“A lembrança do Holocausto é uma poderosa ferramenta educativa para sensibilizar e preparar as novas gerações”, diz Fernando Lottenberg

Veja abaixo o discurso do presidente da Conib, Fernando Lottenberg, no evento deste domingo (26) na CIP pelo Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

Senhoras e Senhores,

Era de se esperar que a esta altura, passados três quartos de século da libertação do campo de concentração e extermínio de Auschwitz, a humanidade tivesse aprendido muito mais. Pesquisas recentes, feitas em países europeus, no entanto, indicam que há ainda um grande desconhecimento sobre o que aconteceu durante a segunda guerra, o alcance e o que significou a Shoah. Nesse tempo de excesso de informação e falta de conhecimento, ainda é nossa tarefa continuar a lembrar e a educar.

O Holocausto foi consequência da propaganda em sua pior forma, disseminando o discurso de ódio e criando uma narrativa que levaria à destruição dos judeus e de outros grupos étnicos de minorias, que tampouco escaparam da barbárie.

Hoje, quando vemos mensagens discriminatórias e preconceituosas, veiculadas sobretudo nas mídias sociais, no Brasil e no exterior, é imperativo tomar uma posição firme. Lembrei, em artigo publicado na Folha de São Paulo desta semana, que os registros de ataques contra comunidades judaicas crescem exponencialmente neste século 21. Nos Estados Unidos e na Europa, seus membros mudam suas rotinas e temem sair às ruas com símbolos visíveis, como a quipá ou a estrela de David. Sinagogas são atacadas e sepulturas são pichadas com suásticas.

Este dia da memória, assim, deve servir tanto para uma homenagem às vítimas e aos sobreviventes, como um marco para guiar nossas ações quando as ameaças voltam a aparecer no horizonte. É fundamental levar a sério o que se diz e como se diz, pois a destruição e o horror estão diretamente associados ao uso do discurso e do texto. A catástrofe que se abateu sobre o povo judeu foi legitimada pelo antissemitismo desde muito cedo expresso por meio de palavras de ordem. O revisionismo histórico e a incapacidade de relacionar o passado com o presente estão vivos na sociedade e podem nos encaminhar para tempos muitos difíceis.

Mas é também por meio da palavra que nos fortalecemos. Ouvimos os testemunhos daqueles que já não estão entre nós e daqueles que se negam a esquecer – e me refiro a vocês, os sobreviventes, que estiveram lá e que seguem testemunhando, contando o que aconteceu, registrando a história. Muito obrigado por estarem hoje aqui conosco.

Meus amigos:

A lembrança do Holocausto é uma poderosa ferramenta educativa para sensibilizar e preparar as novas gerações – e também a sociedade em que vivemos – para trabalhar conceitos como respeito e a diversidade. Solenidades como esta, aqui e agora, estão sendo realizadas em vários estados do Brasil e em diversos países, em todo o mundo. Sua missão básica é contar e repetir essa página vergonhosa da história da humanidade, mostrar que nunca esqueceremos – e que faremos de tudo ao nosso alcance para que nunca mais aconteça nada parecido – conosco e com nenhum outro povo, minoria ou comunidade.

A compreensão sobre o que é o discurso de ódio e suas consequências, portanto, passa a ter grande relevância. O guia publicado pela Conib, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, tem como objetivo exatamente fornecer elementos para o entendimento da questão. Convido a todos vocês para que leiam o guia que está sendo distribuído hoje aqui na CIP.

Nesta área de extremos e extremistas, agrupados nas redes sociais, começam a aparecer, também por aqui, sinais preocupantes.
Atuamos, com as Federações Israelitas de vários estados, na tomada de medidas judiciais em face de incidentes como ataques a jovens usando kipás em Porto Alegre; contra o frequentador de um bar em Minas Gerais, portando uma braçadeira na forma de uma suástica; postagens antissemitas no Ceará e em Santa Catarina; apoio ao vereador Daniel Annenberg, alvo de ataque no plenário da Câmara Municipal; processo contra um ex-candidato à presidência da Repúlica, entre várias outras iniciativas. Estamos atentos e alertas.
Quando um secretário da cultura acredita que pode emular a figura e a ideias de Goebbels, um ministro de Hitler, a sociedade deve se mobilizar e se unir. Não se trata de uma questão que afeta apenas a comunidade judaica, mas toda a sociedade brasileira. A reação foi rápida e vigorosa, da representação comunitária e também, de políticos, entidades, indivíduos e de autoridades de outros países. E a demissão não tardou.

Hoje, como foi ontem e como será amanhã, teremos de lidar com a arrogância e o preconceito. Por isto, é preciso empenhar todos os esforços para que nos lembremos sempre – e para que não deixemos que o mundo se esqueça.

Estamos trabalhando, com o governo brasileiro, para que nosso país adote a definição da IHRA – Aliança Internacional de Recordação do Holocausto – sobre o antissemitismo, promovendo a filiação do Brasil àquela organização.

Depois de uma luta de muitos anos, conseguimos aprovar a obrigatoriedade do ensino do Holocausto, incluindo-o na base nacional comum curricular. Sr. Governador João Dória: neste momento, pedimos seu apoio para a implementação desta política no estado de São Paulo. O assunto foi aprovado na esfera federal, cabendo agora às secretarias de educação torná-lo uma realidade. Este é um desafio educativo fundamental, em São Paulo e em todo o Brasil.

Nossa missão é lembrar, ensinar e aprender com essa tragédia, para que possamos sonhar com um mundo melhor, onde seja inconcebível qualquer coisa semelhante ao que ocorreu na Shoah, para qualquer grupo minoritário, que pense ou viva diferente. O mundo deve ser um lugar mais digno para se viver – e a Shoah deve ser um parâmetro daquilo que a humanidade nunca mais tenha que presenciar.
Senhoras e senhores:

Nesta cerimônia no Yad Vashem, na qual estiveram presentes mais de quarenta Chefes de Estado, o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, alertou para o crescimento do antissemitismo e do “veneno do nacionalismo”, que devem ser combatidos hoje e sempre. Em suas palavras:

“Eu gostaria de poder dizer que nós alemães aprendemos com a nossa história, de uma vez por todas. Mas eu não posso dizer isso, quando o ódio está se espalhando. Eu não posso dizer isso, quando cospem em crianças judias nos pátios das escolas. Eu não posso dizer isso, quando um antissemitismo cru está envolto em supostas críticas à política israelense. E eu não posso dizer isso, senhoras e senhores quando apenas uma porta grossa de madeira impede um terrorista de direita de perpetrar um massacre, um banho de sangue, em uma sinagoga da cidade de Halle, no Iom Kipur.

Estou diante de vós e gostaria de poder dizer que a nossa memória nos tornou imunes ao mal. Sim, nós alemães lembramo-nos. Mas às vezes parece que compreendemos melhor o passado do que o presente. Suas vidas foram perdidas para o ódio desenfreado. Mas nossa recordação deles vai derrotar o abismo. E nossas ações vão derrotar o ódio”.

O Chefe de Estado alemão alertou também para as novas roupagens dos criminosos: “os maus espíritos surgem hoje com uma nova aparência, apresentando o seu antissemitismo, o seu nacionalismo, o seu pensamento autoritário com uma resposta para o futuro – como uma nova solução para os problemas do nosso tempo. Mas é o mesmo mal e (para ele) existe apenas uma resposta: nunca mais!”
Muito obrigado.