Arnaldo Niskier fala sobre sua formação judaica muito forte e diz que já sofreu preconceito na escola por ser judeu

O escritor, jornalista, professor e membro da Academia Brasileira de Letras, Arnaldo Niskier falou à CONIB sobre a contribuição dos judeus à sociedade brasileira, antissemitismo, sobre o que o Brasil pode aprender – “e já está aprendendo” – com Israel em áreas de educação, tecnologia, biotecnologia, inteligência artificial e política ambiental e climática e elogiou o papel da CONIB como órgão representativo da comunidade judaica e por iniciativas, como a de promover a visita ao Estado judeu de lideranças políticas e empresariais para conhecerem melhor o funcionamento das instituições israelenses.

“A contribuição dos judeus à sociedade maior com relação à educação está na religião, nos nossos livros. Tudo o que valorize a educação afina com os princípios do judaísmo de um modo geral. E eu tenho dedicado a minha vida a essa questão com muito carinho, porque tenho uma formação judaica muito forte e eu prezo muito essa questão”.

“O Brasil tem aprendido muito com Israel em diferentes áreas, como tecnologia, biotecnologia, inteligência artificial e política ambiental e climática. Até mesmo o presidente fala muito sobre o que aprendeu com a ciência, tecnologia e cultura do Estado de Israel. E esse é um aprendizado permanente porque esse aprendizado está à disposição dos interessados. Israel tem um desenvolvimento cientifico e tecnológico de primeiríssima ordem e um fato importante de se destacar é que o Estado judeu tem quase cem prêmios Nobel – o único país do mundo a alcançar essa marca. E essa é a comprovação da qualidade que a ciência israelense representa para o mundo. E nós, como judeus ficamos muito felizes com isso, porque é a comprovação de que se valoriza muito a educação, ciência e tecnologia no Estado de Israel, apesar da sua pouca idade”,

Sobre a iniciativa da CONIB em promover a visita de líderes políticos e empresariais a Israel, Niskier disse que acredita que isso deve trazer bons resultados a médio e longo prazos. “Porque esse é o caminho: mostrar como podemos ter bons resultados investindo em ciência e tecnologia, principalmente”. “E isso tem sido feito (pela CONIB) com muita competência”.

Niskier falou de sua amizade com o médico, jornalista e escritor Pedro Bloch (1914-2004). “Eu tive o privilégio de conviver com Pedro Bloch. Ele foi não apenas um dos maiores teatrólogos brasileiros, mas também escritor de primeiríssima qualidade, especialmente com a série de livros ‘Criança diz cada uma’. Ele colecionava fatos relativos ao comportamento das crianças e eu acompanhei isso de perto porque ele foi padrinho de meu filho, Celso”. “Tive com ele uma relação fraternal que mantive até a sua morte, em 2004, e que me deu um prazer imenso, porque Pedro Bloch foi um dos nomes mais importantes da área cultural do nosso país. Trabalhei 34 anos na rede Manchete e tive o prazer de conviver com a família e especialmente com Pedro Bloch não apenas no seu trabalho literário, que era muito intenso, mas também no seu trabalho científico. Pedro Bloch se destacava nessas áreas com muita competência”.  Niskier conta que começou a trabalhar na Manchete aos 16 anos, em programas esportivos e depois de cerca de dois anos passou a chefe de reportagem da revista Manchete, onde atuou por 8 anos, “sempre mantendo uma relação muito próxima da família Bloch, particularmente com Pedro Bloch, que era meu compadre, e com Adolfo Bloch, que era o nosso comandante e que foi uma pessoa excepcional com características extraordinárias”. “Tudo o que aprendi no jornalismo foi ao lado da família Bloch, que teve presença marcante na história cultural do país e que me proporcionou a oportunidade de crescer no jornalismo. Com eles (a família Bolch) tive a oportunidade de viver uma realidade extraordinária para um jovem judeu da zona norte do Rio de Janeiro. Os Blochs eram gráficos e tipógrafos, como se diziam, que vieram da Rússia, da Ucrânia, se instalaram no Rio de Janeiro e aqui fizeram carreira – uma carreira muito bonita, que marcou presença importante na cultura brasileira”

Sobre judaísmo, Niskier lembra dos pais, religiosos. “Tenho uma família religiosa: meus pais cumpriam todos os deveres nas datas religiosas judaicas, com muita intensidade e amor ao judaísmo. Eu não estudei em escola israelita, mas coloquei meus três filhos e depois as netas para estudarem em escola israelita, na Eliezer Steinbarg, em Laranjeiras, que foi onde todos estudaram e apreenderam as extraordinárias qualidades e informações a respeito da religião judaica. Foi um aprendizado do qual eu também me beneficiei, porque adquiri um maior conhecimento para o meu exercício do judaísmo. Isso me deu muita força e uma qualidade maior no convívio com o judaísmo de um jeito que eu jamais poderia supor que viesse a acontecer”.

O acadêmico conta uma história curiosa, sobre ocupar a cadeira de número 18, na Academia Brasileira de Letras. O número 18, em hebraico, carrega o significado “chai”, que em português quer dizer vida.

“Tive o privilégio de entrar para a academia na cadeira número 18. E uma vez o Adolfo Bloch recebeu a visita de um rabino de São Paulo e disse a ele: ’Veja só que coincidência: o Arnaldo entrou para a Academia Brasileira de Letras na cadeira 18’. No que o rabino respondeu: ‘Senhor Bloch: para Deus não há coincidências’. E essa frase me marcou muito. Estou na Academia há 34 anos gozando do privilégio de conviver com aquelas figuras imortais, alguns dos quais já se foram, mas são todos muito importantes para a cultura brasileira. Atualmente eu tenho podido exercer a minha atividade cultural e literária, sem esquecer jamais da minha procedência, a minha origem judaica”.

Ao contrário dos Bloch, que vieram de Kiev (Ucrânia), os pais de Niskier eram poloneses. “Em comum tínhamos o respeito pelos valores judaicos que nós professávamos o tempo todo, especialmente nos feriados judaicos, que eram muito respeitados. Isso nos deu uma formação religiosa bastante acentuada que eu prezo muito”.

Como judeu, foi alvo de preconceito. “Antissemitismo é algo deplorável e existir no tempo presente manifestações antissemitas é quase inacreditável, mas isso existe e temos que cuidar disso com muita atenção. Já sofri antissemitismo, sobretudo quando estudei numa escola chamada Vera Cruz, na Tijuca. Passei por momentos marcantes, porque eu era chamado de alemão, de estrangeiro. Isso tudo atingiu muito a mim e a minha irmã, Raquel, que também sofreu o mesmo tipo de preconceito. Mas tivermos força para resistir. Felizmente, o Brasil é um país de índole democrática, que rejeita esse tipo de atitude e, portanto, não é insensível na condenação a atos antissemitas”.

Ele falou também sobre o trabalho da CONIB, que busca preservar os valores do judaísmo e que destaca como essencial, e também como preservou a continuidade destes valores em sua família: “A CONIB tem uma preocupação com a religião, com os valores do judaísmo. E eu acho isso essencial para as novas gerações. Não podemos deixar de pensar na garotada, os jovens, aqueles que nas escolas professam o judaísmo, com muito amor, com muita devoção. Isso é fundamental para a preservação dos nossos valores judaicos e nós temos que cuidar disso com muito carinho. Eu tenho feito isso com meus filhos e minhas netas.

Foto: Arquivo pessoal.