Biden, Harris e suas famílias estão fazendo história judaica no novo governo dos EUA

Joe Biden e Kamala Harris tomam posse hoje fazendo história – incluindo a história judaica- como presidente e vice-presidente dos Estados Unidos respectivamente.

Alguns fatos históricos são óbvios: Biden será a pessoa mais velha a ocupar a Casa Branca e Harris será a primeira mulher descendente do Sul da Ásia a servir como vice-presidente.

Os três filhos de Biden são casados com judeus, tornando o novo presidente avô de vários netos judeus. (A primeira esposa de Biden e sua filha morreram em um acidente de carro em 1972.)

O marido de Harris, Doug Emhoff, é judeu, e o casal celebra feriados judaicos juntos. O casamento em 2014 contou com a tradicional cerimônia judaica, e os dois filhos de Emhoff de seu primeiro casamento referem-se a Harris como “Momala” – uma mistura de Kamala com a palavra iidish “mamaleh”.

No Chanucá passado, Harris e Emhoff postaram um vídeo no Twitter do casal acendendo a menorá.

“Eu amo Chanucá porque realmente se trata de luz e de levar luz onde há escuridão”, disse Harris. “E é uma celebração de, sempre, tikkun olam (reparar o mundo), que é sobre lutar por justiça e por dignidade de todas as pessoas, e é sobre dedicação ao próximo”.

As famílias judias mistas que liderarão a nova administração dos Estados Unidos não são algo incomum – elas são emblemáticas na história dos judeus americanos.

A maioria dos judeus americanos se casa com parceiros de outras religiões – 58% de acordo com a pesquisa nacional mais recente, realizada em 2013 pelo Pew Research Center. No entanto, em vez de abandonarem o judaísmo, esses casais inter-religiosos estão cada vez mais criando seus filhos como judeus, ou celebrando tradições judaicas ao lado de outras religiões. Cerca de 45% dos judeus casados estão criando seus filhos na religião judaica, de acordo com o Pew, contra 28% em 1990.

Enquanto há meio século os judeus que se casaram com outras pessoas eram vistos como uma perda para a comunidade judaica, hoje as famílias inter-religiosas são parte integrante da comunidade judaica americana. No movimento reformista, a maior denominação religiosa judaica dos Estados Unidos, os rabinos costumam realizar casamentos inter-religiosos, pois muitas sinagogas têm não-judeus como membros e certos papéis rituais durante os serviços da sinagoga estão abertos a não-judeus.

O movimento Reconstrucionista, que é a menor das denominações judaicas liberais da América com cerca de 100 sinagogas afiliadas, fez história em 2015 quando retirou a proibição de aceitar estudantes filhos de casamentos mistos para a escola rabínica do movimento.

No movimento conservador, mais de um quarto de todas as casas incluem um membro da família não judeu, de acordo com a pesquisa do Pew. Mesmo entre muitos judeus ortodoxos, tornou-se mais comum ter uma abordagem acolhedora em relação aos casais inter-religiosos na esperança de que um cônjuge não judeu acabe se convertendo.

Da mesma forma, as atitudes predominantes dos americanos em geral em relação aos judeus se tornaram acolhedoras com o tempo. Nas décadas de 1950 e 60, grandes grupos de americanos desdenhavam os judeus de uma forma ou de outra: em 1958, apenas 62% dos americanos disseram que estariam dispostos a votar em um candidato político judeu mesmo que bem qualificado, em comparação com 91% em 2015, e uma pesquisa de 1964 revelou que 43% dos americanos responsabilizavam os judeus pela morte de Jesus, em comparação com 26% em 2004.

Embora 2019 tenha registrado o maior aumento em 40 anos de incidentes antissemitas nos Estados Unidos, é comum famílias com membros não judeus expressarem orgulho por seus parentes judeus.

Biden, que é católico, é um exemplo disso. “Eu sou o único católico irlandês que você conhece que teve seu sonho realizado porque sua filha se casou com um cirurgião judeu”, Biden brincou sobre seu genro judeu, Howard Kerin, em um evento político em Ohio em 2016.

Kerin, um médico, casou-se com a filha mais nova de Biden, Ashley, em uma cerimônia inter-religiosa em 2012 oficiada por um padre católico romano e um rabino reformista, Joseph M. Forman.

