Convenção anual da Conib debate pequenas comunidades, identidade judaica e notícias do Oriente Médio

Em sua 44ª convenção anual, realizada no último fim de semana em Belo Horizonte, a Conib, com representantes de federadas de 13 Estados e de entidades judaicas de âmbito nacional – Agência Judaica, B’nai B’rith, Na’amat Pioneiras e Wizo, além de jovens do Habonim Dror –  o embaixador de Israel, Rafael Eldad, o cônsul-geral de Israel em São Paulo, Yoel Barnea, e o cônsul-honorário de Israel em Belo Horizonte, Silvio Musman, abordou os caminhos da identidade judaica no Brasil, analisou formas de apoio às pequenas comunidades, discutiu a produção de notícias sobre o Oriente Médio e debateu a posição de integrantes do Congresso Nacional sobre questões ligadas ao Estado de Israel.  

Na capital mineira, o presidente da Conib, Claudio Lottenberg, se reuniu com o prefeito Marcio Lacerda. Mais tarde, os participantes da convenção foram recebidos no Palácio da Liberdade pela secretária de Estado do Planejamento e Gestão, Renata Vilhena, representando o governador de Minas Gerais, Antônio Anastasia. Vilhena lembrou as missões oficiais a Israel, no governo de Aécio Neves, e ressaltou a forte parceria entre Minas e Israel, com destaque para as áreas de ciência, tecnologia e de incubadoras: “Israel é nossa inspiração”. Fernando Lottenberg, secretário-geral da Conib, observou o forte simbolismo de a recepção aos judeus brasileiros, “que o País acolheu de braços abertos”, ocorrer no Palácio da Liberdade, e lembrou de Tiradentes, Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves. A Agência Minas e a rádio CBN de Foz do Iguaçu destacaram a recepção.

Na convenção, foram homenageados postumamente, por sua grande contribuição à causa judaica, Mauricio Corrêa, presidente do STF, Samuel Szerman, presidente da Associação Cultural Israelita de Brasilia; e Marx Golgher, ativista comunitário mineiro. Também recebeu homenagem João Leite, deputado estadual de Minas Gerais.

Fernando Lottenberg destacou o grande papel desempenhado por Corrêa no caso Ellwanger, em 2003, em que o STF apreciou dois temas: 1) antissemitismo é racismo? 2) a liberdade de expressão abrange a divulgação de escritos de ódio a que se dedicava Ellwanger, editor e autor de livros antissemitas e de negação do Holocausto?  Corrêa foi o relator do acórdão que concluiu que o antissemitismo é uma prática de racismo e que a liberdade de expressão não consagra o direito à incitação do racismo. Emocionadas, Alda e Cleo Corrêa, esposa e filha do ministro, agradeceram a homenagem.

Henry Chmelnitsky, vice-presidente da Conib, lembrou o pioneirismo de Samuel Szerman em mostrar à liderança judaica a importância de uma representatividade forte em Brasília. Hermano Wrobel, da Associação Cultural Israelita de Brasília, destacou o último feito de Szerman: conseguir em pouco mais de um mês angariar doações para a compra de um livro da Torá, no início deste ano.

O deputado estadual João Leite agradeceu muitas vezes pela homenagem e disse que os brasileiros têm muito a aprender com os judeus.  Marcos Brafman, presidente da Federação Israelita do Estado de Minas Gerais, ressaltou a atuação do deputado em defesa da comunidade judaica e de Israel e seu trabalho na Comissão de Segurança Pública, em que denunciou grupos neonazistas no Estado.

Na presença de sua esposa Myra e de seu filho Gerson, o ativista comunitário mineiro Marx Golgher foi homenageado por Mauro Terepins, vice-presidente da Conib, que se disse impressionado com a longa lista de realizações de Golgher, entre elas a doação do terreno para a construção da Escola Municipal Anne Frank, também representada na cerimônia. Lívia Mendes, aluna da escola e vencedora do Concurso de Redações Anne Frank, promovido este ano pela Conib, em parceria com a Fisesp e o Arquivo Judaico, ouviu de seu professor Eduardo Ezequiel que o prazer do mestre está nas conquistas de seus alunos. Sandra Mara de Oliveira, coordenadora da escola, foi uma das convidadas.

Um dos temas de discussão mais calorosa na convenção foi a identidade judaica no Brasil. O debate teve Maria Luiza Tucci Carneiro, professora de História, da USP; Jorge Zaverucha, cientista político, da UFPE; Jacques Levy, presidente do Instituto Histórico Israelita Mineiro, e Daniel Douek, cientista social e membro do grupo de jovens Fórum 18.

Tucci Carneiro apresentou sua obra “Brasil Judaico, Mosaico de Nacionalidades” (Editora Maayanot), que lhe tomou 10 anos de trabalho. O livro trata da identidade judaica no Brasil, com recorte a partir de 1808, ano da chegada de D. João VI. A professora apontou uma postura comum entre os judeus brasileiros: “o ideal de justiça, o respeito à diversidade”. Ela ressaltou a importância de as famílias conservarem e doarem fotos e documentos (contato: leer@usp.br). 

