Após aceno dos EUA ao Irã, Israel alerta para os riscos da retomada do acordo nuclear

Israel alertou os Estados Unidos de que podem estar ajudando o Irã a desenvolver um arsenal de armas nucleares se retomarem o acordo de 2015 com Teerã.

“Israel continua comprometido em evitar que o Irã obtenha armas nucleares e sua posição sobre o acordo nuclear não mudou”, disse o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

“Israel acredita que voltar ao antigo acordo abrirá o caminho para que o Irã obtenha um arsenal nuclear. Israel está em contato próximo com os Estados Unidos sobre este assunto”, acrescentou.

Desde o início, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu se opôs ao Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) de 2015 – como é conhecido o acordo com o Irã – que foi assinado entre Teerã e as seis potências mundiais – EUA, França, Alemanha, Reino Unido, Rússia e China.

O ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump havia desistido do acordo, que fora negociado durante o mandato do ex-presidente Barack Obama.

O governo do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, já declarou formalmente sua intenção de buscar um retorno ao acordo.

O governo Biden admitiu nesta quinta-feira que está disposto a retomar o pacto de 2015, desde que o Irã cumpra o que foi acordado.
Teerã reagiu friamente à iniciativa americana, informada a alguns parceiros do tratado em uma videoconferência entre o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e ministros das Relações Exteriores do Reino Unido, da França e da Alemanha.

Blinken reiterou a posição da gestão de Joe Biden de retornar ao acordo, se o Irã cumprir sua parte – que inclui diminuir em dois terços as centrífugas de enriquecimento de urânio, reduzir em 98% o estoque do material, impedir o uso de plutônio e limitar o funcionamento das instalações nucleares, sujeitas a inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica.

O secretário americano afirmou que voltar ao acordo “é uma conquista fundamental da diplomacia multilateral”, segundo comunicado do Departamento de Estado dos EUA.

“Quando as sanções forem suspensas, nós então reverteremos imediatamente todas as medidas corretivas. Simples”, disse o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, no Twitter.

Destacando a urgência de uma solução diplomática para o impasse, um alto funcionário iraniano disse à Reuters que Teerã estava considerando a oferta de Washington de falar sobre a retomada do acordo.

“Mas primeiro eles devem voltar ao acordo. Depois, no âmbito do acordo de 2015, poderá ser discutido um mecanismo para sincronizar as etapas”, disse o funcionário.

Washington disse na quinta-feira que estava pronto para conversar com o Irã sobre o retorno de ambas as nações ao acordo nuclear que visa impedir Teerã de adquirir armas nucleares.

Teerã estabeleceu um prazo até 23 de fevereiro para que Washington comece a reverter as sanções, caso contrário, diz, dará seu maior passo até agora para violar o acordo – proibindo as inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) às instalações nucleares do país.

Os Estados Unidos e as partes europeias do acordo instaram o Irã a se abster da adoção dessa medida e reiteraram suas preocupações com as recentes ações de Teerã para produzir urânio enriquecido até 20% e urânio metálico.

“Temos que implementar a lei. A outra parte deve agir rapidamente e suspender essas sanções injustas e ilegais se quiserem que Teerã honre o acordo”, disse a autoridade.

As inspeções de curto prazo da AIEA, que podem ir além das instalações nucleares declaradas do Irã, são exigidas pelo “Protocolo Adicional” da AIEA que o Irã concordou em honrar no acordo.

Mais cedo, Zarif disse em uma entrevista postada em um site do governo que os Estados Unidos não só não cumpriram com suas obrigações, como também mantêm a “pressão máxima fracassada” de Trump, apesar de afirmar que estão prontos para retomar o acordo nuclear.

“Os europeus devem observar que a pressão sobre o Irã não funciona, nem comentários inúteis de qualquer natureza”, disse Zarif, ao acrescentar: “Assim que virmos medidas dos Estados Unidos e da Europa no cumprimento de suas obrigações, reagiremos imediatamente e retornaremos aos nossos compromissos”

Em Londres, o ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, James Cleverly, reiterou que o Irã precisa retomar o cumprimento do acordo, acrescentando que o Ocidente não deve enviar sinais de que está preparado para ignorar as violações do acordo por Teerã.

Biden disse que usará a retomada do acordo nuclear como uma oportunidade para um acordo mais amplo que pode restringir o desenvolvimento de mísseis balísticos do Irã e as atividades regionais.

Teerã descartou negociações sobre questões de segurança mais amplas, como o programa de mísseis do Irã.

Foto: REUTERS/KEVIN LAMARQUE/FILE