Arquivo pessoal da família Benchimol.

A história dos mais de 200 anos da imigração judaica na Amazônia

Anne Gimol Benzecry Benchimol, vice-presidente do Comitê Israelita do Amazonas (CIAM), é quem nos fala sobre a história dos mais de 200 anos – completados em 2010 – da imigração judaica no Amazonas. Veja a seguir:

 CONIB: A partir de quando ocorreu e como foi a imigração judaica no Amazonas?  

AB: A história da imigração judaica no Amazonas teve início com a expulsão dos judeus da Península Ibérica em decorrência da Inquisição Espanhola (1492) e Portuguesa (1497). Com a expulsão, muitos seguiram para outros países da Europa, Ásia, África e América. Os primeiros que aqui chegaram vieram do Marrocos, onde haviam encontrado abrigo seguro. E a escolha do Marrocos se deu pela proximidade das terras e pala facilidade da língua ali falada – o espanhol – e em alguns casos até o português. 

A vida no Marrocos, onde viveram por 400 anos, passou a ser nem tão calma nem tão segura. Dificuldades econômicas, doenças, instabilidade política fizeram com que judeus marroquinos procurassem novas terras para fincar raízes, onde pudessem trabalhar livremente, dar educação a seus filhos e manter suas tradições e crenças religiosas.

Do que viviam e como viviam os judeus desde a sua chegada à região?  

AB: Em 1810, logo após a assinatura por D. João VI da Carta Régia de Abertura dos Portos às Nações Amigas, começam a chegar na Amazônia os primeiros judeus, a maioria vindos do Marrocos. Cerca de mil famílias de judeus marroquinos chegaram na Amazônia entre 1810 e 1910, se instalando em localidades ao longo do Rio Amazonas até Iquitos no Peru. Buscavam a Eretz Amazônia, a nova Terra Prometida. Vieram atraídos pela riqueza econômica do ciclo da borracha, do ouro negro e pelas novas leis que protegiam praticantes de diferentes religiões. Foi assim que o primeiro ciclo da borracha na Amazônia recebeu imigrantes portugueses, ingleses, franceses e marroquinos.  

O processo migratório para a Amazônia se destacou pela manutenção dos costumes sefaraditas, preservando rituais, simbolismos e as tradições trazidas do Marrocos. Algumas das cidades em que se comprova a presença judaica no primeiro ciclo da borracha na Amazônia foram, no Pará: Almeirim, Alenquer, Aveiro, Baião, Belém, Boim, Bragança, Breves, Gurupá, Itaituba, Mocajuba, Óbidos, Oriximiná, Portel e Porto de Moz; no Amazonas: Boca do Acre, Borba, Coari, Eirunepé, Humaitá, Ipixuna, Manacapuru, Manaus, Manicoré, Maués, Parintins e Tefé; em Rondônia são Fortaleza do Abunã e Porto Velho; no Acre, Rio Branco e Sena Madureira; e no Amapá: Macapá e Mazagão Velho.

Quais as contribuições dos imigrantes judeus para o desenvolvimento da Amazônia?  

 AB: Em toda a Amazônia há muitos registros da presença judaica na região. Há 20 cemitérios judaicos espalhados, testemunhos de mais de 200 anos de história. Ainda hoje é possível ver registros da passagem desses judeus marroquinos. Imigrantes trabalhadores, empreendedores e aventureiros. Seus negócios contribuíram para o desenvolvimento das cidades ribeirinhas. Nas capitais também atuavam no comércio, em hotéis, farmácias e joalherias, entre outras atividades. Esses judeus já vinham com conhecimentos e uma bagagem cultural e com isso contribuíam também para a educação de muitos moradores, dando-lhes emprego e a oportunidade de crescimento intelectual.

Quantos judeus vivem atualmente no Estado e quantas sinagogas há na região? Há também escolas judaicas?

 AB: A comunidade judaica do Amazonas é constituída por aproximadamente 850 judeus somente na cidade de Manaus. Após o declínio do comércio da borracha na Amazônia gradualmente eles abandonaram as cidades do interior e migraram para as capitais de seus estados. A sinagoga de Manaus é a Beit Yaacov Rebi Meyr. Lá são realizados casamentos, bar-mitzvas e comemoradas todas as datas do calendário judaico. É uma comunidade de mais de 200 anos que mantem as tradições de seus antepassados. 

O Comitê Israelita do Amazonas, CIAM, fundado em 1929, órgão que representa a comunidade judaica do Amazonas, tem como objetivo e manter o judaísmo vivo e atuante no estado. Promove encontros e atividades culturais e religiosas para adultos e crianças. A comunidade judaica do Amazonas conta com uma escola complementar para crianças a partir dos três anos de idade.  

Foto: Arquivo da família Benchimol