Antissemitismo bate novo recorde no Reino Unido com alta de 7%

O British Community Security Trust (CST) – organização que monitora o antissemitismo e fornece segurança para a comunidade judaica na Grã-Bretanha – afirmou que registrou 1.805 incidentes de ódio antissemita em todo o país em 2019, o maior total já registrado em um ano.

Este é o quarto ano consecutivo em que o CST registra recordes de casos antissemitas, com um aumento de 7% em relação aos 1.690 incidentes em 2018. A organização registra incidentes antissemitas desde 1984.

O relatório citou 566 casos adicionais que foram relatados ao CST, mas não foram considerados antissemitas.

“2019 foi outro ano difícil para os judeus britânicos e não é surpresa que os incidentes antissemitas registrados cheguem a recorde”, disse o executivo-chefe da CST, David Delew. “Está claro que a mídia social e a política convencional são ambientes onde o antissemitismo e o racismo precisam ser erradicados, para que a situação melhore no futuro”.

Quase dois terços dos incidentes registrados ocorreram na Grande Londres (947 casos) e na Grande Manchester (223), distritos que abrigam as maiores concentrações de residentes judeus. Enquanto os incidentes aumentaram no geral, na área de Manchester, o número total de incidentes caiu 11%.

Pelo segundo ano consecutivo, uma média de mais de 100 incidentes antissemitas foram registrados todos os meses do ano. Os totais mensais mais altos em 2019 foram em dezembro (184 incidentes) e em fevereiro (182), dois meses em que houve intensos debates sobre denúncias de antissemitismo no Partido Trabalhista – em dezembro devido às eleições e em fevereiro, depois que vários deputados trabalhistas deixaram o partido para formar outro grupo.

No total, em 2019, o CST registrou 224 incidentes antissemitas relacionados ao Partido Trabalhista – um aumento de 148 desses incidentes em 2018.

Os trabalhistas enfrentam o antissemitismo desde que seu líder de extrema-esquerda Jeremy Corbyn foi eleito chefe do partido em 2015. Várias denúncias de descaso ou omissão na apuração dos casos pelo partido foram feitas, levando as autoridades a designarem uma comissão para investigar a situação.

Corbyn sofreu fortes pressões – inclusive dentro do partido – por permitir que o antissemitismo se espalhasse no partido e por se recusar a adotar na íntegra a definição de antissemitismo da Aliança Internacional de Lembrança do Holocausto (IHRA) no novo código de conduta do Partido Trabalhista.

Corbyn chegou a descrever os grupos terroristas Hamas e Hezbollah como “amigos”; defendeu a instalação de um mural antissemita no leste de Londres e costumava se associar a grupos antissemitas, terroristas e negadores do Holocausto.

Corbyn prometeu renunciar após a eleição geral de dezembro, na qual o Partido Trabalhista enfrentou a pior derrota desde 1935. Alguns membros do Partido Trabalhista culparam a perda pela “repetida falta de vontade de Corbyn em enfrentar a mancha do antissemitismo”. E, posteriormente, vários candidatos à liderança do partido assinaram uma compromisso de “combater o antissemitismo no partido”.

Segundo o relatório do CST, cerca de 39% dos casos (697) ocorreram online – principalmente nas mídias sociais – marcando um aumento de 82% em relação a 2018. Essa é considerada a principal causa do aumento geral nos casos de antissemitismo.

O CST disse que o número real de casos online era muito maior. As campanhas direcionadas a vítimas individuais geralmente envolvem dezenas de contas de mídia social e centenas ou até milhares de postagens, mas cada campanha é registrada como um único incidente.

Incidentes envolvendo mídias sociais são registrados pelo CST apenas se tiverem sido denunciados pela vítima ou por uma testemunha, se o conteúdo mostrar evidências de linguagem, motivação ou teor antissemita, e se o autor, ou a vítima, estiverem sediados no Reino Unido.

Em agosto passado, o CST emitiu um relatório alegando que um pequeno número de contas de mídia social online impulsionou o discurso sobre antissemitismo no Partido Trabalhista britânico.

Tal ódio não se limitou apenas à internet. O CST registrou 158 ataques antissemitas violentos ao longo de 2019, um aumento de 25% em relação ao ano anterior – a maior contagem anual desses incidentes já registrados pelo grupo.

Quase metade desses incidentes ocorreu em apenas três municípios: Barnet (29 casos), Hackney (28) e Salford (15). De acordo com o CST, houve 88 incidentes de danos e profanação de propriedades judaicas, 98 ameaças antissemitas diretas e 1.443 incidentes de comportamento abusivo, uma categoria que inclui ofensas verbais, grafites antissemitas e constrangimento pelas mídias sociais com mensagens de ódio. Também houve 18 casos de folhetos ou e-mails antissemitas enviados em quantidade.

Embora a maioria dos incidentes tenha ocorrido nas regiões da Grande Londres e Manchester, também houve um número significativo de incidentes em outros locais, com 76 casos em Hertfordshire, 58 na Northumbria, 56 em Merseyside, 38 em West Yorkshire, 28 na Escócia, 27 nas Midlands Ocidentais e 16 no País de Gales.

“É chocante ver outro aumento de abusos repugnantes contra a comunidade judaica”, disse o secretário do Interior, Priti Patel.
“Precisamos fazer muito mais para combater o antissemitismo e a intolerância que isso cria em toda a sociedade. Como secretário do Interior, estou pressionando por uma maior colaboração, tanto no governo quanto no policiamento, nos tribunais e nos grupos comunitários, para remover essa mancha vergonhosa em nossa sociedade”.

“Quem poderia imaginar que 75 anos após o fim do Holocausto, o antissemitismo estaria em ascensão no Reino Unido e em toda a Europa”, concordou o secretário das Comunidades, Robert Jenrick. “Não há lugar para o antissemitismo em nossa sociedade. É um flagelo para todos nós e o alto número recorde de incidentes registrados em 2019 é completamente inaceitável”, destacou.