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Católicos e judeus refletem sobre o sentido bíblico da ‘travessia do deserto’ na pandemia 

Um evento virtual realizado no domingo, 20, reuniu cristãos católicos e judeus para refletir sobre a espiritualidade diante do sofrimento e do cansaço causados pelo isolamento da pandemia.
O evento foi promovido pela Comissão Nacional do Diálogo Católico Judaico (DCJ), com o apoio da Arquidiocese de São Paulo, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Confederação Israelita do Brasil (Conib), Congregação Israelita Paulista (CIP) e outras entidades católicas e judaicas.
A transmissão foi conduzida pelo rabino da CIP Michel Schlesinger – também representante da Conib para o diálogo inter-religioso – e pelo Cônego José Bizon, Diretor da Casa de Reconciliação e referencial para o ecumenismo e diálogo inter-religioso na Arquidiocese de São Paulo.
A live contou com a presença de lideranças das duas tradições religiosas, como o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, e Claudio Lottenberg, presidente da Conib.
“Vivemos um tempo de angústia, cheio de dificuldades. É muito oportuno refletirmos sobre o que a Sagrada Escritura nos orienta nesta situação”, afirmou Dom Odilo, ao elogiar a iniciativa.
O presidente da Conib também enfatizou que a união de esforços e o diálogo entre as duas tradições religiosas são fundamentais para ajudar a humanidade a atravessar esse tempo difícil. “Nós temos muito mais semelhanças do que diferenças e, portanto, quando partimos desta visão, colaboramos para construir uma sociedade melhor”, disse Claudio Lottenberg.
A temática foi abordada pelo Padre Ednilson Turozi de Oliveira, da Paróquia Santa Luzia, na Região Episcopal Brasilândia e professor do Centro Universitário Assunção (Unifai), e pelo rabino José Amarante, líder da Chavurá Halelu.
Ambos partiram da referência das Sagradas Escrituras, especialmente da imagem do deserto, para provocar uma reflexão sobre como enfrentar o período da pandemia em uma perspectiva sobrenatural.
“Nesse momento de ‘travessia do deserto’ e isolamento, algumas realidades humanas que se encontram com as realidades que vêm do alto, são pertinentes; crer, pensar, agir e sentir”, afirmou o Padre Ednilson.
O rabino José Amarante tomou alguns textos da Torá para fazer sua reflexão. Logo no início de sua exposição, ele recordou que, ao longo dessa pandemia, todos perderam, ao menos, algum parente, amigo ou conhecido para a Covid-19, o que, progressivamente, ampliou uma sensação de insegurança e desamparo.
“Nos momentos difíceis dessa travessia, até o Egito parecia um lugar fantástico. E nós, seres humanos modernos, no século XXI, em plena pandemia?”, indagou José Amarante, convidando a refletirem o quanto as pessoas se referem ao período anterior da pandemia com saudade.
Por outro lado, José Amarante afirmou que o deserto também é um lugar de oportunidades, que convida as pessoas a olhar para o seu interior e para os outros.
“O deserto é o lugar que fala conosco, onde podemos ouvir a voz de Deus. Mas, para isso, precisamos estar presentes, conectados aos acontecimentos e milagres cotidianos, com a força da vida”, disse o rabino, completando que, na pandemia, é preciso ter consciência do presente, atentos a si mesmos e àqueles que estão ao redor.
Padre Ednilson sublinhou o diálogo com os diferentes como uma atitude essencial para enfrentar os períodos difíceis. “Se é verdade que a terra estremece pela violência, pelo ódio, pelo sofrimento do inocente, também estremece quando se instaura o diálogo, a paz, a fraternidade, o respeito, o ‘cara a cara’ renovador e esperançoso”, enfatizou.
A DCJ é uma comissão mista e permanente criada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil no dia 27 de fevereiro de 1981, para articular em âmbito nacional o diálogo inter-religioso entre católicos e judeus no País.
Os objetivos dessa comissão são divididos em quatro âmbitos: institucional, teológico, ação conjunta e contato pessoal. “Há 40 anos, a DCJ tem promovido simpósios, debates, seminários, estudos bíblicos e apresentações diversas”, explicou o Cônego José Bizon.
“O trabalho do diálogo inter-religioso tem como objetivo garantir que o outro não seja uma ameaça, mas um ser humano com ideias, práticas e convicções distintas. Tenhamos a humildade e a ousadia de continuar aprendendo uns com os outros”, destacou o rabino Michel.

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