Chanceler ignora cobrança de desculpas a lideranças judaicas e culpa jornal de Israel

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ignorou a cobrança de lideranças judaicas por um pedido de desculpas e criticou o jornal The Times of Israel por, segundo o chanceler, fazer uma “crítica injusta e completamente equivocada” do que ele escreveu em seu blog pessoal.

Ernesto comparou o isolamento social para conter o coronavírus aos campos de concentração nazistas que mataram milhões de judeus.

A Confederação Israelita do Brasil repudiou o comentário do chanceler.

“Não há comparação possível entre uma medida sanitária, adotada em todo o mundo para combater uma pandemia, a uma ação persecutória e racista contra uma minoria inocente, que culminou com o extermínio de 6 milhões de judeus na Europa. Esperamos uma retratação imediata”, diz a nota da Conib, publicada nesta quarta-feira (29).

O Congresso Judaico Latino-Americano tuitou : “O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, mostrou uma lamentável falta de conhecimento e de sensibilidade do que foi o Holocausto. É impossível traçar paralelos entre a quarentena e o assassinato de judeus durante o regime nazista”.

A ativista e vice-presidente de assuntos internacionais da Liga Anti-Difamação (ADL), Sharon Nazarian, também tuitou sobre o comentário do chanceler, exigindo uma retração. “Durante o #COVID19, os líderes globais devem abster-se de equiparar a pandemia às ações nazistas que levaram ao assassinato de 6 milhões de judeus”.

O Comitê Judaico Americano também exigiu um pedido de desculpas do ministro. “Essa analogia usada por Ernesto Araújo é profundamente ofensiva e totalmente inapropriada. Ele deve se desculpar imediatamente”, escreveu a instituição no Twitter.

Nesta quarta-feira (29), o ministro respondeu, em uma sequência de publicações na mesma rede social, onde também discutiu com jornalistas que criticaram suas declarações.

“Orgulho-me de minha postura de denunciar e combater o antissemitismo e de meu trabalho pela construção da relação de profunda amizade e parceria desejada pelos povos do Brasil e de Israel”, escreveu o chanceler.

Sem mencionar o comitê e a cobrança pelo pedido de desculpas, afirmou que foi o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek quem trouxe os “campos de concentração como referência” ao falar da “sociedade totalitária que, em sua teoria, pode emergir da pandemia”.

Em texto publicado na semana passada seu blog pessoal, Ernesto afirmou que a pandemia de coronavírus faz parte de um “projeto globalista” que é um “novo caminho” e um “estágio preparatório ao comunismo”.

“No meu artigo, chamei a atenção, com indignação, para o trecho do livro em que Zizek banaliza o Holocausto, quando ele elogia o lema colocado à porta de Auschwitz, ‘Arbeit Macht Frei’ (o trabalho liberta)”, escreveu Ernesto.

O ministro acusou o jornal israelense Times of Israel de ter feito uma “leitura distorcida” de seu artigo e enumerou ações, que, segundo ele, comprovam suas tentativas de construir uma boa relação entre Brasil e Israel.

“Modificamos inteiramente o padrão de votação do Brasil nas Nações Unidas, abandonando a votação sistemática contra Israel, de caráter injusto e discriminatório, praticada durante décadas. Rejeitamos frontalmente o antissemitismo que se esconde por trás do antissionismo”.

“Apoiamos o plano de paz para a questão Israel-Palestina apresentado pelo governo dos EUA com apoio do governo de Israel, considerando que o plano parte da premissa indispensável de que qualquer solução garanta a segurança e a própria existência de Israel como Estado judeu”, acrescentou o ministro.

As declarações de Ernesto em seu blog pessoal também foram repudiadas por outras associações da comunidade judaica.

Em nota, o Instituto Brasil-Israel disse à Folha que, ao colocar os campos de concentração nesses termos, Ernesto “anula e relativiza a memória do Holocausto. E, ainda pior, acaba por reproduzir a lógica nazista: transformar os campos da morte em fábricas do esquecimento”.

“Impressiona o uso excessivo e absurdo que membros do atual governo brasileiro fazem do nazismo e do Holocausto. Desde as afirmações do atual presidente de que o nazismo seria de esquerda (feitas em frente ao Museu do Holocausto, em Jerusalém) até a reprodução do discurso do ministro da propaganda nazista pelo ex-secretário especial de Cultura, os absurdos se multiplicam”, diz a nota do instituto.

Em entrevista ao Times of Israel, o brasileiro Ariel Krok, membro do comitê diretor do Corpo Diplomático Judaico do Congresso Judaico Mundial, disse que a declaração de Ernesto “é de mau gosto, perigosa e demonstra completa ignorância do assunto”.

“A comparação bizarra é um claro exemplo da trivialização do que os campos de concentração foram, em que tantas vidas foram tomadas e que causaram tanto sofrimento”.

Em carta aberta ao chanceler, o grupo Juventude Judaica Organizada diz que a comparação “não só foi infeliz como desrespeitosa”.

“Ao fazer esse tipo de comparação, vossa Excelência e todos aqueles que insistem em fazer esse tipo de analogia, não só utilizam de maneira grosseira uma barbárie sem precedentes como também desrespeitam a memória de mais de seis milhões de judeus e suas famílias”, diz o texto.

O grupo também pediu que o ministro se desculpe publicamente, afirmando que essa é a condição para que se possa manter a “confiança no bom senso e respeito do Itamaraty, que é a parte do governo que mais se aproximou de nossa comunidade e de Israel na história do Brasil”.

Em resposta à declaração de Ernesto, segundo o qual “o nazista é um comunista que não se deu ao trabalho de enganar as suas vítimas”, o grupo Judeus pela Democracia, que reúne judeus de esquerda no Brasil, escreveu uma nota de repúdio em sua página no Facebook.

“Equiparar nazismo e comunismo é um dos revisionismos históricos mais perigosos da atualidade. O regime nazista foi de extrema direita em toda a sua essência. Comparar isso com os erros do comunismo é um absurdo”, diz a publicação.

De acordo com o chanceler brasileiro, o “comunavírus”, “vírus ideológico” que se sobrepõe ao coronavírus, faz “despertar para o pesadelo comunista”.

Em seu texto, ele também questiona entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Para o ministro, “transferir poderes” à OMS esperando que ela seja mais “eficiente para lidar com os problemas do que os países agindo individualmente” é um pretexto “jamais comprovado” e “o primeiro passo na construção da solidariedade comunista planetária”.