incidentes antissemitas no país caíram 13% em 2020 em relação ao ano anterior, provavelmente devido às regras contra o avanço da Covid-19.

Os dois meses que tiveram o menor número de incidentes registrados – março e abril, com 102 e 98 incidentes, respectivamente – coincidiram com o período em que as medidas de bloqueio contra o avanço do coronavírus foram mais rígidas, com o fechamento de instituições religiosas, escolas, restaurantes e outros locais.

Com o relaxamento das medidas, em maio, houve um aumento significativo de incidentes antissemitas e os números continuaram a crescer em junho.

Apesar da ligeira queda em março e abril, a CST relatou uma tendência contínua de aumento de casos de antissemitismo nos últimos anos. Cinco dos seis meses do primeiro semestre de 2020 registraram mais de 100 incidentes. Por outro lado, os registros mensais da CST excederam o número de 100 em apenas seis ocasiões: entre janeiro de 2006 e dezembro de 2015.

Nas grandes áreas de Londres e Manchester, que abrigam as maiores comunidades judaicas do Reino Unido, ocorreram 69% do total de incidentes. Pelo menos um evento antissemita relatado foi registrado em 41 das 43 regiões policiais do Reino Unido em 2020, em comparação com 35 em 2019.

Segundo a CST, a pandemia também influenciou a natureza dos incidentes antissemitas no primeiro semestre de 2020. Houve 10 relatos de eventos online religiosos ou educacionais sendo invadidos por hackers com conteúdo antissemita. Houve outros 26 episódios de antissemitismo relacionados à pandemia, incluindo a propagação de teorias da conspiração acusando os judeus de terem criado o coronavírus para espalhar a doença, ou com pessoas manifestando seu desejo de que os judeus peguem a Covid-19 e morram.

O antissemitismo online aumentou 4%, de 332 incidentes para 344 no primeiro semestre de 2020, à medida em que as pessoas passaram mais tempo em casa e, ainda assim, representando o maior número já registrado pela CST no primeiro semestre de um ano.

A atividade antissemita online também teve uma porcentagem mais alta este ano no Reino Unido, aumentando para 44% o total de incidentes no primeiro semestre de 2020, em comparação com 36% no mesmo período de 2019.

Na sexta-feira passada, o rapper do Reino Unido, Wiley, postou mensagens antissemitas no Twitter durante uma hora, fazendo com que seu empresário judeu deixasse o cargo. O Twitter suspendeu temporariamente a conta de Wiley, que migrou seus comentários para o Facebook.

Mas tanto o Facebook quanto o Instagram suspenderam as páginas e comentários do Wiley de suas plataformas nesta terça-feira. E a relutância do Twitter em agir com mais rigor contra o rapper levou a comunidade judaica da Grã-Bretanha, muitas vezes politicamente dividida, a se unir numa campanha que pedia um boicote de 48 horas à plataforma.

O Twitter excluiu permanentemente a conta de Wiley na quarta-feira.

O ex-deputado independente John Mann, que atualmente atua como consultor do governo em questões de antissemitismo, disse que “embora tenha havido uma queda de 13% nos números em relação ao ano passado, o aumento do antissemitismo em algumas regiões mostra como isso afeta todas as comunidades judaicas em nosso país”.

“Apesar de uma boa resposta policial, as redes sociais estão deixando de desempenhar seu papel no combate a esse ódio e precisamos ver uma ação consistente e firme por parte de todos os nossos partidos políticos”, afirmou Mann.

No que pode ser visto como um desvio dos padrões sob a liderança do líder anterior do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, o parlamentar trabalhista e secretário do Interior, Nick Thomas-Symonds, afirmou que o antissemitismo esteve presente na liderança do partido. Ele, no entanto, prometeu trabalhar junto com a nova liderança do partido para erradicar o problema..

“Esses números mostram que o flagelo do antissemitismo continua em nossa sociedade”, disse Thomas-Symonds. “(O novo chefe trabalhista) Keir Starmer se comprometeu a eliminar o veneno do antissemitismo no Partido Trabalhista desde suas raízes e eu estou junto com ele nesse objetivo”