Foto: CAFI

Deborah Colker estreia Cura, espetáculo com dramaturgia assinada por Nilton Bonder, e fala sobre sua ligação com o judaísmo

 

“Eu sou judia. Eu tive essa educação judaica, sou uma pessoa educada, abastecida (nessa fonte), meu olhar crítico sobre as coisas vem daí”, diz a coreógrafa Deborah Colker, em entrevista à CONIB. As referências judaicas, que são parte importante na sua formação – ela estudou em  colégio israelita – também são evidentes no seu novo espetáculo, Cura, que chega nesta quinta (4) a São Paulo, no Teatro Alfa, para temporada até 14 de novembro.

Deborah se serviu de diversas crenças e culturas para construir o espetáculo. Recorreu aos índios, aos africanos, suas danças, cantos e rezas, à poesia de Leonard Cohen, aos Salmos bíblicos, aos cantos Sufis, em busca de palavras de cura. E, claro, consultou o rabino também. Nilton Bonder assina a dramaturgia do espetáculo. ““O rabino é o maior contador de histórias”. E ela queria contar histórias.

Carioca, Deborah cresceu em uma família não religiosa, mas que celebrava as festas e tradições judaicas. Estudou no Eliezer Steinbarg, em Laranjeiras, onde teve aulas de história judaica, de hebraico e, por algum tempo, também de iídiche. Mas, quando fala de uma herança judaica, menciona a força das mulheres judias. “Tenho uma família de mulheres muito fortes. Mulheres que não sucumbem, resistentes. Isso para mim é o meu DNA. De encontrar um lugar, de fazer da maneira que eu acredito”. “Quando falam hoje para mim de empoderamento feminino, eu respondo: Eu sou uma mulher judia”. “Isso é muito o meu judaísmo”.

Deborah se define como rebelde, conta que não casou com um judeu, mas garante que o fotógrafo Cafi (1950-2019) pai dos seus filhos, era mais judeu que muita gente. Admirava profundamente o judaísmo. Disse que ela uma vez expressou para a mãe a dúvida de não educar o filho, Miguel, em colégio judaico, ao que teria recebido por resposta que aquilo não era motivo para preocupação. “Judeu é aquele que gosta de ser judeu”. Miguel acabou viajando para Israel pelo Taglit porque quis, fez bar-mitzvá no Muro das Lamentações, em Jerusalém, porque assim escolheu, e tem mezuzah em casa. Agora ela tenta convencer o neto Theo, que está com 12 anos, a fazer bar-mitzvah. “O Bonder quer fazer o bar mitzvah dele”.

A ligação com Bonder se iniciou com a morte do pai, em 1998. Ela foi à sinagoga para a reza, achando que passaria ali o tempo que durasse o serviço. Ficou a tarde inteira, ouvindo o rabino contar histórias. A partir dali, ela conta, passou a prestar mais atenção nele. Mas foi em 2016 que ficaram mais próximos, quando foi procurada por Bonder, que recorreu a ela para inserir no filme baseado em seu livro A Alma Imoral, poesia e movimento. Acabou percebendo que o trabalho dela falava muito sobre questões tratadas em A Alma Imoral. “Minha identificação era muito com os personagens: Abrãao, Sarah, Isaac”, ela especifica.

Em 2018, foi procurar Bonder, já por conta do espetáculo Cura. Queria que a obra contasse histórias.  ela explica. Ironicamente, foi a história de um orixá, Obaluaê, que traz em si tanto a doença como a cura, que acabou por servir ao espetáculo, que conta com cinco personagens: o físico teórico Stephen Hawking, o neto Theo, Jesus Cristo, Obaluaê e o cantor, compositor e poeta Leonard Cohen. Nesta colcha de referências, ela ordena a história que começa com Theo contando uma história a avó.

Leo Aversa
Cura. Foto: Leo Aversa

Cura tem por ponto de partida a indignação frente ao que não tem cura. Cura é uma busca incessante da humanidade e particular de Deborah.  A coreógrafa dedica seu tempo a perseguir respostas e soluções para a doença genética de seu neto, Theo, a epidermólise bolhosa, que provoca feridas e a formação de bolhas na pele por conta de mínimos atritos ou traumas.

Referências judaicas  em Cura não faltam. Deborah diz que Théo começaa narrar a história e o espetáculo se desenrola como quando alguém que abre a Torah para iniciar leitura. No espetáculo, há um momento em que se levanta um muro. “É claro que é o Muro das Lamentações”, diz ela. Há ainda Nilton Bonder cantando em hebraico a oração EL NA REFA NA LA, que Moisés fez a Deus, pedindo para curar sua irmã Miriam, que estava com lepra. “É o primeiro pedido de cura da bíblia”, conta Deborah, que traz ainda Carlinhos Brown, que assina a trilha, cantando em hebraico também. A música You Want It Darker, de Leonard Cohen também entra no espetáculo. A coreógrafa destaca a palavra Hineni, que Cohen clama na letra e que significa “Eis me Aqui Senhor”. “Minha mãe morreu no dia da estreia”, conta Deborah, que teve que lidar com os sentimentos da perda em um dia especial. Disse que à beira da sepultura, entendeu o significado completo da palavra hineni que carrega no espetáculo.

Deborah entendeu também que aceitar não significa desistir. Ela vai seguir, guerreira como as suas antepassdas judias, na sua jornada de cura subindo quantas montanhas forem necessárias. “Pode ser que eu caia. Pode ser que eu voe”.

Espetáculo Cura, Foto: Leo Aversa