“Adão, onde estás? Onde estás, ó homem?”, pergunta o papa, no Yad Vashem, em Jerusalém


Papa Francisco no Yad Vashem. Foto: Divulgação.

“Onde estás, ó homem? Onde foste parar? Neste lugar, memorial do Shoah, ouvimos ressoar esta pergunta de Deus: Adão, onde estás?”. Leia o discurso completo do papa Francisco.

Papa Francisco visitou nesta segunda-feira, 26 de maio, o Museu do Holocausto – Yad Vashem, em Jerusalém.  Depois de ouvir as histórias de vários sobreviventes do Holocausto, ele falou sobre a catástrofe que se abateu sobre o povo judeu. Leia o discurso abaixo e veja trechos neste vídeo.

 

Adão, onde estás? (cf. Gen 3, 9).

Onde estás, ó homem? Onde foste parar?Neste lugar, memorial do Shoah, ouvimos ressoar esta pergunta de Deus: “Adão, onde estás?”.

Nesta pergunta, há toda a dor do Pai que perdeu o filho.O Pai conhecia o risco da liberdade; sabia que o filho teria podido perder-se… mas talvez nem mesmo o Pai podia imaginar uma tal queda, um tal abismo!

Aquele grito “onde estás?” ressoa aqui, perante a tragédia incomensurável do Holocausto, como uma voz que se perde num abismo sem fundo…

Homem, quem és? Já não te reconheço.Quem és, ó homem? Quem  te tornaste? De que horrores foste capaz? Que foi que te fez cair tão baixo?

Não foi o pó da terra, da qual foste tirado. O pó da terra é coisa boa, obra das minhas mãos.Não foi o sopro de vida que insuflei nas tuas narinas. Aquele sopro vem de Mim, é algo muito bom (cf. Gen 2, 7).

Não, este abismo não pode ser somente obra tua, das tuas mãos, do teu coração… Quem te corrompeu? Quem te desfigurou?Quem te contagiou a presunção de te apoderares do bem e do mal?

Quem te convenceu que eras deus? Não só torturaste e assassinaste os teus irmãos, mas ofereceste-los em sacrifício a ti mesmo, porque te erigiste em deus. Hoje voltamos a ouvir aqui a voz de Deus: “Adão, onde estás?”

Da terra, levanta-se um gemido submisso: Tende piedade de nós, Senhor!

Para Vós, Senhor nosso Deus, a justiça; para nós, estampada no rosto a desonra, a vergonha (cf. Bar 1, 15). Veio sobre nós um mal como nunca tinha acontecido sob a abóbada do céu (cf. Bar 2, 2).

Agora, Senhor, escutai a nossa oração, escutai a nossa súplica, salvai-nos pela vossa misericórdia. Salvai-nos desta monstruosidade.

Senhor, todo-poderoso, uma alma, na sua angústia, clama por Vós. Escutai, Senhor, tende piedade! Pecamos contra Vós. Vós reinais para sempre (cf. Bar 3, 1-2).

Lembrai-Vos de nós na vossa misericórdia. Dai-nos a graça de nos envergonharmos daquilo que, como homens, fomos capazes de fazer, de nos envergonharmos desta máxima idolatria, de termos desprezado e destruído a nossa carne, aquela que Vós formastes da lama, aquela que vivificastes com o vosso sopro de vida.Nunca mais, Senhor, nunca mais!

“Adão, onde estás?” Eis-nos aqui, Senhor, com a vergonha daquilo que o homem, criado à vossa imagem e semelhança, foi capaz de fazer.

Lembrai-Vos de nós na vossa misericórdia!

Fonte: Vatican News.