A Segunda Guerra Mundial ocorreu pelo ódio aos judeus, diz estudioso do Holocausto

A Segunda Guerra Mundial e a enorme catástrofe que causou à humanidade ocorreram “principalmente” por causa do antissemitismo, de acordo com um importante estudioso do Holocausto em Israel. De fato, Adolf Hitler lançou a guerra em grande parte para impedir que os judeus dominassem a nação alemã, disse Yehuda Bauer.

“O antissemitismo é um câncer que corrói o mundo, e a Segunda Guerra Mundial foi uma prova disso”,afirmou ele em entrevista ao Times of Israel concedida em Jerusalém na semana passada.

Bauer, 93, fará discurso em um jantar para cerca de 45 líderes de todo o mundo na noite de amanhã na residência do presidente Reuven Rivlin. O encontro marca a abertura do Fórum Mundial sobre o Holocausto e o 75º aniversário da libertação de Auschwitz. Os únicos outros dois palestrantes no jantar serão o próprio Rivlin e o rei da Espanha.

No evento, Bauer falará sobre um memorando secreto que Hitler escreveu a Hermann Goering em agosto de 1936, no qual falou sobre a necessidade de a Alemanha estar pronta para a guerra dentro de quatro anos. Caso contrário, argumentou Hitler, o bolchevismo judaico tomará a nação alemã.

“Uma vitória do bolchevismo sobre a Alemanha não levaria a um Tratado de Versalhes, mas à destruição final, de fato, do povo alemão”, escreveu Hitler.

Essa crença foi agravada pelo discurso de Hitler realizado no Reichstag em 30 de janeiro de 1939, disse Bauer durante a entrevista.

“Se os financiadores judeus internacionais dentro e fora da Europa conseguirem envolver as nações mais uma vez em uma guerra mundial”, avaliou Hitler, “então o resultado não será a bolchevização da terra e, portanto, a vitória dos judeus, mas a aniquilação pela raça judaica na Europa!”

“Em outras palavras”, explicou Bauer, os judeus capitalistas que governam o Ocidente seriam (na visão de Hitler) bolcheviques cuja ideia era criar uma guerra mundial para que eles pudessem governar o mundo inteiro”. Essa era uma crença profundamente enraizada. E esse argumento, segundo ele, foi uma das principais razões para o início da Segunda Guerra Mundial, porque isso identifica claramente o objetivo – a ameaça de aniquilação do povo alemão e, portanto, a preparação para a guerra.

A Segunda Guerra Mundial, que durou de 1939 a 1945, acabou causando 29 milhões de vítimas não-judias, além das vítimas do Holocausto, disse Bauer, professor emérito de história e estudos do Holocausto na Universidade Hebraica de Jerusalém.

“Essas 29 milhões de pessoas foram mortas, provavelmente, por causa do antissemitismo – e não por causa dos judeus, mas, sim, pelo ódio aos judeus, o que significa que o antissemitismo é um câncer que devora a sociedade”.

A maioria das estimativas de baixas na Segunda Guerra Mundial – geralmente reconhecidas como o conflito militar mais mortal da história – são muito mais altas, em torno de 70 a 85 milhões.

Sob o título “Lembrando o Holocausto, combatendo o antissemitismo”, o Fórum Mundial sobre o Holocausto deste ano começará com o jantar na residência de Rivlin, durante o qual Bauer terá 11 minutos para transmitir sua mensagem.

Na quinta-feira, o principal evento do fórum acontecerá no centro memorial do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, e incluirá discursos de líderes e representantes dos EUA, Rússia, França, Grã-Bretanha e Alemanha.

No contexto de uma polêmica entre Varsóvia e a Rússia sobre o início da Segunda Guerra Mundial, o fato de o presidente russo Vladimir Putin ter sido convidado para discursar no encontro, mas não seu colega polonês, Andrzej Duda, causou algum mal-estar.
Uma nota oficial do presidente divulgada no domingo explica que Duda foi convidado a participar dos eventos desta semana e que “várias ideias foram discutidas”, mas nenhum acordo foi alcançado.

“É lamentável que não tenha sido encontrado um acordo para a participação dos presidentes da Rússia e da Polônia no evento”, disse Bauer, recusando-se a falar mais sobre a polêmica.

Nascido na Checoslováquia, Bauer chegou a Israel ainda adolescente antes do início da Segunda Guerra Mundial. Ele se juntou à milícia pré-estatal de Palmach e, em maio de 1948, retornou a Israel de seus estudos no País de Gales para lutar na Guerra da Independência. Ele rapidamente se tornou um dos principais historiadores de Israel, recebendo o Prêmio Israel em 1998 por sua pesquisa sobre a “história do povo judeu”.

Bauer, que também atua como consultor acadêmico de Yad Vashem, tem sido um crítico do que ele chama de “distorção do Holocausto” por países da Europa Central e Oriental que glorificam os colaboradores nazistas como heróis nacionais e minimizam o papel de seus cidadãos em crimes contra judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

“Acho que não é a hora ou lugar de levantar a questão da distorção”, insistiu Bauer, que também atua como presidente honorário da Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto. “Porque o tema do evento é lembrar o Holocausto e o 75º aniversário da libertação de Auschwitz e discutir formas de combater o antissemitismo”.

Após o evento, podemos falar sobre a distorção do Holocausto em certas partes da Europa, acrescentou. “Mas antes de tudo, a libertação (de Auschwitz) e o Holocausto devem ser lembrados”.

Vários governos distorcem o passado do Holocausto em seus países, incluindo Lituânia, Polônia e Hungria, disse Bauer, mas existem “minorias de vozes também em outros lugares”, onde alguns insistem que os alemães, e não eles mesmos, foram responsáveis por toda a violência contra os judeus.

A história da cumplicidade do Holocausto é muito complicada, reconheceu o historiador. Embora seja um fato inegável que muitos judeus poloneses foram mortos por seus compatriotas não judeus, “havia alguns heróis entre eles” que não apenas lutaram contra os nazistas, mas contra seus compatriotas que entregavam judeus.

Refletindo sobre o atual aumento global do antissemitismo, Bauer observou que o ódio aos judeus existe desde os tempos helenísticos, embora ele tenha enfatizado que se limita às sociedades monoteístas. “Não há antissemitismo na China ou na Índia, apenas um tipo de antissemitismo positivo – a ideia de que os judeus são muito importantes e que queremos ter boas relações com eles”, disse ele.

O ódio aos judeus que existe hoje no Ocidente combina o “clássico antissemitismo” com um novo fenômeno político que tem a ver com o declínio dos direitos no mundo desenvolvido, segundo Bauer.

“Isso cria uma necessidade para a imigração”, argumentou. “A população está envelhecendo e, se você deseja manter seu padrão de vida, precisa de alguém para trabalhar para você, então precisa de imigração.”

A migração em massa da África, Oriente Médio e América Latina para a Europa e América do Norte “cria uma reação de parte das populações que veem sua cultura, sua língua, suas tradições sendo afetadas pela presença dos novos imigrantes”, afirmou. “Isso cria um ressurgimento do sentimento nacionalista”.

Em alguns países, isso assumiu “formas radicais”, acrescentou Bauer. “O nacionalismo tem que encontrar um inimigo. O inimigo tradicional são os judeus. Esse é o pano de fundo da ascensão do antissemitismo contemporâneo. É claro que existem razões adicionais, específicas em diferentes países”.