Douek notou que o contexto do século 21, “com um Brasil democrático e um Estado de Israel consolidado”, muda a relação do jovem com o judaísmo, em comparação com o século pasado, e disse que foi o contato com outras minorias no Brasil que fortaleceu sua identidade como judeu. Levy mostrou preocupação com a continuidade da liderança comunitária. Marcos Brafman, presidente da Fisemg, observou que os programas Taglit e Marcha da Vida realizam um ótimo trabalho com os jovens judeus e merecem aplausos, com o que concordou Claudio Lottenberg. Zaverucha elogiou todos os presentes, afirmando que são “teimosos” em manter seu judaísmo, diante de todas as opções que poderiam afastá-los. O coordenador de Relações Institucionais da Conib, Jaime Spitzcovsky, acrescentou que hoje temos um ambiente democrático, revolução tecnológica e mudança no tecido social, o que cria a situação de um “judaísmo por opção”. Claudio Lottenberg lembrou que uma das conquistas da atual gestão da Conib é a aproximação de intelectuais judeus à comunidade.

A relação dos judeus brasileiros com Israel foi também discutida. Herry Rosenberg, diretor de Planejamento Estratégico da Fierj, elogiou a “aproximação de Israel com a diáspora nos últimos dois anos”, e o cônsul Yoel Barnea confirmou que a nova geração de israelenses têm mais interesses em comum com os judeus ao redor do mundo. Revital Poleg, da Agência Judaica, que tem como função principal fomentar a continuidade da vida judaica, afirmou que tem viajado pelo Brasil para o trabalho com jovens de até 30 anos. O embaixador Rafael Eldad disse que há hoje um diálogo fluente com o governo brasileiro, e Jaime Spitzcovsky acrescentou que houve uma mudança de percepção em Israel sobre o Brasil, como mostra a realização do primeiro seminário acadêmico sobre o Brasil, na Universidade Hebraica de Jerusalém, em 2011.

No âmbito interno, as entidades federadas divulgaram suas principais ações no ano e suas demandas. Elas debateram formas de aprimorar sua cooperação para a resolução de problemas comuns. Em 2012, a Conib criou um grupo de apoio às pequenas comunidades, com mais de 10 projetos concluídos ou em execução, entre eles a construção de sinagogas e a criação de escolas de ensino complementar judaico. As federações de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, com a gestão da Conib, estudarão maneiras de contribuir, com sua expertise, para atender as demandas das demais federadas.

Com dois especialistas, Carlos de Lannoy, ex-correspondente da Globo em Jerusalém, e Sergio Malbergier, ex-editor de Mundo da Folha de S. Paulo, os participantes debateram a produção de notícias sobre o Oriente Médio. Lannoy, contente com o convite feito pela Conib, foi muito claro e objetivo em suas intervenções. “Foi a experiência mais fascinante que tive como repórter”, afirmou. Elogiou a “máquina de notícias” israelense, capaz de informar em poucos minutos sobre ações do Exército de Israel. E acrescentou que nunca ouviu falar de uma “guerra de propaganda entre israelenses e palestinos”. Para concluir: “Se vocês acreditam, Israel é uma boa causa, mas com as imagens reais e não as ideais. Os jornalistas não acreditam em lado bom”.

Para Malbergier, o noticiário internacional é “padronizado, porque há poucos correspondentes brasileiros no exterior”. Além disso, eles não têm acesso primário às fontes. “Há desinformação sobre o conflito no Oriente Médio, mesmo entre jornalistas, e nesse aspecto há um papel importante para a comunidade judaica: levar jornalistas a Israel”. Ele elogiou a postura da Embaixada de Israel, que tem procurado destacar os sucessos de Israel em áreas como a de tecnologia, mas acrescentou que isso atrai menos atenção das pessoas. Assim, Israel deve sempre estar preparado para divulgar sua atividade política. Henry Chmelnitsky e Jaime Benchimol, representante do Amazonas, salientaram a importância de enviar ao Estado judeu também jornalistas das mídias regionais e locais.

Spitzcovsky ponderou que há de fato uma guerra midiática, e os dois lados do conflito usam a mídia conforme suas estratégias. Os palestinos, incapazes de vencer no campo militar, optam pelo combate no campo político. Claudio Lottenberg afirmou que o debate cumpriu seu propósito de suscitar a reflexão dos líderes comunitários para que tenham uma postura crítica e equilibrada com relação ao noticiário sobre Israel.

Em um ano de grandes acontecimentos políticos no Brasil, a Conib trouxe à convenção Leonardo Barreto, diretor de Pesquisas Políticas do Instituto FSB. Ele analisou as manifestações recentes no País e as estratégias do governo para enfrentar a crise.

Veja galeria com 48 fotos da convenção.


Participantes da convenção da Conib, em Belo Horizonte. Foto: Elias Henrique.