Convenção da Conib teve Bari Weiss, Yossi Klein Halevi e debate sobre fake news e discurso de ódio

A programação da 51ª Convenção da Conib aberta ao público contou, na noite de sábado (21), com um talk show com a jornalista norte-americana Bari Weiss e o ex-presidente da Conib, Fernando Lottenberg. Com seu estilo franco e aberto, Bari conquistou a audiência ao tratar de assuntos como a recente eleição americana, a ala à esquerda do Partido Democrata, a vitória de Biden, a questão do antissemitismo nos EUA e de como se sentiu com o ataque, há dois anos, à sinagoga Árvore da Vida, em Pittsburgh, que frequentava e tema tratado em seu livro “Como combater o Antissemitismo”. “Se você me pergunta o que aconteceu durante os últimos dois anos, direi que eu fui acordando cada vez mais e percebendo que não há nenhuma lei de ferro que diga que os Estados Unidos devem continuar sendo a melhor diáspora judaica nem a democracia liberal,que nós sempre assumimos que seria”, disse Weiss.

Ela também falou sobre a sua saída do jornal New York Times, este ano, onde era editora de Opinião. Saída esta motivada, diz ela, pelo jornal não protegê-la do “bullying” constante dos colegas, por ela dar voz a opiniões divergentes da maioria de seus pares no jornal. “Nossa! Eu sai porque já não conseguia fazer o meu trabalho ali, e porque talvez eu tenha um parafuso solto,mas eu fui criada para me manter firme por determinados valores, e trabalhar ali estava se tornando mais do que um compromisso normal.Estava começando a trair os meus valores”, explicou ela. Weiss deixou ainda uma mensagem para a comunidade judaica brasileira: Acho que o que mais podemos reivindicar neste momento, em que parece que você deve escolher, preto ou branco, é que se podemos preservar a nossa espécie de DNA histórico contra cultural, seremos ainda melhores. Para mim, sentir que sou uma pequena partezinha da história judaica, me deu muita força e muita clareza, sobre o que está bem em tempos de incerteza, que eu simplesmente desejo esse sentimento para todos.

Yossi Klein Halevi, em seu primeiro encontro com a comunidade judaica, também falou, na conversa com Eduardo Wurzmann, intitulada “Novos Cenários no Oriente Médio” sobre as eleições americanas, desta vez do ponto de vista de quem está em Israel, sua preocupação com o Irã, seu livro mais recente “Cartas Para meu Vizinho Palestino” e a possibilidade de paz entre Israel e seus vizinhos. “Não estou otimista quanto às chances de uma solução para o conflito, mas tenho esperança. Tenho uma visão de esperança de longo prazo. E a razão pela qual digo ter hoje mais esperança do que dois anos atrás é em função das mudanças que estamos vendo na região”, disse Halevi. Falou também sobre complexidades internas de Israel, como a relação com a população árabe-israelense e com os ultraortodoxos. “Israel é um Estado judaico e é um Estado democrático. Os israelenses árabes têm problemas com Israel ser um Estado judaico.E os ultraortodoxos têm problemas com Israel ser um Estado democrático.Como absorver essas duas comunidades dentro do caráter israelense, se parte essencial desse caráter é estranho a cada uma delas”, disse Halevi, ressaltando que acredita que o maior desafio de Israel hoje é de caráter doméstico. A questão dos judeus da diáspora e a relação com Israel também foi analisada. Ao final, Halevi agradeceu a oportunidade de conversar com a comunidade judaica brasileira. “Eduardo, estou encantado por conhecê-lo e ansioso por estabelecer um relacionamento com meus irmãos e irmãs do Brasil. Muito obrigado pela atenção”.

51ª Convenção
Yossi Klein Halevi

 

O professor Celso Lafer abriu o debate deste domingo sobre Fake News e Discurso de Ódio na 51ª Convenção da Conib, dizendo que a questão não é nova e citando o Talmud quando se refere a “ladrões que roubam a mente de seus semelhantes através de palavras mentirosas”.

professor Celso Lafer

O secretário da Conib, Rony Vainzof, fez uma apresentação sobre as diferentes formas de discurso de ódio e de fake news nas mídias sociais. Citou a robusta pesquisa que a Conib fez junto com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) criando o Guia de Análise de Discurso de Ódio. Rony também citou o Marco Civil da Internet (2014) que prevê que as plataformas de mídia social só podem ser responsabilizadas se houver manifestação judicial. De lá para cá, as discussões nesse sentido vem avançando, em busca de mais transparência e ações das plataformas de mídia social para coibir as fake news e a divulgação de discursos de ódio.

Rony Vainzof

O professor Ricardo Campos, da Universidade Goethe de Frankfurt, falou sobre a legislação alemã criada em 2017 para regulamentar a ação das plataformas de mídias digitais no sentido de coibir o discurso de ódio. “A questão passou a ser prioridade na Alemanha por causa do trauma da Segunda Guerra. O país criou legislação específica para definir a atuação das redes sociais. O Código Penal do país considera crime a negação do Holocausto e a lei busca estabilizar o conteúdo das plataformas, enquanto o Judiciário acompanha e observa”, disse ele.

Professor Ricardo Campos

O deputado Federal Felipe Rigoni citou o Projeto de Lei, apresentado no início de abril, que busca trazer transparência para a moderação do conteúdo divulgado na internet. Para ele, as plataformas devem explicar como é feita a moderação de conteúdo; se determinado conteúdo tem patrocínio (se é pago ou não) e se usa robôs. Para ele o uso de robôs na divulgação de conteúdos não é problema. Isso tona-se um problema quando os robôs usam imagens de pessoas para divulgar conteúdos falsos. “Essas transmissões precisam ser identificadas e retiradas”.

Deputado Federal Felipe Rigoni

A deputada federal Tabata Amaral defendeu a necessidade de uma “educação midiática”. “É importante que as pessoas saibam como identificar uma informação falsa antes de repicá-la. Ela afirmou que os brasileiros têm uma tendência maior a não reconhecer essas informações e repassá-las. Ela afirma que 62% dos brasileiros não sabem reconhecer uma informação falsa. Para ela é preciso empoderar as pessoas para que não se tornem vítimas dessas armadilhas. “As plataformas mostram pouco o que fazem e me preocupa a forma arbitrária como é feita a moderação”. Ela elogiou o importante trabalho da Conib para identificar como começa um discurso de ódio. “É importante desarticular um discurso de ódio, mas a participação da sociedade nesse processo é fundamental”, advertiu. Por último, ela defendeu a necessidade de as plataformas exporem os critérios que estão utilizando para detectar as fake News. Para ela a transparência é fundamental para proteger tanto a vítima (quem recebe a informação) como quem repassa inadvertidamente. “Quando se rotula um conteúdo é necessário explicar ao usuário o porquê para que ele tenha condições de reagir”, diz ela.

Deputada federal Tabata Amaral

Rony Vainzof encerrou o debate destacando a importância de as pessoas se colocarem no lugar do outro, de quem sofre o discurso de ódio. “Isso ajudaria e mitigar o problema”.

Debate 51ª Convenção