“Uma ketubá foi assinada. A cerimônia ocorreu sob uma linda huppah, feita de ramos naturais com uma cobertura de pano”, disse Forman, rabino de uma congregação de Nova Jersey, Or Chadash, ao Forward, referindo-se ao contrato de casamento tradicional e ao dossel de casamento. “A cerimônia de casamento começou com o tradicional baruch haba e incluiu a bênção sacerdotal e a sheva brachot. O noivo pisou em um copo no final”.

O filho de Biden, Beau, que morreu de câncer em 2015, também se casou com uma judia: Hallie Olivere, cuja mãe judia Biden conhecia desde sua infância. Em um evento de 2015 em Delaware, Biden brincou que ele tinha uma queda pela mãe de Olivere quando criança.

“Eu era o garoto católico. Ela era a garota judia. Eu ainda tentei. Não cheguei a lugar nenhum”, disse Biden.

O segundo filho de Biden, Hunter, recentemente se casou pela segunda vez – desta vez com Melissa Cohen, uma documentarista judia da África do Sul. Poucos dias após o encontro, Hunter Biden fez uma tatuagem “Shalom” para combinar com a que Cohen tinha. O casal teve seu primeiro filho, nascido em Los Angeles, em março passado. Isso elevou o número de netos de Biden com pais judeus para três, somando-se aos dois filhos de Beau e Hallie.

Biden não é o primeiro presidente dos Estados Unidos com filho casado com judeu – essa distinção pertence a Donald Trump, cuja filha Ivanka foi convertida por um rabino ortodoxo antes de se casar com seu marido judeu, Jared Kushner, em 2009. O casal está criando seus três filhos como judeus, observam regularmente o Shabat, frequentam sinagogas ortodoxas e enviam seus filhos para a escola judaica.

Chelsea Clinton, a única filha do ex-presidente americano Bill Clinton e de Hillary Rodham Clinton, casou-se com um judeu, Marc Mezvinsky, em 2010, uma década depois que seu pai deixou o cargo. A cerimônia inter-religiosa foi co-oficiada por um rabino e um ministro e incluiu uma huppah e a recitação do sheva brachot, as sete bênçãos do casamento. O casal tem três filhos.

Chelsea Clinton se identifica como metodista, mas se tornou uma crítica declarada do antissemitismo. Respondendo há dois anos a um comentário online que escreveu que ela “nem mesmo é judia, ela é apenas feia”, Clinton respondeu: “Oi Adam – você está certo, eu não sou judia. Já que você me acha feia, fique à vontade para nunca mais olhar para mim. Chamar um judeu de feio é uma forma de antissemitismo com séculos de idade, então, da próxima vez, vá direto para o feio e deixe o resto de fora. Obrigado”.

Depois que a congressista Ilhan Omar, uma das três muçulmanos no Congresso, afirmou em fevereiro de 2019 que AIPAC, o grupo de lobby pró-Israel, paga políticos para apoiar o Estado judeu, Clinton tuitou: “Devemos acolher todos os funcionários eleitos, independentemente do partido, e todos as figuras públicas para não incorrer em antissemitismo”.

O presidente Barack Obama não tem laços de família com judeus, mas muitos de seus conselheiros e assessores próximos na Casa Branca eram judeus. Tanto assim que Obama acabou realizando um Seder privado a cada Pessach durante seus oito anos na Casa Branca.

Quando Harris tomar posse como vice-presidente, será a primeira vez que um judeu viverá em uma das duas principais residências oficiais dos EUA: o Observatório Naval dos Estados Unidos, residência oficial do vice-presidente.

Há outra história judaica americana que Harris e Emhoff personificam: o casal inter-racial. Um número crescente de judeus americanos está se casando fora de sua cultura – incluindo brancos e judeus de diferentes etnias que representam algo entre 6% e 15% dos judeus americanos.

Claro, com Harris prestes a se tornar a primeira vice-presidente mulher da América, a maior parte da atenção em torno de Emhoff não será sobre ele ser judeu, mas o fato de ser o primeiro “Segundo Cavalheiro” da América – o título que ele escolheu como alternativa à designação tradicional, segunda-dama.

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