Ciclo de Cinema e Psicanálise discute as raízes da negação do Holocausto: Negacionismo se combate com educação, dizem debatedoras

Em 1996, o inglês David Irving, autor de livros que negam a existência do Holocausto, processou a historiadora norte-americana Deborah Lipstadt por difamação. O motivo seria um livro publicado por Lipstadt três anos antes que citava Irving nominalmente e o acusava de ser negacionista, reacionário e falsificador de documentos históricos. O inglês, que sempre se identificou como historiador, alegou que essas afirmações prejudicavam a sua reputação e o acusavam de um crime que ele não tinha cometido.

Para a psicanalista Selma Jorge, atitudes negacionistas como as de Irving – e de muitas pessoas que negam o aquecimento global, a letalidade do coronavírus, o fato de a Terra ser redonda – estão calcadas em uma profunda cisão do mentiroso com a própria identidade.

“Não é a história que se nega, é a identidade, até mesmo do perpetrador”, disse. “Reconhecer-se como nazista implica aceitar que o Holocausto aconteceu”. Ela apontou o negacionismo como uma falência do grau necessário de repressão de que todos nós precisamos para existir na sociedade.

“Quando o sujeito projeta no outro o que quer que ele seja, já não tem mais um filtro, uma barreira repressora, que possa dar sentido a quem sou ‘eu’ e quem és ‘tu'”. A psicanalista fez essa análise na edição mais recente do Ciclo de Cinema e Psicanálise, evento promovido pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a SBPSP, pela Folha de S.Paulo e pelo MIS, na terça-feira (9). O vídeo do debate, que foi feito à distância, está disponível no YouTube.

A discussão se deu a partir do filme “Negação”, que dramatiza o julgamento do processo movido por Irving, ocorrido em 2000 na Inglaterra. Na vida real e no cinema, Deborah Lipstadt (Rachel Weisz – foto) fez uma campanha pública contra o negacionismo e arrecadou recursos que a permitiram contratar Robert Julius (Andrew Scott), o mesmo advogado que defendeu a princesa Diana em seu divórcio.

Como o sistema jurídico do Reino Unido não se baseia na presunção da inocência, cabe ao acusado provar que é inocente – de modo que a defesa de Lipstadt foi colocada na posição de provar que o Holocausto aconteceu.

No julgamento, a estratégia de Irving (Timothy Spall) consistiu em se vitimizar, alegando que sua visão seria marginalizada por ser contrária a um ponto de vista hegemônico, e passar o negacionismo da área da opinião para a da interpretação. Ele defendeu que a proibição da hipótese negacionista limitaria o escopo de atuação dos historiadores que contestassem a versão oficial.

Os advogados de Lipstadt, por sua vez, optaram por jogar o foco em Irving e sufocar seus argumentos. Eles venceram a disputa ao mostrar que ele distorceu a interpretação de documentos históricos para adequá-los à sua ideologia.

Para a pedagoga Sarita Mucinic Sarue, monitora do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto, a educação é a principal ferramenta para combater o negacionismo. Ela contou que, ao perguntar a pessoas na rua o que era o judaísmo e os judeus, as respostas remetiam à Idade Média. Uma pesquisa feita no final do ano passado apontou que 22% dos entrevistados brasileiros nunca ouviram falar no Holocausto e 15% acham que o número de mortos no Holocausto é exagerado.

No Memorial, Sarue afirmou testemunhar diariamente a transformação de jovens que vêm com ideias preconceituosas absorvidas do inconsciente coletivo em pessoas que saem dali diferentes, impactadas.

O conflito entre a memória emocional e a necessidade de provar factualmente que o Holocausto aconteceu é o tema principal de “Negação”. No julgamento, os advogados de Lipstadt pedem que ela não traga sobreviventes para testemunharem, porque a presença deles justificaria o direito de Irving de contestar um fato.

Sylvia Colombo, correspondente da Folha em Buenos Aires, questionou até que ponto o processo não ajudou Irving, na medida em que deu uma grande visibilidade às suas teorias. “O julgamento deu a ele um espaço que quase não faz diferença quem ganhou. Talvez tenha sido ele o vencedor”, disse.

Colombo citou uma entrevista que Irving deu ao “The Guardian” em 2017, na qual ele afirmava estar se consolidando como fonte alternativa de informação para quem discordasse dos jornais e do governo, e que estava sendo redescoberto por adolescentes radicais que assistiam às suas palestras no YouTube.

Irving também afirmava que as doações que recebia tinham se tornado maiores e mais frequentes, na casa das dezenas de milhares de libras, e que, graças a elas, agora dirigia um Rolls-Royce.

“Não acho que a mídia tenha que ser demonizada por dar visibilidade a um julgamento como este e ouvir o negacionista”, ponderou a jornalista. “Se não ouvirmos o outro lado, corremos o risco de, em outro contexto, sermos colocados do lado que não deve ser ouvido”.