Fábio Koifman lança livro sobre o primeiro embaixador negro do Brasil

Jornalista e escritor, o sergipano Raymundo Souza Dantas, foi o primeiro negro a ocupar um posto de embaixador do Brasil. No livro, “Raymundo Souza Dantas: o primeiro embaixador brasileiro negro”, com lançamento marcado para esta quarta (14), Fábio Koifman analisa a trajetória biográfica, pública e profissional de Souza Dantas até ser indicado para o posto de embaixador do Brasil em Gana no ano de 1961 e principalmente a reação racista de boa parte da sociedade à nomeação de um negro.
A escolha da data de lançamento não é aleatória. Dia 14 faz 60 anos que Jânio Quadros indicou o jornalista e escritor Raymundo Souza Dantas para o posto de embaixador do Brasil em Gana. O evento conta com um debate, às 19 horas, no canal do Youtube do Diplomacia para Democracia (https://www.youtube.com/watch?v=XTpO456Qx20), com a presença de Koifman, Íris de Faria (neta de Raymundo Dantas) e Roberto Dantas (filho de Raymundo Dantas). À Conib, o autor do livro respondeu as seguintes perguntas:

Pode contar como chegou a este personagem? Ele é parente de Luis Martins de Souza Dantas, também diplomata e personagem de conhecido livro de sua autoria?

No ano de 1997, ao iniciarmos a pesquisa relacionada ao embaixador Luiz Martins de Souza Dantas (1876-1954), nos deparamos de forma recorrente com o nome do também embaixador Raymundo Souza Dantas (1923-2002). Até aquele momento, Luiz Martins era em seu país de nascimento um exemplo do esquecimento histórico de que são vítimas tantos brasileiros notáveis. Na primeira metade do século XX, o embaixador foi considerado como um dos mais importantes e competentes diplomatas brasileiros. Ao final do mesmo século, o nome do personagem ainda estava fortemente registrado na memória das pessoas de cultura do Brasil, nascidas antes de 1925. Passados então quase cinquenta anos da morte do diplomata, além dessas eventuais reminiscências e lembranças dos mais velhos, permanecia a respeito dele então apenas algumas citações em uns poucos livros de memorialistas.
Ao final do século XX, outra geração, a dos nascidos entre os anos 1930 e 1950 com alguma cultura ou simplesmente pessoas que acompanharam com regularidade o noticiário, associava imediatamente o nome Souza Dantas não ao embaixador que serviu por mais de duas décadas na França, mas sim ao também embaixador, escritor e jornalista Raymundo Souza Dantas, com quem não guardava qualquer parentesco.

O que te motivou a narrar a trajetória de Raymundo Souza Dantas?

Entre 1997 e 2018 tentei convencer alguém a escrever a respeito de Raymundo. Achava o personagem interessante. O pessoal acadêmico que costuma tratar de temas próximos parecia ter reservas em relação a Raymundo. Uns diziam que ele não era ligado ao chamado movimento negro (o que não totalmente verdade), outros diziam que ele tinha sido comunista (saiu do partido antes de 1949). Raymundo era um intelectual livre pensador, isso incomoda as pessoas e produz patrulhas. Como ninguém escreveu, eu escrevi. O livro é mais um retrato da sociedade brasileira tirado a partir da notícia da nomeação de um embaixador negro do que exatamente uma biografia. A biografia serve de fio condutor para contar a respeito da época.

O que destacaria na trajetória do primeiro embaixador negro?

Ele era um escritor e jornalista. Era de fora da carreira. Foi nomeado em 1961 para Gana e depois de lá não teve outro posto na diplomacia. A trajetória dele é de superação. Nasceu pobre, negro e no nordeste. Chegou ao Rio de Janeiro em 1941, com uma mão na frente e outra atrás, semianalfabeto. Esforçou-se imensamente para se tornar escritor e jornalista. Trabalhou intensamente para se sustentar e ao ser nomeado embaixador foi vítima de preconceito (como era de se esperar) e ataques pessoais. Difícil dizer o que destacar.