Conib participa de live sobre relatório a respeito de antissemitismo lançado pelo Observatório Judaico

O Observatório Judaico de Direitos Humanos Henry Sobel avaliou, em relatório, o crescimento do antissemitismo no Brasil. O trabalho aponta, em especial, sinais do aumento do sentimento antijudaico. O documento, com lançamento nesta terça-feira (21), contou com um debate virtual às 19h, com a participação, como convidados, de Fernando Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), Michel Schlesinger, rabino da Congregação Israelita Paulista (CIP), Adriana Dias, doutora em Antropologia Social e pesquisadora do neonazismo no Brasil e Jayme Brener, diretor do Observatório.

De acordo com o documento, que reúne dados de diversas instituições e teve resultados divulgados no jornal O Globo e em outros órgãos da imprensa, as manifestações e denúncias de antissemitismo vêm aumentando no Brasil. A pandemia da Covid-19 agravou a questão. Em maio de 2020, foram criadas 204 novas páginas de conteúdo neonazista no país, de acordo com a Safernet, ONG que monitora sites radicais. O número é sete vezes maior do que o registrado em 2018.

No debate, Fernando Lottenberg abordou a questão do pluralismo judaico. “É importante que a comunidade possa se expressar pelos seus vários canais. Não precisamos estar de acordo em tudo, o importante é manter o diálogo”.

O presidente da Conib realçou também “a importância de ter dados, de saber do que estamos falando”, disse. Lottenberg discorreu também sobre as diferentes formas de antissemitismo, o clássico, tal como expressado pelos neonazistas, o antissionismo e o fundamentalismo islâmico, explicando as diferenças entre eles e falou das ações da Conib em seu combate. Na frente educacional, por exemplo, a Conib aprovou o ensino do Holocausto na base curricular, em 2018. Em outra frente, a instituição faz uso de instrumentos legais. “A Conib tem mais de 20 processos em andamento. E não distinguimos alvos. Pode ser de direita, pode ser de esquerda, pode não ter vínculo partidário nenhum”, contou.

A atuação da Conib no campo das redes sociais também foi abordada, explicando que a instituição reage quando a comunidade é alvo de ataques e também na cooperação para que as plataformas passem a ter responsabilidade sobre o conteúdo publicado, falando sobre o Guia para Análise do Discurso de Ódio, produzido em parceria com a Fundação Getúlio Vargas.

Brener, um dos autores, ressalta que “há manifestações antissemitas em todos os espectros políticos. Mas o que podemos dizer é que nunca se viu nada parecido, em termos de intolerância. Nós ficamos assustados em alguns momentos, por exemplo, durante o período analisado, quando um homem foi a um bar com braçadeira com uma suástica em Minas Gerais ou quando uma pessoa é espancada por ser judia no interior de São Paulo”, diz o coordenador do estudo.

Pesquisa da antropóloga Adriana Dias, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especializada no estudo do nazismo e suas manifestações desde 2002, também identificou este crescimento durante a pandemia em seu artigo “Crescimento do antissemitismo no Brasil”. Nos seis primeiros meses de 2020, o número de células neonazistas ou semelhantes no Brasil cresceu mais do que em todo o ano de 2019.

Um dado destacado por Adriana Dias é o aumento de pessoas que se dizem parte de grupos neonazistas no país, que já chega, por seus cálculos, a sete mil membros:

“Os números mostram que as pessoas se sentem mais legitimadas a cometer atos de intolerância. Precisamos de de fiscalização ainda mais dura para conter discurso e ações”.

O rabino Michel Schlesinger, da CIP, afirmou: “Os judeus trouxeram para o pensamento teológico a ideia do monoteísmo, não somente o monoteísmo, mas o monoteísmo ético, que a gente se aproxima desse D’us único na medida em que a gente se compromete com o bem, com a verdade e a justiça. Mais tarde, o monoteísmo também foi abraçado pelo cristianismo e pelo islamismo. Essa unidade de Deus, do ponto de vista teológico, deveria inspirar a unidade da humanidade, no sentido de cooperação, trabalho conjunto. No entanto, esse conceito de unidade é confundido, de tempos em tempos, com o conceito de uniformidade, que a própria tradição judaica rechaça. A uniformidade empobrece a humanidade. Não queremos ser todos iguais. É justamente na nossa diversidade que temos a oportunidade de cooperar, cada um contribuindo com o seu melhor. O nazismo no século 20, foi o ápice dessa tentativa de uniformizar a humanidade. Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, 75 anos atrás, o mundo parecia ter percebido que precisamos cooperar para nos tornarmos mais fortes. Foi então que surgiu a ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, começaram a aparecer blocos de diferentes países, que compreendiam que precisavam respeitar suas diversidades para trabalhar em conjunto. Nos últimos anos, a gente tem testemunhado um retrocesso desse processo, a volta de um discurso ultranacionalista, em diversas parte do mundo e também aqui no Brasil. O antissemitismo pode também ser compreendido lato sensu, a discriminação contra qualquer ser humano, é uma agressão, para nós judeus, que acreditamos na unidade e que combatemos a uniformidade”, destacou.