Arquivo Pessoal

Benjamin Back, um ‘judeu da gema’

 

O apresentador esportivo Benjamin Back abre o celular e aproxima o aparelho da tela do computador. O que se vê é uma foto de um passaporte alemão, com a águia e a suástica nazistas estampadas, assim como uma imensa letra J, vermelha. O documento pertencia ao pai dele, que conseguiu fugir, da Alemanha de Hitler. “ É pesado, é triste”, comenta o apresentador do SBT. “Meu pai era alemão, nascido em Berlim e chegou , quando criança, a ver Hitler de perto. Conseguiu fugir com meus avós, uma tia e uma prima. O resto, mataram todos”. É falando sobre os pais que Benja, como é chamado por todos, inicia a narrativa da sua trajetória para o quadro “Histórias Reais” da Conib.

A família paterna de Benja, não conseguiu entrar logo no Brasil e seguiu para a Bolívia. Já a família materna deixou a Polônia fugindo dos nazistas e se instalou em Belém, Pará. A mãe era pequena quando chegou ao Brasil. Acaba que pai e mãe se conheceram em São Paulo, casaram e tiveram três filhos. “Sou filho de um alemão e uma polonesa, nada mais jewish que isso”, ele conta, com um sorriso. Benja, filho de um religioso,teve uma infância judaica. Estudou em colégio judaico, frequentou a Hebraica, hábito que mantém até hoje, passou as férias no Guarujá. Hoje, coloca tefelin todo dia. Celebra as festas judaicas, não come carne de porco e é a favor da tradição. Fez questão de dar esta educação . Os dois estudaram em escola judaica. “Fiz e faço questão que meus filhos estudem em colégio judaico. Foi algo que eu tive. Que a minha mulher teve. Estamos passando uma vida inteira e a gente tem os amigos que eram da escola. E isso é difícil de ter em outros lugares. Com o meu filho mais velho é o mesmo. Ele está com 19 anos. Os amigos dele são os mesmos de quando ele tinha 4, 5 anos. Com o menor é a mesma coisa. Tem aquilo de jogar na Hebraica, os amigos, a época dos bar-mitzvas, Se você não está em uma escola judaica, não vive isso. E tudo isso é muito bacana”.

Quando trabalhava no programa de rádio Estádio 97, Back que é economista de formação e migrou para o jornalismo por um acaso do destino, viu no programa, que era um sucesso, a chance de divulgar o judaísmo. Queria abordar o assunto, explica, de uma forma diferente daquela que as pessoas que não são judias veem. “De que judeu só pensa em dinheiro, que não se mistura…”. “Eu pensei: o judeu famoso americano nunca  escondeu (que é judeu), o Woody Allen, o Larry David, o Adam Sendler, o Seinfeld. Não que eu esteja me comparando a eles. Pelo amor de Deus, eu não entro nem na mesma frase. Mas eu pensei que vou fazer o mesmo que esses caras. Porque o judeu que tá na mídia ele tem sim que falar, divulgar e se posicionar. “Eu sempre fiz questão de falar que sou judeu”.

E optou por uma linha mais pop. Conta do cachorro labrador que ficou famoso em São Paulo, porque  falava dele o tempo todo. Popularizou o nome do cão, que atendia por Ingale, que significa menino em iídiche. Cobriu uma Macabíada em Israel e fez entradas ao vivo para o Brasil.

Também enfrentou preconceito. Uma vez, por exemplo, ouviu “até que para um judeu, você é legal” .No ano passado, conta, sofreu o pior ataque, de um internauta, e recebeu apoio da Federação Israelita do Estado de São Paulo, Fisesp.

O trabalho de apresentar o judaísmo ou Israel da forma que acredita, é independente.  “Eu faço tudo isso sozinho, sempre fiz”. Quando o filho fez bar-mitzvá no Muro das Lamentações, colocou o país na suas redes sociais. Mostrava o que via: o músico de rua tocando Led Zeppelin, a praia de Tel Aviv à noite, a praça agitada da cidade. Recebeu uma série de comentários de pessoas surpresas com as belas imagens do país. Trabalhou para que a Fox transmitisse o Shalom Game, um jogo amistoso com estrelas do futebol brasileiro em Haifa, em 2019, que, ele frisa, mostrou um Israel que as pessoas aqui no Brasil não faziam ideia.

Benja defende que deve se falar sobre Israel e judaísmo para os jovens.  “É com eles que se tem que falar. Se a gente não falar para o jovem, nunca vai mudar lá na frente”, afirma, salientando que é preciso falar na linguagem deste público.

Antes de iniciar carreira no jornalismo esportivo, Benja passou maus bocados nos negócios. E ele se emociona ao citar a família Szajman, lembrada com carinho e gratidão. Eles ajudaram quando Back faliu e ficou todo endividado. “Eu nunca mais esqueci”. Com emprego ofercido pelos Szajman, Benja começou a se reerguer. De lá aceitou o convite de um diretor da VR que  foi montar um negócio que era de futebol. Era o início da carreira nos esportes.

Entre um sanduíche de pastrami com pepino em Nova York, um falafel em uma birosca nas ruas de Israel, um prato de varenikes e uma ida ao espetáculo “Um Violinista no Telhado” falado em iídiche, nos Estados Unidos, Benja se define como um judeu autêntico, um judeu da gema.